Comentários sobre o 5o SEBH

  • Gostei das palestras do Cláudio Haddad e do Alex Schwartsman. Contudo, achei as respostas às perguntas melhores no segundo caso (sendo que um expectador da primeira insistiu em perguntar exatamente a mesma coisa três vezes…). A explicação do Alex sobre a crise atual foi muito didática. Haddad resumiu bem o status quo da teoria atual do desenvolvimento econômico mas ficou devendo uma exposição – certamente interessante – sobre o livro de Gregory Clark (bem como as críticas ao mesmo). Concluí, com certo sarcasmo, que o que gera desenvolvimento é uma dotação elevada de ingleses e algodão. Não é uma crítica à palestra, mas é uma visão surpreendentemente realista do que sabemos após anos de estudo.
  • A apresentação do Salvato: não entendo nada de pobreza e desigualdade, mas me pergunto sobre qual o número de hierarquias ótimo. Não vale aumentar a cada versão do artigo apenas. Trabalho que certamente avancará mais nos próximos anos.
  • João e Rodrigo foram muito bons sobre as restrições ao álcool. Particularmente, gostei mais dos estudos do João sobre a lei seca dos bares na “Grande SP”. Meu único comentário foi o de que faltou uma resenha do processo legislativo (eu chamei de “economia política”, mas João foi mais claro do que eu ao renomear meu conceito) sobre a adoção. Até que ponto a lei segue os eleitores medianos locais? Economistas tradicionais costumam ser bastante otimistas quanto ao funcionamento dos mercados políticos (a velha discussão Wittman x Escolha Pública, com o peso forte em Wittman, neste caso) e eu acredito que isto é uma questão empírica.
  • Ainda sobre esta apresentação: dizer que a lei é draconiana nos EUA e que, portanto, aqui ela é frágil e que, dentre outras, o Estado é ausente não me parece um ponto correto. Uma Gestapo foi presente e seguiu leis draconianas. Não gosto do termo: “sou economista, só me interessa a eficiência das políticas”. Depois de Weingast, Shepsle & Johnsen (1981), é muito difícil manter este ponto. O Estado brasileiro é claramente ausente quando, usando o artigo do João, fecha apenas bares frequentados pelos pobres. Por que é ausente? Porque, espertamente, não interfere nos bares frequentados pelos ricos. Além disso, o grau maior ou menor de rigor da lei nos EUA continua não sendo um argumento bom. O argumento bom é o “enforcement” da lei e isto nenhum dos dois artigos (e não conheço ninguém que tenha feito isto ainda) explicou de forma convincente (mas também não foi este o objetivo dos artigos, sejamos justos).
  • Os textos da Lycia e do Reginaldo não estão muito dentro da minha área de pesquisa, mas não gostei do primeiro no que diz respeito às respostas dadas às perguntas da platéia. Dizer que tirou a tendência com um filtro que existe no programa computacional sem explicar um pouquinho sobre o filtro não é bacana. O problema da endogeneidade, levantado pelo Fábio, também merece cuidado especial. No caso do Reginaldo, faz tempo que não mexo com Stamp e, portanto, não sei muito sobre o assunto.
  • O mini-curso do Adolfo: gostei. No início, achei que estava simples demais. Mas a natureza de nosso público estava bem adequada a um curso introdutório. O que ficou breve foram as apresentações dos artigos que, certamente, mereciam mais espaço. A sensação é que o curso mexeu com os brios de muita gente (ciência não é algo que agrada ou não, é algo que se entende e se analisa sobre as hipóteses específicas dos problemas) e, mais importante, parece ter despertado em alguns novas sinapses. Quem sabe? Também devo agradecer ao Adolfo pelos gentis elogios.
  • Sobre minha apresentação: meus slides não funcionaram no micro do IBMEC, embora funcionem direitinho no meu. Por que? Não sei. A mudança na dinâmica da apresentação na manhã de sexta-feira, além disso, prejudicou bastante meu tempo. Os comentários do Guilherme oscilaram muito, na minha opinião. Como sempre, é necessário trabalhar mais sobre alguns pontos do artigo, mas uma coisa é comentar, outra é dar parecer. Exagero nesta última parte leva a afirmações fora de contexto. Mesmo assim, agradeço ao Guilherme pelos comentários. E agradeceria mais ainda se me enviasse a base de dados Barro-Lee atualizada. Só acho que ele não entendeu o ponto (e eu estava cansado demais para explicar). Um estado é eficiente em t se é administrado por gente de alta escolaridade obtida em t-k e não sei se dados mais recentes de Barro-Lee nos dão um k na medida correta. Verei isto com os co-autores. Uma crítica boa refere-se à necessidade de se incorporar algo de Avner Greif. Entretanto, o livro de Greif mostra que o estado teórico da abordagem institucional ainda é precário (basta ver o quão simples é o livro).
  • Presença: nenhum aluno do 6o período esteve lá. Mesmo no horário da manhã, quando poderiam vir, não vieram. A monografia se aproxima e este tipo de comportamento é apenas mais um que mostra o quanto o custo pode aumentar, individualmente, pela preguiça. Alunos do 5o período também não se fizeram presentes. Do 3o, vi alguns. Idem para o 4o. Pode ser uma mudança de cultura dos alunos: os mais novos estão se tornando mais interessados em economia do que os mais velhos. Ou pode ser simples aleatoridade. O que é grave é que pode ser o mau exemplo dos professores a causa disto. Exceto pela óbvia presença de mais professores nas palestras do Alex e do Haddad, somente o prof. Ernani, o prof. Marcus e o prof. Rai estiveram presentes nas palestras de divulgação científica. A mensagem aos alunos é: “não é importante este negócio de pesquisa científica para mim, que sou professor. Por que seria para você?” Este é um problema que, por exemplo, não existe no IBMEC-SP, no qual o próprio Haddad comparece aos seminários. O bom exemplo, claro, ajuda muito. De minha parte, sigo Milton Friedman: quem quiser, que vá. Tem gente que pede ponto extra, mas eu não acho, hoje em dia, que a prostituição seja a melhor forma de se incentivar um aluno a adquirir conhecimento. Se assim o fosse, eu abriria um bordel e daria aulas sob demanda…
  • Qualidade do evento: nossa infra-estrutura está no limite, como constataram os presentes. Mas o pessoal do apoio foi muito atencioso. Na medida do possível, conseguimos um bom evento. Veja que, “na medida do possível” não tem conotação negativa, mas neutra: nossos limites estão bem acima dos de muitos concorrentes, o que não impede de fazermos melhor as coisas no futuro.

Enfim, estas são algumas observações sobre o seminário. Comentários?