Mais um artigo pronto

Nosso artigo para o 5o Seminário de Economia de Belo Horizonte já está pronto. Provavelmente o administrador do site do encontro fará o upload do mesmo hoje. Portanto, fique de olho lá.

Democracias menos liberais são também as mais falidas? – Desigualdade de renda, liberdades e desenvolvimento econômico

Em prosseguimento ao nosso bate-papo, eis um texto pequeno de Gerald Scully sobre o tema. Em poucas palavras, o que ele faz é mostrar evidências de que países economicamente mais livres são também os menos desiguais. A teoria subjacente tem a ver com o estabelecimento de direitos de propriedade bem diferentes daqueles dos discursos bolivarianos (sejam eles brasileiros ou não). Como isto é possível?

Antes de perguntar ao seu professor, use os miolos para pensar na seguinte questão: diferentes estruturas de direitos de propriedade podem modificar o custo de oportunidade entre eficiência econômica e desigualdade de renda? Eis um resultado possível da adoção de distintas estruturas institucionais.

Se isto for correto – e eu acho que o leitor que acompanha este debate certamente pensa nisto como uma hipótese razoável – então temos que nos preocupar em entender melhor a questão da mudança institucional. Como se sabe, instituições possuem dois aspectos: formal e informal. Além disso, alguns autores têm encontrado evidências de que a parte informal (aquela mais complicada, que expressa aspectos fortemente culturais) pode ser a determinante no bom desempenho institucional dos países.

Como se sabe, cultura é algo dinâmico e difícil de se mensurar, quanto mais entender. Isto não impede, por exemplo, que toda a esquerda latino-americana venere quase religiosamente Antonio Gramsci por ter dito algo mais ou menos óbvio: ganhar a guerra cultural é importante. Os não-autoritários (liberais) do continente, embora tenham lido Ayn Rand (que, essencialmente, diz a mesma coisa que Gramsci), parecem ter perdido os primeiros 50 anos de batalha das idéias, mesmo com a óbvia (e ululante) evidência da queda do Muro de Berlin, no final do século XX.

Prosseguimos com o debate…

Democracias menos liberais são também as mais falidas? – o argumento anti-mercado

Como sabem os leitores deste blog, um argumento comum ouvido entre as trincheiras não-liberais (sem dados para comprovar a tese, claro, mas com muito líder sindical em cima de caixotes bradando como Mussolini) é o de que o comércio “escraviza e destrói”. Para esconder as mamatas que recebem do governo, espalham por aí que o individualismo é uma ficção ou um pecado.

Pois bem, o gráfico abaixo não tem mais do que 2000 caracteres, mas mostra uma correlação entre dois rankings. Em um deles, o Sudão está entre os primeiros (estados falidos). No outro, os EUA está entre os primeiros (condições favoráveis a criação de empresas…privadas).

Se há alguma explicação para este gráfico, eu arriscaria que governos mais falidos, aqueles que maltratam mais sua população, que são péssimos provedores de bens públicos, são também os que mais dificultam a criação dos mercados.

Pergunte ao seu professor: por que poderia haver uma relação como esta, do gráfico acima, se todo mundo diz que liberalismo só é compatível com sociedades que oprimem os cidadãos?

Mais pobreza, mais islamismo (e, depois, mais extremismo?)

Questão que surge ao se iniciar a leitura desta matéria sobre o crescimento do islamismo na Grande ABC. Pode a questão religiosa ser parte de um problema maior? A religião tem a ver com a ideologia que tem a ver com o desenvolvimento econômico (e com o empreeendedorismo ou com a falência de estados).

Há muita coisa interessante nesta discussão. Pena que poucos atentem para o fato, ainda.

Democracias menos liberais são também as mais falidas? – A importância da religião

Ok, eu gosto de Max Weber. Mas também sei que esta questão religiosa é sempre complicada. O professor Delfim Netto, em seu capítulo no livro-texto de Economia Brasileira do Giambiagi e patota, diz que, na verdade, a ligação entre protestantismo e desenvolvimento se dá via capital humano.

Pois bem, se Delfim tem ou não um bom ponto, podemos ter uma pista no texto abaixo citado.

Qualifying Religion: The Role of Plural Identities for Educational Production*

This paper examines the role of religious denomination for human capital formation. We
employ a unique data set which covers, inter alia, information on numerous measures of
school inputs in 169 Swiss districts for the years 1871/72, 1881/82 and 1894/95, marks from
pedagogical examinations of conscripts (1875-1903), and results from political referenda to
capture conservative or progressive values in addition to the cultural characteristics language
and religion. Catholic districts show on average significantly lower educational performance
than Protestant districts. However, accounting for other sociocultural characteristics qualifies
the role of religion for educational production. The evidence suggests that Catholicism is
harmful only in a conservative milieu. We also exploit information on absenteeism of pupils
from school to separate provision of schooling from use of schooling.

Interessante, não? Creio que a discussão que tenho feito aqui sobre estados falidos e empreendedorismo só tem a ganhar com mais este ponto. A cada dia que passa esta discussão só melhora.

Aliás, tenho algo mais a dizer sobre o texto citado. Ele é uma pá de cal (uma das) nestes argumentos verborrágicos que vejo na blogosfera sobre religião e economia. Normalmente, o sujeito me vem com uma lorota de que a ética cristã (e tão somente ela) é que é a Gisele Bündchen do desenvolvimento. Não mostra um único dado, um único estudo sério. Nada. Só um tremendo wishful thinking. Normalmente, estes argumentos vêm da nossa Direita sem qualidade (a cara-metade da Esquerda Aneróbica), cujos economistas ocupam lugar de honra entre os pterodoxos brasileiros.

Trata-se de um desserviço ao ensino científico.

Por mais que não se goste de estatísticas, o fato é que há discussões cuja solução é basicamente empírica e, nestas horas, ganha quem sabe manipular (no sentido de extrair honestamente informações dos dados) melhor os dados. Não se trata de falsificar dados, mas de analisar as causalidades supostas com o que há de melhor em métodos quantitativos. Quando um verborrágico vê sua suposta autoridade ir pelo ralo pelo simples confronto de seus devaneios com os dados, normalmente xinga as pessoas sérias de “econometristas”, “estatísticos” até, digamos, “viciados em planilha”, termos que se tornam mais violentos quanto maior a intensidade dos desejos eróticos de seu criador em relação à mulher que ele perdeu (ou ao emprego que deixou de conquistar) porque não se deu bem com seu papo furado (mulheres, por favor, adaptem o exemplo para os casos em que se apliquem…).

Posto isto, não se diz aqui que matemática é tudo ou que a estatística é a vedete de Ipanema. Como eu disse – e se um verborrágico sabe ler tão bem quanto escreve, já percebeu – há discussões que só se resolvem empiricamente. Mas há também as outras que ou não têm solução, ou não têm solução relevante para sua vida (e.g. qual o sexo dos anjos?), ou não têm solução estatística (e.g. o que é uma paroxítona).

A relevância, para os economistas, normalmente está entre as respostas que, no final das contas, necessitam de algum teste empírico para alguma hipótese oriunda da leitura da história feita a partir de uma teoria logicamente coerente. Por isso não é fácil ser economista…

Democracias menos liberais são também as mais falidas – A cultura

Leitores que acompanham a série de discussões que tenho feito aqui sobre os motivos da maior ou menor falência dos estados já sabem que toda esta conversar tem um pouco a ver com outro ponto (também explorado aqui): empreendedorismo.

Pois muito bem. Há um grande problema quando se discute “cultura”. Entretanto, os estudos de Claudia Williamson (que descobri graças aos bons economistas austríacos da SDAE) mostram como economistas encaram o tema. Meus orientandos de monografia (os que forem espertos) provavelmente já perceberam que, conforme os temas de seus trabalhos, devem tabular duas bases de dados que a boa autora disponibilizou em sua página. A mais ampla está em seu artigo “Institutional Arrangements and Economic Performance: The Relationship between Formal and Informal Institutions,” 2007. A outra está em: “Securing Private Property: The Relative Importance of Formal versus Informal Institutions”, 2007 .

Avançando um pouco, a profa. Williamson define instituições informais (nossa “cultura”) usando o World Values Survey, criando uma variável a partir dos seguintes componentes: trust, respect, self-determination e obedience. O texto original no qual se baseia é do Tabellini, sobre cultura e instituições na Europa. Grande parte dos valores pode ser pensada como o “estoque cultural” de cada país em 2000. Já falei um bocado sobre o problema de se discutir cultura – um conceito bastante dinâmico – desta forma, mas sigo a boa literatura mundial para que possamos iniciar o diálogo. Antes de prosseguir, e as instituições formais? Para esta, ela usa o famoso ICRG (International Country Risk Guide), comum nos estudos do ramo.

Bem, tentarei matar a curiosidade dos leitores que acompanham as duas discussões com as figuras abaixo.

A variável “formal_minus_informal” é a diferença entre as instituições formais e informais de um país. A profa. Williamson crê que instituições informais sejam mais importantes para o crescimento do que as formais. Nossa primeira figura (a da esquerda) mostra que a falência estatal está relacionada a sociedades mais “formalizadas” por assim dizer, o que é compatível com sua hipótese. Já na figura da direita nota-se uma relação curiosa entre a tal taxa de empreendedorismo do GEM e esta mesma variável. Há menos países na amostra e, como já disse antes, mais empreendedorismo não é, de forma alguma, sinônimo de mais crescimento econômico, per se. É necessário estudar melhor as relações causais entre instituições e empreendedorismo (falávamos de rent-seeking outro dia, não é?).

Para os que acompanham este debate, uma pergunta simples: o que acham do que temos até agora? Comentários? Particularmente, acho que toquei em diversos pontos fracos destes debates. Também acho que várias perguntas surgiram. Tenho vários alunos fazendo monografias em temas correlatos. Creio que, quanto mais gente pensando nestes temas, melhor.

p.s. Sim, o Brasil está em todas as amostras até agora. Tá curioso? Aguarde…

Democracias menos liberais são também as mais falidas – A lei ou as leis?

Na sequência de posts anteriores, a discussão teve um alto grau de análise elementar de dados. Nosso objetivo, se você se recorda, era estudar os determinantes do grau de falência estatal cuja definição está na sequência citada (basta ir lá e ler, né?). Desde o início até agora, passamos por muitas reflexões. A última delas, se bem me recordo, diz respeito ao papel da lei. As correlações encontradas nos permitem dizer, com razoável grau de confiança, que a falência estatal é sinônimo de baixo crescimento econômico (senão “decrescimento”) e também de pouco respeito à liberdade que as pessoas gozam em seus desejos de realizar trocas, a chamada liberdade econômica.

A questão da lei apareceu algumas vezes aqui e merece um detalhamento maior. Como já disse Bastiat, não é qualquer tipo de lei que devemos considerar compatível com o maior desenvolvimento econômico. Não apenas Bastiat (embora ele seja o mais claro de todos, na minha opinião), mas outros estudiosos do desenvolvimento econômico têm apontado o papel da lei como importante, embora sua mensuração e impacto sejam mais sujeitos à controvérsia.

Há uma grande dificuldade em se entender o impacto da lei por diversos motivos. Primeiro, não se trata apenas de uma lei ter origem no código legal inglês ou francês (ou soviético, escandinavo e germânico). Alguns países receberam as leis em forma de “transplante” e, nem sempre, isto foi feito de forma pacífica. Mesmo se imposto, nada indica, a priori, que a lei não pudesse se adaptar, no longo prazo, às práticas comerciais locais. Eis aí o primeiro grande problema: a mensuração da própria lei.

Além disso,  o impacto da lei sobre o desenvolvimento econômico (ou sobre a falência estatal) também é algo bastante controverso. Há uma grande discussão, por exemplo, sobre a suposta inferioridade do código legal francês nos estudos. Alguns nomes importantes aqui são: Andrei Shleifer (e associados), Daron Acemoglu, William Easterly, Rosse Levine, Ken Sokoloff, Naomi Lamoreaux e Jean-Laurent Rosenthal.

Talvez um exemplo histórico seja útil para que você entenda melhor o que quero dizer. Eis aqui um interessante: o papel da lei no (sub)desenvolvimento do mundo islâmico. Acho que, daqui, você consegue fazer suas próprias sinapses, com mais informação.

Uma ordem livre e os mecanismos de mercado

O texto do Diogo que citei abaixo tem tudo a ver com este texto, do Tyler Cowen. Como sempre, este post tem tudo a ver com nossa discussão sobre democracias, liberalismo e estados falidos.

Democracias menos liberais são também as mais falidas – a relação entre democracia e crescimento econômico

O leitor que acompanha esta série de posts já estava com saudades: mas Claudio, você parou de falar deste tema interessante? Pois é, em país no qual sujeito acha que plágio é prova de competência, o blogueiro tem que se cuidar.

Mas eu sei que o tema é irresistível. Agora mesmo, o Cristiano Costa, conhecido e competente estudante de doutorado (em Economia) lançou mais algumas idéias:

Democracia e Crescimento

Existe uma correlação entre crescimento e democracia. Uma primeira inspeção dos resultados parece mostrar somente isso, uma correlação. Países com democracia são também aqueles que mais crescem. A causalidade já é algo mais complicado de se provar, pois países que crescem mais tendem a manter a democracia. Isso é o que argumenta Guido Tabelini, da Bocconi University (na Itália), em seu artigo. Segundo ele:
“The clear positive wealth-democracy correlation seems to arise since democracy is more likely to persist as a country grows richer.”
É no mínimo interessante, pois já havia postado um artigo AQUI em que Antonio Ciccone da Pompeu Fabra (na Espanha) argumentava que crises econômicas ajudavam a depor regimes autoritários.

Fica aí aberta a pergunta de caráter científico: Qual a melhor forma de testar causalidade entre democracia e crescimento econômico?

Pois é, gente. A pergunta do Cristiano é para lá de pertinente. Há algum tempo, uma aluna minha muito competente fez uma monografia na qual procurava responder exatamente a esta pergunta. Claro, a questão tem tudo a ver com nossa discussão sobre Estados Falidos. Se você escolher um índice qualquer de democracia (o povo gosta de usar o Polity IV, pelo que sei) e correlacionar com nosso – já famoso – índice de falência dos estados, eu aposto, achará algo interessante: ditaduras não levam à prosperidade.

Note que suponho uma relação causal, algo que a correlação não nos dá. Trata-se de algo que vem da teoria. Hipótese mesmo, como diria o Cristiano.

Esta discussão não termina nunca, mas, pelo menos, aqui, neste blog, a discussão tem um nível acima do que se discute no botequinho da esquina. Não que a discussão regada à cerveja não seja interessante, mas sabe como é, alcóolatra não costuma se dar bem com o desenvolvimento das idéias.

Bem, desta vez deixarei que algum leitor abnegado faça o gráfico da correlação na planilha e me envie. Vejamos se alguém faz isto (duvido).

Democracias menos liberais são também as mais falidas – Por que liberdade é melhor para uma democracia? (continuação)

De nossa série de posts, mais um. Agora o assunto é liberdade de imprensa. Muita gente acha que existe uma incompatibilidade entre democracia e liberdade. Mais ou menos assim: “você abre mão de sua liberdade para ter mais democracia”.

A confusão, óbvia para mim, é que não se fala sobre que liberdade é esta. Em um regime liberal – até onde sei, só um anarquista me olharia feio – a liberdade é exercida com responsabilidade (senão, ora bolas, nem trocas existiriam!). Claro, se você gosta de abrir mão de sua liberdade (política? Econômica? De expressão?), eis aqui uma evidência empírica, pensando no direito do sujeito que fala esta besteira.

Os dados de liberdade de imprensa são da ONG (opa, ONG…quem gosta de ONG vai adorar isto) Repórteres Sem Fronteiras.

Resumo: o sujeito que afirma – erradamente – existir um trade-off entre liberdade de expressão e democracia só pode falar isto em um país de governo liberal. Em um país menos liberal (por exemplo: socialista), ele estaria na cadeia. Você pode pesquisar os posts anteriores e verificar o que acontece com a liberdade econômica ou com a liberdade política (pesquisa a coleção de links fixos ao lado).

Quer discutir o tema? Bem, fique à vontade e agradeça por viver em um país cujo governo respeita sua liberdade e não a pede em troca por democracia…

Democracias menos liberais são também as mais falidas – Por que liberdade é melhor para uma democracia?

Ok, leitor, você acompanha esta série de posts até aqui, né? Então, mais um insight. Desta vez, eu copio e colo (e comento) Donald Bodreaux falando de Julian Simon, um economista pouco conhecido (no Brasil) e interessante.

Copio o trecho:

O mês passado marcou o décimo aniversário da morte do grande economista Julian Simon. Embora ele nunca tenha recebido a aclamação popular ou profissional de outros economistas como Milton Friedman, Paul Samuelson ou F. A. Hayek, as idéias e os trabalhos de Simon estão no mesmo nível daqueles realizados pelos maiores cientistas sociais da história.

A contribuição mais importante de Simon foi consolidar e explicar uma idéia que os grandes economistas que o precederam não analisaram a fundo – a idéia de que os seres humanos em sociedades livres são “o recurso supremo”. Nada – nem o petróleo, nem a terra, o ouro, os microchips, nada – tem tanto valor para o bem-estar material das pessoas quanto o esforço e a criatividade humana.

Na verdade, não existe recurso sem a criatividade humana para identificar uma forma de utilizá-lo e o esforço humano para efetivamente colocá-lo em uso. Reconhecer a verdade desse pensamento faz com que o termo “recursos naturais” pareça uma tolice.

Nenhum recurso é natural.

Vejamos o petróleo. O que faz dele um “recurso”? Com certeza, o petróleo não é naturalmente um recurso. Se fosse, os índios americanos já teriam feito uso dele, como tal, há muito tempo – o que não ocorreu. Eu suspeito que para a população nativa da Pensilvânia, digamos, em 1300, aquela coisa escura, grossa e fedorenta que borbulhava nos poços era uma chateação.

O petróleo não era um recurso até que os seres humanos criativamente descobriram como usá-lo para satisfazer alguns de seus desejos, e outros seres humanos descobriram como extraí-lo do solo de forma rentável.

Pense bem, leitor, a lógica de Simon não tem muito mistério. Na verdade, o que nos diferencia da barbárie é justamente a capacidade criativa. Posto isto, nem terra, nem petróleo, nem bananas são importantes em si, mas apenas sob a ação humana.

Isto nos leva, claro, a uma questão mais interessante: que estrutura social é mais interessante para que o potencial de nossas ações seja maximizado em prol do desenvolvimento pacífico da humanidade? Vou deixar você, leitor, com esta pergunta em mente.

A dica, eu acho, é o velho – e pouco lido – Friedrich Hayek. A resposta, creio, você já desconfia qual seja. Até porque começou a ler do título…

Democracias menos liberais são também as mais falidas – Mais “food for brain”

Antes de ler o que se segue, veja estes posts. Agora vejamos alguns gráficos. Primeiramente, a relação entre Estados Falidos e o Respeito à Propriedade Intelectual.

Novamente, nada que não esperássemos. Contudo, em um dos posts desta série, eu levantei a peteca para a moçada que conhece Nova Economia Institucional e o conceito de rent-seeking. Em outras palavras, eu perguntei: será que empreendedorismo é sinônimo de um governo saudável? A resposta é: nem sempre. Não quero me estender agora sobre o tema, mas deixo aqui o gráfico usando os dados do GEM (já falei disto hoje, leia o blog com atenção).

Notou que o ajuste é ruim, não? Esta é uma dica: regressões simples são sempre simples e não são suficientes para melhor entendermos o que se passa. Mas eu gosto deste gráfico. Ele me dá a impressão de que a relação entre empreendedorismo (a TEA, medida pelo GEM) é não-linear no grau de falência de um governo. Isto me lembra aquela história do Baumol de que podemos ter empresários profit-seeking e rent-seeking conforme as instituições de um país. Obviamente, minha hipótese é que somente no primeiro caso existe possibilidade diminuir a falência de um Estado.

Apenas para brincar um pouco, fiz o que minha orientanda (uma delas) não fez até agora: o dever de casa. Então achei uns dados bem bacanas e os coloquei numa regressão. Os resultados estão aqui embaixo.

As variáveis independentes desta regressão – citadas no texto que está no link acima – são: LEGOR_XX (origem do código legal do país: GErmânico, SCandinavo, SOcialista, UK_Reino Unido). O LGDP98 é o logaritmo do PIB per capita em 98, o P_DEM94 é um índice de democracia (quanto maior, mais democrático), o RIGID é a rigidez da Constituição (no sentido de que quanto mais rígido, mais difícil é mudar a Constituição de um país) e o CONS_YR é a data da última constituição do país.

A variável dependente não é a colocação no ranking, mas sim o valor do “índice de falência dos estados”. Quanto maior, mais falido. É um modelo estimado que está aqui só para despertar sua crítica. Será esta especificação a melhor possível? Ou não? Que variáveis faltam em minha explicação? Liberdade econômica, instituições legais, cultura, riqueza….qual é o diagrama causal relevante entre todas estas variáveis?

Sim, um pouco mais de conhecimento da literatura ajuda. Bem, já dei milhares de dicas sobre onde você pode procurar mais sobre o assunto. Minha estratégia aqui é sempre esta “macroeconométrica” com pequenos casos específicos analisados. Algumas orientandas minhas devem se arriscar por este tipo de análise. Vejamos se estão atentas ao blog.

Para o leitor habitual, novamente, ficam aí as perguntas para você. E as dicas de onde procurar informações para seguir em frente.

Democracias menos liberais são também as mais falidas – Colômbia e Venezuela

Já que o tema está em alta, que tal um pouco de análise do pessoal que fez o índice de Estados Falidos? Venho dialogando com o leitor há quatro ou três posts.

Sobre a Colômbia, diz parte da análise da patota do The Fund for Peace:

Economic Indicators
Colombia’s economy improved markedly in the FSI 2006, due largely to recovering coffee prices and President Alvaro Uribe’s strict financial policies. The public sector deficit fell to below 1.5% of the GDP and there was increased foreign direct investment in the Colombian economy in 2005, improving the indicator score by an impressive amount, nearly 4 points. Despite the improved economic situation in most of Colombia, there still exists chronic and acute poverty throughout much of the interior of the country, particularly in the large swaths of territory controlled by rebel and paramilitary groups. The indicator score for uneven economic development improved slightly in the FSI 2006, but severe disparities still exist between urban and rural areas.

Political/Military Indicators
President Uribe’s economic and security policies continued to gain approval from most Colombians living within government-controlled territory and he was granted the right to run for a second term by a constitutional court increasing his popularity and legitimacy, as evidenced by the improved score in this indicator. The continued clashes with the FARC throughout 2005 left a significant portion of the population without adequate access to basic public services, however, worsening the score in this indicator by over two points. In the territories which they control, the guerrilla and paramilitary forces act as the de-facto security forces, not the Colombian military or police, accounting for the high score in the security apparatus indicator. External influence primarily comes from the U.S., which provides massive amounts of aid and training for drug eradication programs. While the U.S. was still quite active in assisting Colombia in 2005, there was less reporting of direct U.S. military involvement in the country, which accounts for a lowering of the score for External Influence.

Sobre a Venezuela, por algum motivo, não há informações. Mas o fato é que a mesma está em melhor colocação no ranking do que a Colômbia (enviei uma mensagem e ainda aguardo o retorno do pessoal de lá mas, enquanto isto, vamos nos divertir…). Eis aí material quente para debate.

Observe que há várias variáveis importantes que podem nos ajudar a explicar o mau desempenho destas democracias que, vimos, são também menos liberais, economicamente falando. Já fiz algumas regressões por aqui e o leitor já deve ter percebido que a análise de alguns casos paradigmáticos (como a Colômbia) podem ser interessantes para enriquecer nosso conhecimento dos dados.

O que seria interessante? Comparar Colômbia com Brasil? Ou com a Suécia? Que pergunta se deseja responder em cada caso? Discuta isto com seu professor.

Democracias menos liberais são também as mais falidas – continuação IV

Ah, voltando à discussão dos Estados Falidos, a correlação entre o recém-lançado IPRI (de 2008, citado aí embaixo) e o índice de falência estatal é de -0.86.

Desta vez não vou falar muito, nem sugerir nada. Quem veio até aqui, sabe o que fazer.

Democracias menos liberais são também as mais falidas – continuação III

O Selva Brasilis (SB) me ajuda a pensar no problema que venho discutindo com meus leitores (embora ninguém tenha comentado, eu sei que tem gente lendo e pensando….cabeça vazia, oficina do diabo…) sobre os Estados Falidos.

O SB encontrou uma reportagem interessantíssima sobre o papel do Judiciário na destruição econômica de um país. Ele não é o primeiro a levantar este ponto. Há anos, em um famoso livro (está na estante, aqui, em algum lugar…) de Brock, Magee et alii, sobre rent-seeking e comércio internacional, eu encontrei a famosa lawyer’s equation que era uma (engraçada e séria ao mesmo tempo) relação entre uma variável que media o grau de rent-seeking relativamente ao de profit-seeking e o PIB (acho que era PIB per capita, mas não lembro). A variável era algo como “número de advogados / número de cientistas” (ou algo assim).

Obviamente que a relação era inversa e muito advogado que não conhece a literatura, principalmente no Brasil, não entende a curva e fica ofendido, bravo e chateado. Não entendem que seu papel na sociedade pode ser bem destrutivo conforme as instituições que permeiam suas ações – muitas vezes criadas por seus coleguinhas mais importantes, que viram fazedores de leis – o que, sim, influi no grau de falência dos governos.

Veja bem, advogados podem ajudar no estabelecimento dos direitos de propriedade como também podem ajudar em sua destruição. Obviamente, advogados, como outros seres humanos, gostam de bons carros, apartamentos e são, portanto, motivados pelo lucro. Se as leis favorecem sua ação na destruição do desenvolvimento econômico, adeus alegria do resto da sociedade.

Paradoxalmente (apenas para os que se prendem aos rótulos), o estado mínimo (ou mais liberal) é o que mais protege os cidadãos. Não é difícil explicar isto, mas o preconceito e as barreiras à entrada existem. O mercado intelectual e o mercado de idéias são, ambos, cheios de barreiras. A fama tem seu preço, leitor, e muitos não querem ceder aos que têm mais razão em um debate….

Continuemos o debate. Pergunte ao seu professor o que ele pensa sobre a relação entre leis e crescimento econômico. Se sua faculdade tiver acesso ao livro de história do pensamento econômico de Robert Ekelund, procure por sua análise acerca dos incentivos econômicos que geraram a common law inglesa, leia e reflita sobre o tema. Garanto que você emergirá destas leituras e debates com muito mais “musculatura” intelectual para debater esta história de democracia e liberalismo.

Democracias menos liberais são também as mais falidas – continuação II

Disclaimer: você não entendará patavinas…se não ler os posts anteriores em primeiro lugar.

Lembra do que eu falei outro dia sobre os Estados Falidos? Pois é. Algumas pessoas gostam de usar outra estratégia para estudar um conceito: isolar um país e colocar uma lente de aumento sobre ele. No caso do Brasil, eu diria que o Jorge Vianna Monteiro tem estudado a “falência” em seu aspecto fulcral (eia! vá ao dicionário, miguxo!) há tempos. De vez em quando eu disponibilizo as gratuitas cartas quinzenais que ele distribui para seu mailing list.

Mas hoje eu tenho aqui um texto do Marcelo Soares que é bem didático. Marcelo é jornalista e eu o conheci quando ele era parte da Transparência Brasil (que hoje se desvinculou da Transparência Internacional). Neste texto, creio, você encontra um pouco dos possíveis motivos pelos quais não somos uma Dinamarca. Reproduzo trechos:

Quando Montesquieu propôs o sistema de separação dos poderes, ele propôs que eles funcionassem como “freios e contrapesos” um do outro, para evitar abusos:

    Para que não se possa abusar do poder é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder. Uma constituição pode ser de tal modo, que ninguém será constrangido a fazer coisas que a lei não obriga e não fazer as que a lei permite. (…) Quando na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratura o poder legislativo está reunido ao poder executivo, não existe liberdade, pois pode-se temer que o mesmo monarca ou o mesmo senado apenas estabeleçam leis tirânicas para executá-las tiranicamente. Se num Estado livre todo homem que supõe ter uma alma livre deve governar a si próprio, é necessário que o povo, no seu conjunto, possua o poder legislativo.

Na teoria da separação dos poderes, o Legislativo existe para contrabalançar as decisões do Executivo; o Judiciário dirimiria conflitos. Se, num determinado regime, um poder não pode se meter no outro, não precisa de Legislativo e nem de Judiciário: coroe-se logo um rei.

É claro que a prática é diferente. Num país em que 76% das leis aprovadas pelo Congresso são de iniciativa do Executivo e em que as medidas provisórias recaem sobre as conchas pra cima e pra baixo aos borbotões, natural que o presidente ache que o Judiciário fazer freio é intromissão. No país do mensalão e da compra de votos para aprovar a emenda da reeleição, contrapeso é palavrão.

Esperar que o presidente tenha lido Montesquieu é querer demais. Mas bem que ele podia ter consultado o advogado-geral da União antes de se alterar.

O Marcelo se refere ao episódio mais importante desta semana: o discurso do presidente da Silva no qual o sujeito incorporou o que há de melhor (ou de pior) no espírito bolivariano. Que aspecto é este? A bravata. Nove entre dez latino-americanos adoram líderes (ou “chefes”) que fazem discursos dizendo que a culpa de qualquer problema não é sua, mas dos “estadunidenses”, “dos empresários” ou, simplesmente, de qualquer outro que não esteja na platéia.

Mais ainda, Marcelo mostra que é importante, na compreensão do nosso problema (“democracias menos liberais são também as mais falidas?”), entendermos a influência das idéias. Como sabemos, muito professor acha seu salário ruim e se transforma, paradoxalmente, em “doutrinador”, “pregador de ideologias”. Paradoxalmente porque, neste caso, o salário é zero. E sai por aí falando (bem) de Rousseau, de Marx e (mal) de Montesquieu, Locke ou, sei lá, Lord Acton (duvido que um único professor fale sobre Lord Acton, mas vamos supor que você teve a sorte de tê-lo descoberto pela internet).

Talvez existam mesmo boas e más idéias, no sentido funcional de que as mesmas incentivam (ou não) a não-falência dos estados. Byran Caplanformalizou este ponto em um artigo que, cada vez mais, penso ser importante nesta investigação. Em termos econométricos, teríamos que classificar nossos países dos posts anteriores de modo a esclarecer algum aspecto das idéias adotadas por seus governos nos anos recentes. A literatura aponta diversas variáveis como: origem do código legal do país, grau de adequabilidade da lei, religião, etc.

Entendeu? Entra-se em uma seara complicada, mas interessante, no qual podemos, sim (e sem choro, tá?) classificar (governos atuais de ) países conforme suas características “ideológicas” e compará-las, efetivamente. Isto me levou, novamente de forma apressada e rasteira, apenas com os dados das ex-colônias, a tentar melhorar meu modelo econométrico.

Em relação ao post anterior, os nomes das variáveis mudaram um pouquinho porque eu tive que recriar o arquivo. Contudo, creio que você perceberá rapidamente o que ocorre. As novidades são catholic, muslim e legor_fr. As duas primeiras são os percentuais dos respectivos religiosos na população total e o último é uma dummy que assume valor “1″ para países cujo código legal é de origem frances, “0″ caso contrário. Note que, aparentemente, a cultura (ou as “idéias”) não importa.

Mas apenas aparentemente porque, afinal, estamos apenas fazendo regressões sob uma hipótese causal muito forte que a de que todas as variáveis independentes influem na variável dependente de forma direta. Ignoramos, por enquanto, a possibilidade de que haja relações indiretas e, mesmo, incorretamente especificadas. Mas fica aí o resultado para você se divertir. Além de discutir esta (fraquinha) regressão com seu professor, discuta também:

i) Quando o autor do artigo de jornal que você leu fala do sucesso das democracias não-liberais, o que ele, de fato quer dizer? Existe mesmo tal sucesso? Em que variável ele se expressa? Afinal, um país como este pode ter muito sucesso em reprimir a mídia, mas não em enriquecer sua população. Eis um ponto importante para debate.

ii) Por que alguns adoram falar do sucesso de países como Cuba usando números (“x médicos por quilômetro quadrado”), mas se recusam a olhar para o gráfico dos posts anteriores, para não falar de analisar os dados que usei para construí-los.

iii) Ler Montesquieu pode ser útil não apenas para criar dummies para nossa regressão (no segundo post da série, anterior a este, a despeito da numeração no título deste), mas também para refletir sobre o que dizem nossos governantes. O presidente da Silva filia-se à histórica corrente de pensamento não-liberal. Que autores os seguidores destas correntes privilegiam? Marx? Hayek? Friedman? Gramsci? Acton? Walter Benjamin? Mais importante: por que você, leitor, nunca ouviu falar de X ou Y? Será que você faz parte de algum tipo de embate de idéias? Se o faz, vamos ao ponto seguinte.

iv) Don Wittman, há anos, publicou um livro (pessimamente traduzido) chamado “O Mito do Fracasso da Democracia”, no qual defende que democracia é eficiente, ou seja, que o poder dos grupos de interesse não é assim tão danoso ao funcionamento do celebrado regime democrático. Será mesmo? Seu livro fez com que Byran Caplan desenvolvesse sua tese do irracionalismo racional, ainda desconhecida no Brasil. O que você pode dizer a respeito?

Democracias menos liberais são também as mais falidas – continuação

Se você leu este último comentário meu (reproduzido também aqui), sabe que estou com este gráfico em minha cabeça .

Hoje, conversando com meu amigo e colega de trabalho (e de blog), o Ari, resolvi brincar um pouco com os dados. Então, com os dados deste famoso artigo de Easterly & Levine, resolvi explorar os dados (ALERTA: apenas ex-colônias entraram na amostra). Eis um exemplo do que obtive:

Primeiro, a regressão é entre o valor do índice de falência das democracias (ou melhor, dos governos, mais ou menos democráticos), failed e as variáveis que suponho serem importantes para explicar a falência. Lancei, no texto anterior, algumas perguntas (para as quais não obtive resposta mas, tudo bem, blog mais “técnico” dá nisto…).

Tem gente que gosta de relacionar boas instituições com crescimento econômico e, penso eu, porque não com a competência governamental em manter instituições que funcionem? Mas o que são instituições “que funcionam”? Há um famoso índice criado pelos caras do Banco Mundial e que, na regressão, aparece como instittutionkk.

Há quem diga que o nível de riqueza passado é importante. Bem, o lgdppc95 que é o PIB per capita em paridade do poder compra parece indicar que os ricos em 1995 não se transformaram em falidos, em 2007. De forma mais simples, talvez riqueza desestimule a falência de um governo.

Finalmente, a liberdade econômica (freedom). A liberdade econômica parece ir na direção inversa à falência estatal.

Eu sei, como disse ontem, que meu argumento está precariamente fundamentado. Um gráfico, uma regressão, enfim, um post na internet….estas coisas nunca são suficientes. Mas acho importante, como disse, que se lance luz sobre várias bobagens que se dizem por aí sobre a relação entre liberdade econômica e democracia (ou tamanho do governo).

Milton Friedman disse – mas quem lê Milton Friedman? Melhor a crítica do professor de Tailândia, PA, né? – que o bom governo é aquele que cuida do jardim incentivando o florescer natural do mesmo. Em outras palavras, a liberdade econômica é quase sinônimo de um governo forte, mas não no sentido que a moçada diz por aí. No argumento dos ingênuos, dos desinformados, dos confusos e dos mal-intencionados há uma confusão entre “força” e o que eu chamo de “obesidade”.

Um governo obeso se preocupa em encher o país de funcionários públicos ou aumentar indefinidamente a carga tributária. Um governo forte, por sua vez, estimula o crescimento econômico sem intervenção mas com uma regulação que, por sua vez, também não é anti-mercado, mas inteligente.

Ontem eu lancei a pergunta: “empreendedorismo é sinônimo de liberalismo”? Há gente que confunde mais ainda estes dois termos, criando uma estranha relação entre “liberalismo” e “individualismo”. O melhor texto que já li sobre o assunto é de Hayek. No primeiro capítulo de Individualism and Economic Order (ou algo assim), ele diferencia duas concepções de individualismo (algo que nem todo economista conhece, diga-se de passagem…quanto mais seus detratores).

Digo isto porque a pergunta feita tem tudo a ver com a correta conceituação de individualismo. O comportamento rent-seeking, por exemplo, aparece em democracias liberais, tanto quanto em regimes não-liberais.

Acho que já basta por agora. Divirta-se com o gráfico acima e, como falei (e como diz a própria organização que lançou o índice de Estados Falidos):

We encourage others to utilize the Failed States Index to develop ideas for promoting greater stability worldwide. We hope the Index will spur conversations, encourage debate, and most of all help guide strategies for sustainable security.

Fica aí o convite: vamos pensar mais antes de falarmos de “liberalismo”, “individualismo”, “democracia” e termos tão belos quanto perigosos se mal conceituados.