Pelo menos a Zero Hora não capitulou de todo

O Filisteu foi o primeiro, eu divulguei, e foi parar no blog dos Democratas. O jornalista da ZH foi nesta última fonte e entrevistou alguns professores. Dá para ter medo da opinião de alguns. É como eu digo: é impossível ser amigo de algumas pessoas porque as mesmas simplesmente defendem coisas indefensáveis para qualquer ser humano vivo.

Filisteu ainda dá um bom contra-exemplo:

Imaginem, imaginem, se o tema da redação da PUC fosse a moralidade do aborto, e as redações de todos que se posicionassem a favor do aborto fossem anuladas. Eu me importaria menos, porque a PUC é privada e pode selecionar seus alunos como bem entender, mas não seria por isso uma atitude menos mentecapta por parte da comissão de seleção.

Vamos lá, padrecos da CNBB, respondam esta.  Não vale fazer greve de fome (sem emagrecer ou não).

O PT de Porto Alegre e o companheiro falastrão

Quando, lá pelos idos de 2000-1, dizia-se das estranhas notícias acerca da sede do PT gaúcho, aqui, no sudeste, todos se entreolhavam e diziam: este aí é doido, tadinho. Pois é. Agora que a máscara caiu, o mínimo que se espera é o reconhecimento.

Curioso mesmo é pensar no que será que motiva tamanha verborragia.

Hummm….

Diz, muito apropriadamente, Nariz Gelado:

janeiro 04, 2008

Conforme vocês leram ontem, aqui no blog:

Trecho de editorial de hoje do Estadão:

Por ato assinado em 27 dezembro, o governo adiou por seis meses – para julho – o início da vigência de um decreto destinado a disciplinar e a restringir repasses federais a Estados, municípios e ONGs. No dia 28, o presidente, por meio de MP, estendeu os benefícios do Bolsa-Família a jovens de 16 e 17 anos. Pela regra anterior, eram beneficiadas famílias com filhos de até 15 anos. Coincidentemente, aos 16 anos o brasileiro já pode votar“.

Isto sim, é economia política. Agora, bacana mesmo seria alguém investigar se existe direcionamento ideológico em estudos de economistas e outros cientistas sociais quando os mesmos têm boa parte de seus proventos financiados por recursos públicos. Eis aí um tema quente, polêmico e que certamente coloca em cheque o discurso do governo de que respeita a independência intelectual, o livre debate e tudo o mais.

“Software” livre, o discurso bolivariano da esquerda brasileira e nós

Por coincidência dois bons blogs comentaram sobre este tema que, sim, eu já critiquei um bocado aqui. Laurini, estou com você. Aliás, diz o nosso grande econometrista:

Sábado, Dezembro 29, 2007

DRM e Linux

O DRM é demoníaco”, diz o especialista em software livre Jon “Maddog” Hall Desde muito tempo atrás eu me interesso pela chamada “economia do software” livre (e mais ainda por software livre). Ao contrário de muita gente eu sempre acreditei que software livre e proprietário poderiam subsistir, com modelos de negócio e objetivos diferentes. Um bom exemplo disso é a recente colaboração entre a Insightfull, que comercializa o S-Plus, e os produtores do software R. O R se tornou o software padrão em pesquisa estatística, por dois motivos principais – é livre, sólido e permite reproduzir os resultados de outros pesquisadores. Estes 3 fatos são fundamentais em pesquisa científica, e o terceiro é o mais importante de todos.
Mas o ponto que me interessa nesse artigo é o seguinte comentário “Contudo, é preciso criar um “ecossistema de software”. Aqui no Brasil houve um grande interesse governamental, em especial em governos ligados ao PT, pelo uso de software livre. O grande motivo dessa atração era uma mistura de uma visão de “socialismo” e ódio as empresas de software, e uma certa propaganda de redução de custos. Embora a redução de custos de operação seja significativa em grande parte dos casos, essa visão deturpada do software livre é extremamente perigosa, em primeiro lugar porque é falsa. A visão de que os programadores de software livre são “socialistas” e doam seu trabalho para a sociedade por nobres ideais é em geral falsa. As duas principais motivações dos programadores de software livre são a possibilidade de interação com melhores códigos e programadores, e em especial interesses de carreira. Uma análise destas motivações está no artigo “The Simple Economics of Open Source”, Josh Lerner e Jean Tirole, Journal of Industrial Economics. A maioria dos programadores que eu conheço é radicalmente pró-capitalista. E outro ponto contra esta visão é que o desenvolvimento de software livre é em muitos casos bancado por grandes empresas como a IBM ou a Sun.
O que me irritava nesta propaganda da adoção de software livre no brasil era o extremo oportunismo – basicamente se usava o software livre para tarefas simples como produtos de escritório, e a grande vantagem que era a possibilidade de melhor desenvolvimento técnico era simplesmente ignorada. As salas de software livre no brasil são basicamente pontos de acesso a internet, e não representam nenhuma possibilidade de desenvolvimento de software livre ou subsídio a produção de capital humano.
Era o velho oportunismo do PT em ação apenas.
O que eu gostaria de ver era ver parte do dinheiro economizado em software proprietário usado para a formação de capital humano, e quem faz isso não é o governo diretamente, e sim as grandes empresas que investem em laboratórios em associação com as universidades, como o novo laboratório bancado pela IBM na Unicamp.

posted by Márcio Laurini at 2:23 AM

O outro comentário é do Organization and Markets, e está aqui. Como se vê, há muito mais entre o céu e a terra do que supõem nossos estúpidos políticos e pseudo-cientistas (todos, todos preocupados apenas em fazer sua cabecinha…). Em um país no qual a moçada cai em golpes bobos, fica difícil explicar que “1+1 = 2″ o tempo todo. Mas não é um problema do Brasil apenas. Pense nas palavras pichadas nesta universidade pelos narco-terroristas da FARC (membros do tal Fóro de São Paulo, dentre outros) .

Deixando de lado este nojo ideológico (em termos intelectuais, sociais ou humanitários) que é o discurso bolivariano, a economia da tecnologia segue como um dos temas mais interessantes da economia, como demonstrado pela própria carreira do grande Hal Varian (veja seu livro sobre economia da informação aqui).

Falou tudo

Este vai na íntegra

Atestado de incompetência

E a ANAC acaba de lançar a cartilha “Verão no Ar 2008” – uma espécie de manual do usuário da aviação civil.

Ainda não li as 72 páginas do compêndio. Mas persiste a sensação de que a Agência Nacional de Aviação continua confusa a respeito de suas funções. Embora a orientação de passageiros seja sempre interessante, a ANAC existe, antes de mais nada, para orientar e fiscalizar a conduta das companhias aéreas. E, uma vez que ela não está dando conta do recado, a nova cartilha mais parece uma tentativa subliminar de jogar o caos aéreo nas costas dos passageiros – estes mal informados, que atrapalham a aviação civil brasileira.

Em qualquer lugar medianamente civilizado, voar exige apenas o domínio de quatro operações básicas: comprar passagens, fazer check-in, embarcar e desembarcar. Se for preciso saber muito mais do que isso, é porque se está diante de um sistema falho. Quando este “muito mais” atinge 72 páginas é porque se chegou à bagunça.

Quem são os corcundas?

Em prol do nacionalismo na língua portuguesa, adotarei, para a esquerda bolivariana, o alternativo “corcunda”, para respeitar as tradições históricas “deste país”. Obrigado, Diogo, pela aula de história do Brasil.

Os oponentes dos liberais brasileiros eram apelidados de “corcundas”, referência à atitude de prostração perante a Coroa. Mudaram os déspotas, mas permanece o despotismo. Os “corcundas” de hoje querem submeter o povo brasileiro aos caprichos de um partido político. Acusam os dissidentes de golpismo, de inimigos do povo e da democracia. Mas, como lembrava Bonifácio, “os homens de bem não servem à Pátria associando-se a um mau sistema, antes a servem roubando a este sistema a sua preponderância e autoridade.” Os protestos nas ruas não se opõem às instituições democráticas. Os brasileiros querem preservar a democracia, denunciando aqueles que tentam usá-la como instrumento para o autoritarismo.

A esquerda como ela é

E agora?

Da coluna Painel, na Folha de S. Paulo de Hoje

A ONG Ágora, acusada pelo Ministério Público de desviar R$ 900 mil em verbas públicas do extinto programa Primeiro Emprego, teve o registro cassado ontem pelo Ministério da Justiça. Seu proprietário, Mauro Dutra, é amigo de Lula e também dono da empresa Novadata, envolvida no escândalo dos Correios. O ministério alega ter esperado meses pela defesa da ONG, que nunca veio“.

Oportuno lembrar que o requerimento número 094/07, que convoca Mauro Dutra a depor, é um dos que estão inviabilizando a CPI das ONGs – que, por falta de acordo entre oposição e situação, está parada desde 27 de novembro.
A tropa de choque governista quer ver o amigo de Lula longe dos microfones.
Está conseguindo.

Ética na política, heim? Sei…

O governo Lula promove fuga de cubanos

Parabéns, presidente da Silva e assessores do alto escalão! Vocês ajudaram, finalmente, alguém lá de Cuba.

Mais três cubanos fugiram da ilha. Desta vez, foram três músicos que vieram tocar no Brasil. Já não dá mais nem mesmo para fazer ironias com o fato de todo mundo estar sempre querendo fugir do “paraíso socialista”. O estoque já de piadinhas já se esgotou.

Contudo, não dá para deixar de rir com um pequeno “detalhe”: os cubanos escaparam depois de um jantar com simpatizantes da ditadura comunista ligados à Universidade Federal de Pernambuco. Estes “simpatizantes” (é estranho como aqueles que gostam do regime cubano apresentam uma forte tendência a NUNCA morar em Cuba) devem ser – dentre outros – os professores e alunos daquele mestrado “revolucionário” em Filosofia que levou pau da CAPES. Isso, porém, é o que menos importa. Todas as universidades bananeiras têm sua (enorme) quota de perfeitos idiotas.

É a dialética do sr. da Silva: ao tentar ajudar o ditador (o senhor que é escravo, ou vice-versa), ajuda-se a antítese, ou seja, a liberdade. Nem Spinoza, nem Hegel: Quércia presidente! ^_^

Fazendo o mesmo que eles

Reproduzo na íntegra este excelente texto da Nariz Gelado.

Da coluna Painel, da Folha de S. Paulo de hoje:

Lenha. Com a conclusão ontem de sua eleição interna, que deve reconduzir Ricardo Berzoini à presidência, o PT prepara um contra-ataque à oposição. A Executiva Nacional do partido se reúne na quarta-feira e deve divulgar documento em que acusa PSDB e DEM de derrubarem o imposto do cheque guiados apenas por fins eleitorais.”

Hora da oposição saltar na frente e chamar este súbito amor dos petistas à CPMF pelo nome: luto eleitoral.

Conforme eu já expliquei, a oposição precisa avisar ao povo que o Lula só queria o dinheiro da CPMF para eleger prefeitos petistas no ano que vem. E, conforme eu ilustrei hoje cedo, a tarefa é fácil. Basta fazer um discurso tão rasteiro quanto o de Patrus Ananias – ou quanto este que virá da nota que a Executiva Nacional Petralha está preparando.

Se ficar falando bonito e difícil, a oposição não vai se fazer entender para quem desequilibra o resultado das urnas.

Portanto, vamos lá, senhores… Todo mundo ensaiando diante do espelho: “Lula queria a CPMF para eleger prefeitos petistas no ano que vem. Lula queria tirar dinheiro do povo para eleger petistas. Nós não deixamos Lula tirar o dinheiro do povo para eleger petistas.“*

*Notem que a repetição é um elemento importante para o processo cognitivo do público que vota em Lula. Isto explica porque, enquanto nós já estávamos enjoados da sua ladainha lá por 1990, a popularidade dele seguiu crescendo. Não discutam comigo; repitam, sempre que estiverem diante de um microfone. É teletubbie na veia.

O governo não-liberal aumenta o custo social?

indícios e há medidas que servirão para estudos futuros, caso sobre alguém para fazê-los. Curioso mesmo é a visão dos empresários: antes a favor, agora críticos. Nada misterioso, claro, quando se lembra que nosso país vive sob intensa atividade rent-seeking. Indícios disto não faltam.

Sobre como o governo quer diminuir seu acesso à informação (e atrapalhar sua evolução econômica)

Phillipe Berman deu a dica.

Trecho:

Enquanto aqui na selva os deputados tentam escolher o que você assiste na sua televisão a cabo, Robert Jensen e Emily Oster mostram como esse tipo de entretenimento e informação é benéfico em comunidades pobres e rurais.

Pronto. Agora é só esperar até que o governo consiga, novamente, diminuir as liberdades individuais. O preço disto? Bem alto, principalmente no longo prazo.

Por que Chávez perdeu? É a economia, companheiro!

A pista é do Ângelo da CIA:

Eu posso falar de Hugo Chávez sim senhores! Aquele papo de “só pode falar dele quem tem propriedade ou experiência” não cola comigo porque as merdas dele respingam diretamente em mim, tenho muita propriedade. É por causa do caos em que ele mergulhou a Venezuela que tenho trabalhado muito nas últimas 6 semanas. E o caos deve continuar em altíssima tensão até o dia 1o de janeiro, ficando em alerta até o fim de abril. Sabem do que estou falando?
Muita gente não sabe até porque a nossa mídia até agora ignorou o assunto: A Venezuela, por causa de sua inflação galopante, cortará zeros de sua moeda! Lembram do Brasil antes da era Real, do Brasil inflacionário, das nossas trocas periódicas de moeda, de nossos economistas malucos e suas fórmulas exóticas? Então, a Venezuela está passando por isto.
Não foi à toa que dia desses Luiz Carlos Bresser Pereira saiu a dizer que há democracia sim na Venezuela e a cortejar Hugo Chávez. Bresser Pereira não é como Lula, uma metamorfose ambulante: Um cara que “enfrentou” com tanto insucesso a inflação brasileira no Governo Sarney tem mais é que defender as mesmas sandices na Venezuela.
Pois é isto que tem me tirado daqui deste front: A empresa para qual trabalho, assim como todas as grandes multinacionais com operações na Venezuela, está correndo contra o tempo para adaptar seus sistemas e processos a esta mudança cambial. A partir do dia primeiro de janeiro a Venezuela conviverá com duas moedas, o Bolívar e o Bolívar Fuerte, sendo que o Bolívar Fuerte se tornará a única moeda a partir de maio.

Algum analista político tocou no assunto nas últimas semanas? Não. Algum jornalista? Também não. Por que tanta distração quando parece óbvio e simples explicar que Chávez transformou a economia venezuelana no paraíso para experimentos com seres humanos (= planos heterodoxos)? Após a sequência Cruzado-Bresser-Collor-Verão, não seria fácil prever o que aconteceria lá?

p.s. o link do Bolívar Fuerte é por minha conta.

Já que é assim…

Como a blogosfera gosta de carteiraços nesta história do IPEA, vou apresentar o meu, com muito prazer. Com a palavra, Roberto Macedo.

Expurgo temático no Ipea

Roberto Macedo *

Continua repercutindo o desligamento de quatro economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão que passou para o novo Ministério Extraordinário de Assuntos Estratégicos. Dentre os quatro, o nome de maior destaque no noticiário foi o de Fábio Giambiagi, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Ele estava cedido ao Ipea por um prazo que expirou sem que houvesse interesse do instituto em renovar a cessão.

O destaque se justifica. Entre os quatro, Giambiagi é o que mais se projetou nos últimos anos por suas pesquisas, pela publicação de artigos e livros baseados nelas e pela participação no debate econômico nacional.

As manchetes chamaram o desligamento de expurgo, dado que o grupo não é alinhado com o pensamento econômico que passou a dirigir o Ipea, e também está presente em outros ciclos governamentais. Esse pensamento se rotula como desenvolvimentista, como se o empenho pelo desenvolvimento econômico do País fosse de sua exclusividade. Aprecia também rotular outras correntes como neoliberais e que tais, sem se deter com igual vigor no mérito das idéias que elas defendem.

Desta vez, entretanto, o rótulo alcançou os rotuladores. Incomodado pelo risco de passar à história como expurgador, o novo presidente do Ipea, Márcio Pochmann, se defendeu alegando razões administrativas, como o fim de períodos de cessão de servidores ou a dificuldade de acolher os já aposentados que, sem remuneração, continuam seus trabalhos de pesquisa.

Ora, tais razões administrativas não se inscrevem entre as boas. Se a cessão de um pesquisador como Giambiagi estava por cessar, caberia um forte empenho em renová-la. Quanto aos aposentados, sua presença é comum em instituições de pesquisa no Brasil e no exterior, e aqui é ainda mais defensável, pois são comuns as aposentadorias precoces. Assim, essa presença deveria ser incentivada como uma política de recursos humanos, inclusive porque as instituições se beneficiam da experiência desses pesquisadores. Não me consta que isso seja proibido e para administrar formalmente a prática seria o caso de criar um conselho ou um centro de estudos para acomodar essas pessoas.

Por falar em conselho, Pochmann também se coloca como defensor da pluralidade de idéias, dizendo que criará no Ipea um de orientação, com personalidades de ‘pensamentos distintos’, como Delfim, Conceição, Belluzzo, Bresser, Reis Velloso (João Paulo), Raphael de Almeida Magalhães e Cândido Mendes. Tirando um ou outro, é um grupo mais heterodoxo do que heterogêneo.

Em toda essa história, o grande perdedor é o Ipea, que se priva de quatro pesquisadores de renome e de suas manifestações de divergência quanto ao evangelho com que se pretende guiar a instituição. Em instituições de pesquisa elas são cruciais para o aprimoramento mútuo das idéias.

Isso vale de um modo geral, pois a desavença intelectual é criativa. A propósito, vale lembrar o pensamento de um estadista e estrategista de renome, Otto von Bismarck, que disse: ‘Não sou tão estúpido assim que não aproveite a inteligência de meus inimigos.’ Isso cabe também a desafetos acadêmicos.

E há o expurgo temático, este mais explícito, pois se fala abertamente que a missão do Ipea será agora a de pensar o longo prazo, com desprezo pelo curto. Na macroeconomia, este último é um enfoque também conhecido como análise conjuntural. Com essa disposição, a nova direção do Ipea extinguiu o Boletim de Conjuntura, onde eram publicadas as avaliações de seus técnicos que cuidam do assunto, que em seus trabalhos não mais poderão fazer recomendações de política econômica, as quais são triviais em trabalhos de pesquisa. Sobre esse desprezo pelo curto prazo, o que diria o mesmo Bismarck da idéia de vencer uma batalha superando a última trincheira do adversário à frente, sem considerar a primeira?

Na análise macroeconômica, duas visões se completam. Na primeira, o foco é no curto prazo. Nela, na análise do capital só se consideram os novos investimentos, desprezando o estoque acumulado. A atenção é voltada para as oscilações do PIB e dos quatro preços básicos da economia. Um mede de modo agregado a variação dos preços dos bens e serviços em geral, na forma de um índice de inflação. Os outros três são as taxas de juros, de câmbio e de salários.

Passando pelo médio e alcançando o longo prazo, o segundo enfoque se concentra na acumulação de capital, na tecnologia e no estoque de mão-de-obra em termos quantitativos e qualitativos. E há também interesse microeconômico pela composição setorial e regional do PIB. Esse curto prazo é visto como aquele em que essas variáveis não sofrem alterações marcantes.

Não obstante, à medida que se repetem as oscilações de curto prazo de variáveis como as taxas de câmbio e de juros, elas determinam uma estrutura econômica que se consolida a médio e longo prazos. Em particular, tomam-se rumos definidos, como os que há anos ocorrem no Brasil. Ou seja, uma taxa de juros muito elevada e, mais recentemente, uma taxa de câmbio fortemente valorizada.

Assim, não há essa clivagem entre curto e longo prazos que parece orientar esses ‘desenvolvimentistas’. Portanto, uma instituição como o Ipea não pode menosprezar, entre outros, o trabalho de especialistas em câmbio e juros, sem o que sua visão de médio e longo prazos corre o risco de se assentar em fundamentos fragilizados.

Já rotulado pelos expurgos pessoais, o Ipea evitaria mais danos à sua tradição pluralista se evitasse esse expurgo temático e prestigiasse seus pesquisadores a partir da competência analítica que demonstrassem.

* Roberto Macedo, economista (USP), com doutorado pela Universidade Harvard (EUA), pesquisador da Fipe-USP e professor associado à Faap, foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e presidente do Ipea (1991-92)