É, mané, achou que tinha aumentado sua renda permanente, né?

bitcoin

 

Pois é. Eis aí o Bitcoin (clique na imagem para ver a base de dados original), sensação não tão sensacional assim para a galera que investiu. Como sempre, vale a lição econômica básica: seja um sujeito convexo! Diversifique suas opções. Aqueles que apostaram na moeda nova ainda não precisam se lamentar…quando observamos apenas o valor da moeda ao longo do período analisado.

Mas não achei um único entusiasta que não tenha ficado incomodado com o colapso de algumas empresas. A esperança, como sempre, está no mercado (é, ele mesmo). Um novo derivativo surgiu para proteger os investidores. Sim, isso mesmo, notícia fresca.

Engraçado mesmo é aquele meme que circula na internet dizendo algo (em um tom irônico) como: “o governo quebra todo mundo e você pede mais governo”. Curiosamente, quando um setor não-regulado como o do bitcoin sofre terremotos, as pessoas não saem por aí com o meme invertido, o que não deixa de ser irônico.

Então, a solução para a instabilidade do bitcoin será “mais mercado”? Tomara. Mas é bom lembrar: ainda estamos longe de ver a era dos bitcoins. Vai levar tempo ainda. Agora, uma coisa é certa: quem não quis ouvir Milton Friedman e se esqueceu da renda permanente se deu mal.

p.s. por que é que liberais gostam de soluções de mercado para falhas de mercado? Olha, isto dá um texto gigante. Fica para outro dia.

Lições de vida: Expectativas Racionais e o dilema de metas e instrumentos

Grandes economistas são aqueles que também nos deixam ótimos resumos. Scott Sumner, por exemplo, dá-nos esta ótima definição de expectativas racionais.

3.  Rational expectations:  It makes no sense to have a model of the economy that assumes X, but which is filled with people who believe “not X.”  As Bennett McCallum pointed out this idea is better called “consistent expectations,” as the term “rational” has all sorts of connotations that have nothing to do with the public’s expectations being consistent with the model of the public’s behavior.  Rational expectations also underlies the “Lucas Critique,” the idea that a statistical relationship that is true under one policy regime, may not hold up if the policy regime is altered to take advantage of that statistical relationship.

Depois disto, fica difícil entender como é que um sujeito que se diz economista tem a coragem de achar que ganha um debate chamando alguém de “físico” ou tentando menosprezar o adversário enquanto acredita em modelos que não fazem sentido (quando o imbecil, por sua vez, acredita em modelos, porque há uns que se acham metodólogos sem nunca terem feito uma prova da disciplina de metodologia, mas acham que o papo é bom para pegar mulher e, então…já viu, né?).

Desculpa, o termo é “imbecil” mesmo. Tem coisas que ficam melhor quando chamadas pelo seu nome correto.

Em outro momento do texto, Sumner tenta vender sua idéia de meta do PIB nominal usando Fama:

2.  Target the futures price of the policy goal:  It’s silly to have intermediate targets such as the fed funds rate, or the exchange rate. Simply adjust the monetary base as necessary to keep the futures price of the policy goal variable on target.  But of course first you need to create a futures market for the policy goal variable (preferably NGDP.)

Não tenho opinião formada sobre isto, mas há quem goste da meta do PIB nominal. Sou um pouco mais tradicional porque sou daqueles que leu o clássico de Poole lá no IPE-USP e curte uma abordagem de metas-instrumentos mais tradicional.

Por falar nisto, todo aluno de graduação deveria se sentir obrigado a ler não apenas o clássico do Friedman (The role of monetary policy), mas também este do Poole. Como é que alguém que diz querer debater com o populacho e com os pares sobre política monetária consegue dormir de consciência tranquila sem ler estes artigos?

Caso você ache que sou exagerado, faça o teste: leia os artigos, volte para seu livro-texto e depois me condene. Não importa. Mas leia.

p.s. Curiosamente, eu citei McCallum hoje, em sala. Alguns alunos anotaram (talvez um ou outro vá procurar o livro). Aí, no mesmo dia, eu venho à blogosfera, e um dos melhores debatedores de Monetária que eu conheço, o Scott Sumner, cita o autor. É destas coisas que eu gosto: sentir que, apesar do que pensam alguns, ainda estou no centro do debate.

p.s.2. Obviamente, estes debates vão além destes dois textos mas não seja ignorante. Você resolve tantas equações estocásticas…não serão dois textinhos simples que vão destruir seu conhecimento semi-divino de álgebra linear, não é?

Consumo e Renda no Japão (2004-2010) – outra discussão de Econometria Aplicada

Vamos falar de consumo e renda hoje. Aliás, vamos falar de função consumo. Vamos aproveitar a boa vontade do Statistics Bureau do governo japonês e aproveitar a oportunidade para fazer uma reflexão sobre a mais famosa das funções em Ciências Econômicas desde Keynes: a função consumo. Para os aficcionados do gênero, nada mais importa na vida se você não observar esta coisinha aqui: Ct = a + bYt + εt, no qual nosso último termo é o famoso erro aleatório lá dos livros de Econometria.

Então segura que vem mais Econometria!

Os dados, da tabela 20-6, são referentes aos gastos e renda das famílias (Average of Monthly Income and Expenditures per Household (Workers’ Households) de todo o país. A série só é contínua (dados mensais) a partir de 2004. Assim, nossa análise se inicia neste ano. Antes de mais nada, vejamos o gráfico de nossas séries (trabalharei com apenas duas delas).

japao_consumo_Familias

Nada como uma economia estagnada, não? Sem muito rigor, percebe-se que as séries todas giram em torno das respectivas médias que, por sinal, parecem relativamente constantes (alguém diria: a série parece ser estacionária). A economia japonesa, aliás, está estagnada? Julgue você mesmo pelo gráfico abaixo (gerado com os dados do FED).

Embora os dados sejam distintos, dá para se ter uma idéia de como a vida de uma família mediana tem sofrido em termos de consumo. Não daria mesmo para esperar uma renda média crescente ao longo do tempo. Eis aí um aspecto qualitativo da estacionariedade de uma série: ninguém gosta de renda estacionária, mas sim de renda com tendência de aumento. Enfim, vamos em frente.

Olha a sazonalidade….será?

Os dados aparentam ter algum aspecto sazonal? É difícil ver pelos seis gráficos anteriores. Então, novamente, façamos uso do bom e velho gráfico da sazonalidade, intuitivo e simples. Neste post farei uso de duas das variáveis acima: gastos em consumo e salários. Eis os gráficos pertinentes.

wage_sazonal cons_sazonal

A evidência de que há sazonalidade parece ser justificada (alguém poderia querer usar os famosos gráficos das funções de autocorrelação e autocorrelação parcial e, creio, é uma boa idéia).

Então veio a hora: vamos ver a função consumo? Consumo em função da renda. A teoria me diz que devo considerar apenas as duas variáveis, mas minha análise dos dados da amostra me diz que devo olhar para a sazonalidade. Uma forma simplificada – e nem sempre correta – de analisar a sazonalidade é usar dummies sazonais. Bem, no quadro abaixo, a coluna (2) nos dá os resultados da regressão linear incluindo as dummies.

sazonalidade_e_tendencia_fazem_falta

Bom, eu sei que há várias observações – e não me refiro ao número de observações da amostra – a serem feitas aqui. Primeiro, para os que adoram um R ao quadrado, bem, reparem como a sazonalidade não pode ser desprezada. A regressão sem as dummies sazonais tem um R ao quadrado bem baixo (ajustado por graus de liberdade ou não).

Mas este ajuste não nos diz muita coisa se os resíduos da regressão não se aproximarem de algumas hipóteses, uma delas, a de normalidade. Abaixo, vemos como os resíduos das duas regressões se comportam com respeito a uma distribuição Normal teórica (os famosos gráficos Q-Q).

residuos_r

residuos_r2

Pode não ser a distribuição mais normal do mundo, não é? Em termos de autocorrelação dos resíduos, sob a hipótese nula de que a mesma é de primeira ordem, aplicando um teste de Breusch-Godfrey, obtemos um resultado que diferencia mais ainda as duas regressões. No primeiro caso, temos uma alta probabilidade de se rejeitar esta hipótese, ao contrário da segunda regressão (a que inclui as dummies sazonais).

Então, à primeira vista, parece haver um trade-off entre os modelos. No primeiro caso, não se consegue captar os efeitos sazonais com exatidão. No segundo, temos um padrão de autocorrelação que não deveria estar nos resíduos. Você pode visualizar isto nas funções de autocorrelação dos resíduos das respectivas regressões. Eles estão a seguir.

acf_residinicial

acf_resid2

Viu só como estas coisas não são assim tão simples? Veja só o aspecto da sazonalidade. Uma coisa que fizemos foi supor que ela é aditiva. Cada efeito mensal se soma ao anterior. Entretanto, ela não precisa ser assim, como nos ensinam lá nas aulas sobre modelos ARIMA com sazonalidade (SARIMA).

Então, uma opção seria estimar uma espécie de função consumo dentro deste arcabouço (as chamadas funções de transferência). De certa forma, isto equivale a estimar um modelo autoregressivo com defasagens distribuídas (ADL). Para mais detalhes, veja o que se diz aqui: um modelo ADL com uma suposta estrutura racional para as defasagens equivaleria a uma função de transferência. Caso você não queira detalhes técnicos, apenas imagine que estou, pragmaticamente, tentando captar a autoregressão incluindo-a como uma variável defasada na minha equação estimada (2) da tabela acima.

Fazendo isto, obtenho uma nova função consumo e os erros parecem não possuir autocorrelação de primeira ordem. A regressão é esta:

consumo_japao_com_ar

Repare que, neste modelo, a propensão marginal a consumir no longo prazo é bem baixa (0.167/(1-0.408)) = 0.28. Assim, um aumento de 1 Yen no salário geraria um aumento de consumo de 0.28 centavos de Yen.

A volta da prática para a teoria…e vice-versa

Ok, estimamos a função e, pensando apenas no problema de auto-correlação, incluímos a variável dependente defasada. O leitor mais chegado na teoria vai me perguntar: mas e agora? Isto aí “representa” alguma teoria sobre o consumo?

Para nossa sorte, sim. Esta função consumo pode ser encarada como a contrapartida empírica do modelo da função consumo sujeito à existência de hábito (inércia no consumo). Charemza & Deadman (2002) mostram que este modelo é derivado a partir da seguinte estrutura:

Cdt = a + bYt

Ct – Ct-1 = (1-γ)(Cdt – Ct-1) + ut

Cd é o consumo desejado, ut é um erro aleatório e, claro, 0 < γ <1 é um parâmetro que ilustra o “hábito”. Em outras palavras, a variação do consumo é uma função da diferença do consumo desejado e do consumo efetivo passado sujeito, obviamente, a um erro aleatório aditivo.

Quando você resolve este sistema – você tem que fazer isto para fazer com que a variável não-observável, Cd, desapareça (por que? Porque você não tem dados da mesma para estimar) – você encontra a seguinte função consumo:

Ct = (1- γ)a + γCt-1 + (1- γ)bYt + ut.

Não é preciso pensar muito para ver que a inclusão das dummies sazonais apenas controlam o efeito da sazonalidade e nossos parâmetros seriam:

(1- γ)a = 45.217

γ = 0.408

(1- γ)b = 0.167

Logo, a = 76.38 e b = 0.28. Note que a propensão marginal a consumir, no curto prazo, não é tão diferente daquela de nossa equação (2). Também observe que só conseguimos obter os parâmetros estruturais porque estimamos a sua forma reduzida (em português: estimamos a forma reduzida da função consumo algebricamente obtida a partir das duas equações estruturais deste modelo e, com os parâmetros estimados desta forma, conseguimos obter os parâmetros da forma estrutural).

Aliás, um modelo estrutural bem maior e mais complicado, para a economia japonesa é este.

Bom, mas o que dizer de nossos resultados? Longe de mim reinvindicar algo além de um exercício para discussão de econometria aplicada. Mas considere este texto para discussão Carroll (2000), em sua versão preliminar, no mesmo ano, no NBER. Digo, considere o resumo.

‘Risky Habits’ and the Marginal Propensity to Consume Out of Permanent Income, or, How Much Would a Permanent Tax Cut Boost Japanese Consumption?
Christopher D. Carroll
NBER Working Paper No. 7839
Issued in August 2000
NBER Program(s): ME PE
Papers in variety of disparate literatures have recently suggested that habit formation in consumption may explain several empirical puzzles, ranging from the level and cyclical variability of the equity premium (Abel (1990,1999); Constantinides (1990); Jermann (1998); Campbell and Cochrane (1999)) to the excess smoothness’ of aggregate consumption (Fuhrer (2000)) to the apparent fact that increases in economic growth cause subsequent increases in aggregate saving rates (Carroll and Weil (1994); Bosworth (1993); Attanasio, Picci, and Scorcu (2000); Rodrik (1999); Loayza, Schmidt-Hebbel, and Serv‚n (2000)). This paper examines an implication of these models that has mostly been overlooked: Habits strong enough to solve these puzzles imply an immediate marginal propensity to consume out of permanent shocks of much less than one. When the model is calibrated to roughly match the rise in the Japanese saving rate over the postwar period, it implies that the immediate MPC out of permanent tax cuts may be as low as 30 percent, suggesting that calls for permanent income tax cut as a quick means of stimulating aggregate demand in Japan may be misguided.

Ou seja, o autor diz que a propensão marginal a consumir em modelos com “hábito”, neste caso, pode ser bem baixa e ainda faz uma ligação muito simples e interessante com o que falo sobre mudanças permanentes e temporárias nas aulas de Análise Macroeconômica IV.

Coincidência ou não, nosso exercício também nos deu uma propensão marginal a consumir baixa. Legal, não? Torço sempre para que estas coisas não sejam coincidências…

Tá, e agora?

Agora o negócio é trabalhar. Bom, para quem é novo por aqui, eu usei o R, meu programa econométrico favorito (inclusive, usei o pacote do R, stargazer, que gera as tabelas automaticamente, o que me poupa um bocado de trabalho). Caso você queira uma sugestão, eu lhe sugiro o R.

A idéia deste post gigante surgiu, simplesmente, do desejo de gerar um material didático que fosse de fácil acesso para aqueles que já ouviram falar de Econometria (minha definição de “ouviram falar”, claro, é bem específica…). A discussão do consumo unifica três das quatro disciplinas que tenho que lecionar na faculdade. Não é tão ruim quando você pensa que está ao lado de gente como Milton Friedman ou Robert Hall, ensinando suas teorias, dando notícia das mesmas ou, sei lá, simplesmente ilustrando alguns modelos.

Como sempre, deixamos de lado muita coisa porque senão teríamos um post gigante sobre o tema. Ah, o leitor pode ver que tenho tratado do tema “economia japonesa” com alguma frequência por aqui (por um motivo muito óbvio, creio).

No final disto tudo, talvez a melhor coisa seja pensar no Japão com uma bela imagem.

Totoro

Até a próxima!

Bibliografia

Carroll, Christopher D. “Risks Habits’ And The Marginal Propensity To Consume Out Of Permanent Income, Or, How Much Would A Permanent Tax Cut Boost Japanese Consumption?,” International Economic Journal, 2000, v14(4,Winter), 1-40

Charemza, W.W. & Deadman, D.F. New Directions in Econometric Practice, Edward Elgar, 1997 (2nd edition).

Pipocas e sua barriguinha

Com nossas pipocas atingindo o padrão norte-americano, talvez este video – e o livro – tornem-se mais relevantes por aqui. Aliás, senhores editores, ele já deveria ter sido traduzido faz tempo, né?

McKenzie também tem um ótimo livro sobre obesidade (inclusive, mostrando os problemas sérios existentes em se considerar o BMI (body mass index) como medida de obesidade. Estou lendo este livro junto com alguns outros e a propaganda dele está aqui (e eis uma entrevista com o autor).

Eis um trecho interessante da entrevista.

What do you think will be the biggest battle in the “fat war” in the next 5-10 years?
The likely biggest battle in the “fat war” will be over sugared soda taxes and taxes on one sort of fatty food or another. However, studies are showing that such taxes (and bans on sugared sodas) can cause people to gain weight by shifting people’s consumption to non-taxed sugared and fatty foods and by increasing their appetites. Then there will be legal battles over fat discrimination and fat accommodation. “Fat labeling” seems to have already become a done deal.

Aliás, complementando o que diz o autor, veja também este pequeno vídeo, de uma consultoria privada famosa, a Euromonitor mostrando que, no longo prazo, não é só a demanda que se mexe, mas também a oferta…

O bacana do McKenzie, na minha opinião, é que, há anos, ele vem fazendo o que, somente agora ficou popular por aqui: a análise econômica da vida. Bastiat falava das consequências não-intencionais dos incentivos (“o que se vê e o que não se vê”) e isto é uma característica central da Ciência Econômica.

Note que mesmo o mais sofisiticado dos econometristas não pode prescindir da teoria econômica e, portanto, deve estar sempre ciente destas consequências não-intencionais. Por exemplo, andar a pé para o trabalho pode poluir mais do que ir de carro, conforme nos ensina o autor. Quando ignoramos todas as consequências dos incentivos, corremos o risco de medir incorretamente seus efeitos. 
Isso significa que tá todo mundo errado?

Não e nem seu oposto. E também não está chovendo hambúrguer. Mas ao fazer análises de equilíbrio parcial, ou mesmo geral, sempre teremos limitações pois fenômenos sociais são bastante complexos. Lembre-se sempre do que disse Milton Friedman sobre a política monetária em seu clássico artigo, por exemplo. Eis um trecho:

I have put this point last, and stated it in qualified terms-as referring to major disturbances-because I believe that the potentiality of monetary policy in offsetting other forces making for instability is far more limited than is commonly believed. We simply do not know enough to be able to recognize minor disturbances when they occur or to be able to predict either what their effects will be with any precision or what monetary policy is required to offset their effects. We do not know enough to be able to achieve stated objectives by delicate, or even fairly coarse, changes in the mix of monetary and fiscal policy. In this area particularly the best is likely to be the enemy of the good. Experience suggests that the path of wisdom is to use monetary policy explicitly to offset other disturbances only when they offer a “clear and present danger.”

Neste trecho, Friedman recomenda que a política monetária seja feita sem solavancos, mas com mudanças marginais, precisamente porque sabemos pouco sobre a natureza dos choques na economia. Vale dizer, ele percebe claramente as limitações de nosso conhecimento sobre a realidade, algo que, inclusive, deveria ser mais considerado em proposições que envolvam a vida de terceiros.

A lição, se é que podemos dizer que alguma há, é a de que devemos ter muito cuidado ao falar do impacto de incentivos sobre as ações dos indivíduos. É por isso que você deve estudar com muito cuidado a microeconomia em sua graduação. Nas linhas – e às vezes nas entrelinhas – dos exercícios com matrizes e condições de segunda ordem você encontrará a fonte de perguntas e de respostas sobre questões de efeitos, digamos, de segunda ordem ou indiretos. Ok, o preço diminui a demanda destes dois bens, mas o que posso dizer sobre a demanda de trabalho? E o risco? E as expectativas?
Saber reconhecer as limitações é minha resposta para o “certo ou errado”. Ninguém está totalmente certo ou errado. Apenas a análise é mais ou menos limitada. O que muitos economistas não percebem é que é muito importante destacar estas limitações. Aí sim, eu diria, você tem uma análise econômica ruim. McKenzie sabe muito bem como explorar o poder dos incentivos e os livros citados neste post são um bom começo para quem se interessa pelo tema.

Elogio ao Bernanke

Michael Munger tem uma excelente peça hoje, no blog. Trechos:

I know that it is hard to think of Bernanke as even mediocre, let alone exceptional, because of the massive strident criticism he’s faced from an array of monetary cranks all convinced that they have the magic bullet to achieve prosperity and only Bernanke’s stupidity or cowardice kept him from firing it.

If only he’d target nominal GDP! If only he’d raise the inflation target to 4%, If only he’d promise to keep inflation above its 2% target for years after the economy has fully recovered.

It is true ladies and gentlemen that if the Bernank had wheels, he’d be a bicycle. But he’s not a bike, he’s an economist and the Fed is not so powerful as to be able to fix our economy with a new nominal target or a new promise.

(…)
The Fed can avoid screw ups. It can prevent rampant inflation and it can stand as a supplier of liquidity and a lender of last resort in a crisis. But the notion that monetary policy can hit any desired output target in normal times or abnormal times is a foolish and dangerous notion, sadly often promulgated by macroeconomists in the Fed’s employ.

Perfeito. Esta história de criticar Bernanke porque ele não fez o que você queria (e sem a menor decência de apresentar um contrafactual razoável) é fácil. Além disso, ok, se Bernanke tivesse rodas, seria uma bicicleta e, bem, Munger nos lembra das palavras de Milton Friedman sobre a política monetária: ninguém é capaz de determinar claramente todas as relações entre todas as variáveis e, portanto, não é à toa que fazemos (ou devemos fazer) política monetária de maneira cautelosa, conservadora, cuidadosa. O poder de influenciar a economia de um Banco Central não é, obviamente, desprezível, mas devemos nos lembrar do mesmo muito mais como um poder sobre o qual pouco se conhece do que um poder devidamente “domesticado”.

Munger acertou no ponto. Agora, uma coisa é ser humilde, outra é ser passivo. Eu diria que a grande diferença entre a política monetária passiva e a ativa é que a última só funciona com a dose certa de humildade. Sim, você pode lembrar do significado tradicional de política monetária passiva e associá-la com a arrogância de uma autoridade fiscal que, leia os jornais para se inteirar do contexto brasileiro, atira para todos os lados, inclusive no próprio pé.

É engraçado. Entra ano, sai ano e o número de pessoas que fala mal de Milton Friedman sem ter lido A Monetary History of the United States, 1865-1960, só parece aumentar. Uma pena. De qualquer forma, parabéns ao Bernanke por ter administrado a maior economia do mundo em uma de suas piores épocas. Este povo que fala que “bastaria extinguir o FED” ou “socializar os meios de produção encontram-se no mesmo nível quando se trata da qualidade do argumento no que nos interessa: solução de problemas do mundo real. Qual é o nível? Adivinhem.

Friedman

Hoje é aniversário do Milton Friedman, lembram-me os amigos do Facebook. Bem, ele faleceu há algum tempo, mas se há alguém mais influente do que ele no século XX, em Economia, ainda estou para ver.

Milton Friedman foi um dos maiores economistas de nosso tempo. A metodologia de trabalho, seus estudos, etc, tudo isto poderia ser comentado aqui por dias. Entretanto, vou ser bem sintético. Para mim, a melhor contribuição dele depois do A Monetary History of the United States, 1857-1960 (escrito com Anna J. Schwartz) foi seu artigo The Role of Monetary Policy, de 1968.

Se você quer entender de Ciência Econômica com um exemplo de política econômica, este é O (maiúsculo) artigo que você deveria ler. Não porque Friedman seja um mito ou um Deus, mas porque, neste artigo, ele estabeleceu as bases (ou sintetizou muito bem, ou foi muito didático e claro, etc) para nossa moderna visão de política monetária.

Feliz Aniversário!

Sobre o liberalismo

Um trecho de longo texto de Milton Friedman:

Qualquer que seja a razão para o seu apelo, a adoção do laissez-faire teve algumas conseqüências importantes. Uma vez que o laissez-faire foi adotado, o incentivo econômico à corrupção foi removido. No fim das contas, como os funcionários do governo não possuíam favores a conceder, não havia necessidade de suborná-los. E se não havia nada a ser ganho a partir do governo, ele dificilmente poderia ser fonte de corrupção. Além disso, as leis que sobraram eram em sua maior parte – e mais uma vez estou simplificando e exagerando um pouco – leis amplamente aceitas como apropriadas e desejáveis; leis contra roubos, furtos, assassinatos etc. Esse é um contraste gritante com a situação na qual a estrutura legislativa considera crimes o que as pessoas individualmente não consideram crimes ou torna ilegal a prática de atividades que parecem sensatas. Essa última situação tende a reduzir o respeito às leis. Dessa maneira, um dos efeitos indiretos e inesperados do laissez-faire foi o estabelecimento na Grã-Bretanha de um ambiente de maior obediência e respeito pelas leis em relação à situação anterior. Provavelmente havia outras forças trabalhando nesse desenvolvimento, mas acredito que o estabelecimento do laissez-faire foi o fundamento para a reforma do serviço público na última parte do século – o estabelecimento de um serviço público cuja escolha era baseada em exames, no mérito e na competência. Você conseguiria esse tipo de desenvolvimento porque os incentivos para se buscar tais empregos com o propósito de se exercer influências “impróprias” foram drasticamente reduzidos quando o governo passou a ter poucos favores a conceder.

Crise e Euro…

The global financial crisis has breathed new life into hoary arguments about the euro’s imminent demise. Such arguments often invoke Milton Friedman, who warned in 1998 that Europe’s commitment to the euro would be tested by the first serious economic downturn. That downturn is now upon us, but the results have been precisely the opposite of what Friedman predicted.

Unemployment is rising — and with it populist posturing. In countries like Italy, already suffering from Chinese competition, and Spain, which is experiencing a massive housing bust, the pain will be excruciating. Yet neither country shows any inclination to abandon the euro.

Leia mais deste artigo de Barry Einchengreen aqui.

Reflexões sobre a crise mundial a partir das lições do passado

The Great Contraction might not have occurred at all, and if it had, it would have been far less severe, if the monetary authority had avoided mistakes, or if the monetary arrangements had been those of an earlier time when there was no central authority with the power to make the kinds of mistakes that the Federal Reserve System made.

(…)

Finally, monetary policy can contribute to offsetting major disturbances in the economic system arising from other sources. If there is an independent secular exhilaration-as the postwar expansion was described by the proponents of secular stagnation-monetary policy can in principle help to hold it in check by a slower rate of monetary growth than would otherwise be desirable. If, as now, an explosive federal budget threatens unprecedented deficits, monetary policy can hold any inflationary dangers in check by a slower rate of monetary growth than would otherwise be desirable. This will temporarily mean higher interest rates than would otherwise prevail-to enable the government to borrow the sums needed to finance the deficit-but by preventing the speeding up of inflation, it may well mean both lower prices and lower nominal interest rates for the long pull. If the end of a substantial war offers the country an opportunity to shift resources from wartime to peacetime production, monetary policy can ease the transition by a higher rate of monetary growth than would otherwise be desirable- though experience is not very encouraging that it can do so without going too far.

I have put this point last, and stated it in qualified terms-as referring to major disturbances-because I believe that the potentiality of monetary policy in offsetting other forces making for instability is far more limited than is commonly believed. We simply do not know enough to be able to recognize minor disturbances when they occur or to be able to predict either what their effects will be with any precision or what monetary policy is required to offset their effects. We do not know enough to be able to achieve stated objectives by delicate, or even fairly coarse, changes in the mix of monetary and fiscal policy. In this area particularly the best is likely to be the enemy of the good. Experience suggests that the path of wisdom is to use monetary policy explicitly to offset other disturbances only when they offer a “clear and present danger.”

[Milton Friedman, The Role of Monetary Policy, American Economic Review, 1968]

A pergunta, para vocês, é: somos todos friedmanianos agora?

Tirania do Controle

Na legenda do segundo vídeo da série há um erro no debate. Em determinado momento, discute-se a suposta política industrial bem-sucedida japonesa e o tradutor ouviu “meaning” ao invés de MIT (Ministry of Industry and Trade). Isto gerou uma estranha frase na qual o livre mercado combate o “significado”.

Afora erros gramaticais pequenos, em geral, a tradução segue bem. Mas houve este escorregão aí, neste episódio.

Se minha Faculdade tivesse um “Instituto Eugênio Gudin”, eu estaria feliz

Mas há gente que se opõe a isto, certo? Por que? Interesses ou voto expressivo (ideologia)? Eis uma boa crítica da análise dos grupos de interesse, neste caso.