Lendo e aprendendo: instituições não são criadas à toa (UPDATED)

Alguém disse outro dia que lei que libertava escravos com mais de sessenta anos era uma piada. Eu acredito que pessoas são racionais e que leis podem servir a algum interesse.

No caso da lei, esclarece-nos Shultz (2013) que a mesma foi uma medida de um emancipacionista, Manoel Pinho de Souza Dantas. Agora, veja a realidade histórica.

Essa proposta afetou especialmente os proprietários de escravos que desembarcaram no Brasil após a abolição oficial, porém ineficaz, do tráfico negreiro em 1830, que os haviam registrado como mais velhos e que agora teriam de libertá-los. Alguns escravos com realmente mais de sessenta anos podem ter se tornado um encargo a seus senhores, mas a maioria ainda tinha valor econômico. (p.138)

Então, veja só, não foi bem uma piada. Não foi uma lei para “enganar o povo” (aliás, para que enganar o povo? Não era democracia, era império!). Embora muitos livros de História oficiais tentem vender uma imagem negativa desta lei, o fato é que ela teve impacto positivo na liberdade de muitos escravos, conforme nos informa o autor.

A grande lição deste trecho é mostrar que um estudante de História Econômica deve estar sempre atento à interpretação dos fatos históricos. Imaginar que alguém faz uma lei frouxa porque tem racionalidade limitada (neste caso, nem é limitada, é burrice mesmo) ou porque a informação (qual?) é assimétrica (em relação a que?) pode parecer bonito (soa bem usar termos que “desafiam” o “pensamento ortodoxo”, eu sei), mas antes de qualquer hipótese, você tem que olhar os fatos da maneira nua e crua.

Pois se os espertos – e bem racionais, não? – fazendeiros tinham amigos traficantes que tentavam burlar a lei para ganhar um lucro, porque não imaginar que em emancipacionista não possa perceber a jogada?

Pois é, lendo e aprendendo.

Bibliografia

Schulz, J. (2013). A crise financeira da abolição. Edusp.

UPDATE: p.s. para quem curte, fiz um resumo em vídeo, aqui.

Lembrete aos navegantes

Acredito que a estabilidade financeira tenha sido fundamental, um século atrás, para estadistas preocupados com o crescimento, assim como é hoje para os líderes que procuram o crescimento e a distribuição de riqueza. Um governo incapaz de controlar seus negócios fiscais e monetários acabará por ser incapaz de atingir a expansão e a igualdade. O preço de políticas irresponsáveis em todos os países e todos os séculos precisa ser pago eventualmente. [Schulz, J. A crise financeira da abolição, Edusp, 2a ed., 2013, p.35]

Ainda existe gente, por aí, que acha que existe uma caricatura chamada economista neoclássico que não conhece a história e, assim, vive em um mundo e abstrações que não lhe permitiria entender a realidade.

Há discussões que valem o meu tempo. Esta, não. Nem preciso citar a desastrada e tortuosa forma de pensar de um ex-presidente que tentou se corrigir acerca de uma declaração que fez, sobre gerar empregos a qualquer custo.

Pois aqui está um economista neoclássico, não-estruturalista, que usa econometria, citando um trecho de um ótimo livro de história econômica. As lições da história estão aí. Entende-se que o mundo nos impõe restrições – como Celso Furtado aprendeu, no lombo, ao tentar fazer suas reformas durante o governo Jango – e que nem sempre conseguimos fazer tudo o que queremos.

Mas o discurso de certos membros da atual administração Rousseff é de espantar. Eles, que sempre nos acusaram – nós, os supostos economistas ortodoxos/neoclássicos (e olha que eu nem me enquadro tanto assim neste rótulo) – de não lermos os livros de História.

Logo eles, que nunca conseguiram terminar um livro-texto básico como o do Mankiw, nunca entenderam o básico de Probabilidade ou o mínimo de Econometria. Ninguém entende de tudo, mas quando o sujeito se vangloria de nunca ter tentado, então você sabe que a discussão está perdida. Feliz o analfabeto que deseja aprender a ler, mas infeliz aquele que se vangloria de nunca ter precisado estudar para ser, sei lá, presidente.

Eu pensaria duas vezes antes de falar bobagens para jornais. Já os falastrões…

História Econômica da Escravidão

Antes de qualquer papo furado, vamos aos dados. Bem, história sem dados é igual a tese sem conteúdo ou cabeça sem cérebro. Quando o assunto é escravidão, então, nem se fala. Portanto, eis aqui um levantamento de dados interessante.

História Econômica…mesmo

Was the Korean slave market efficient?

Brezis, Elise S. and Kim, Heeho (2009): Was the Korean slave market efficient?

Abstract

Over the decades, the traditional condemnation of slavery has been based not only on philosophical argumentation and moral values, but also on the conjecture that slavery was inefficient. This position led to one of the most passionate debates in economic history on the efficiency of the US slave market. This question of efficiency has not been analyzed on the slave market in Korea. The aim of this paper is to analyze the efficiency of the Korean slave market by examining the behavior of slave prices during the period 1689-1893. In order to do so, we collected long-run series of slave prices from nationwide surveys of more than 25 public and private historical records. We then tested whether the slave market was efficient using the arbitrage asset equation. We found slavery to have been efficient most of the time.

Talvez Thomas Kang goste disto. ^_^