Novamente os Austríacos

Antony Mueller está nervoso. Ao comentar um artigo crítico da atuação do FED, diz:

The sad fact is that even guys like Ambrose are largely ignorant about the Austrian school of economics. There is the glimpse of hope that the current crisis may wake up at least a few from their slumber of ignorance. What is needed is a thorough transformation of how economics and management are practiced, taught and researched. What is needed is a change of perspective as it is provided by the Austrian school of economics.

Já falei aqui sobre a economia austríaca em outras – várias – oportunidades. Mas Mueller nos deve um pouco mais de explicações. Quer dizer que os cursos de economia e administração (ou seriam o mundo da economia e da administração em geral?) deveriam mudar na direção do que preconizam os simpáticos às teses austríacas?

Primeiro, temos o teste do mercado. Por que esta prática não é mais comum? Alguém poderia falar do papel do governo nesta história, “perseguindo” economistas austríacos, mas não vejo algo assim.

Também é difícil saber o que, exatamente, é a “Escola Austríaca”. A diversidade é tão grande que nunca surgiu um único livro-texto austríaco. Talvez se possa falar do Eonomic Logic, mas seu autor, Mark Skousen, brigou com outros austríacos (da FEE), o que nos deixa com a suspeita de que talvez não baste ser (e pensar como) austríaco para que a Escola Austríaca deslanche. Mesmo assim, seu manual só tinha como diferença a adaptação do esquema dos triângulos de Hayek (cuja interpretação, inclusive, não é trivial) a problemas econômicos.

Em terceiro lugar, para ser bem austríaco (na verdade, este ponto se relaciona com o primeiro), o conhecimento é disperso e, portanto, é difícil dizer que a solução seja que todos passemos a pensar, andar e respirar como austríacos. De certa forma, o mais correto seria lembrar que mudanças racionais são mudanças na margem (creio que os austríacos ainda não jogaram fora o conceito de racionalidade, embora alguns deles briguem com as funções de utilidade). Logo, é difícil, senão impossível, ver um mundo tão austríaco assim (e alterado de forma tão rápida).

O Guilherme, do Rabiscos, e eu, outro dia, discutimos um pouco sobre o tema. Sei que há o Joel e outros frequentadores deste blog que têm simpatia pela escola austríaca. Eu sou um deles, mas creio que sou menos otimista em relação ao poder de mercado de uma teoria na qual nem os próprios proponentes concordam sobre a necessidade de um teste empírico (é diferente você debater calibragem e econometria pois, neste caso, ambos querem ter alguma idéia quantitativa dos parâmetros, algo que Mises, creio, não aprovaria). Como, por exemplo, um economista austríaco trabalharia no mercado financeiro?

Gosto do prof. Mueller mas acho que, nesta observação, ele errou o tiro (se é que existe alvo). Pensando bem, um austríaco diria que o alvo tem que ser descoberto (piadinha besta, mas bem ao gosto dos austríacos…). ^_^

Finalmente, sim, há muita coisa interessante entre os insights austríacos. De longe são os heterodoxos mais consistentes que conheço. Mas, não, não acho que esta bronca contra o mainstream seja muito precisa.

Desafio aos economistas austríacos

Dan Sutter tem um bom ponto. Eis o parágrafo inicial do artigo:

The efficacy of the decentralized market process is perhaps the foremost contribution of Austrian economics. But if Austrians are correct about the performance of spontaneous order processes, the paucity of Austrian economists in academic positions seemingly undermines their methodological critique of neoclassical economics.

Austríacos precisam, realmente, responder este questionamento antes de reclamarem da vida. Bom artigo para se começar a pensar no tema…

p.s. eis aqui e aqui formas dos austríacos tentarem construir um diálogo sólido com os economistas não-austríacos.

Pesquisas feitas de forma não tão correta…(e alguns pontos adicionais sobre marketing)

Esta notícia é interessante.

Aqui vai um pouco da história:

A new study has intensified the conflict between the food police and food marketers. Thomas Robinson of Stanford University School of Medicine has found that McDonalds’ marketing is highly effective. Young children ages 3 to 5, were presented with two identical samples of food. One sample was wrapped in plain paper while the other was in McDonald’s paper. The children were more likely to indicate the food labeled McDonald’s “tastes the best.”

Não, não. Não diga nada ainda. Leia o resto da matéria. Eu vou ajudar, selecionando alguns trechos, mas é melhor você mesmo ler. Aí vão:

Now consider what is happening from the child’s perspective. He or she is motivated to answer the question accurately. The two foods are, by design, very similar physically, so the child has to look for something to break the tie. The McDonald’s branding is the most obvious, easiest cue for solving the problem. “I have had good experiences with McDonald’s previously, and I will use that in my judgment.” Notice that the child’s rational response is different from advertising “tricking the taste buds.” McDonald’s has not nefariously manipulated the child. Instead the youngster has appropriately used the most relevant information available—his or her opinion of McDonald’s—to answer a difficult question. If anything, the experimenters themselves were manipulative, asking the children to spot a difference in taste that, if the experimental design were successful, did not exist.

Percebeu? Mais um pouco:

Suppose we were to replicate the Stanford study with adults. What is likely to happen is that adults who have positive associations with McDonald’s would prefer the McDonald’s wrapped food. By contrast, adults who despise McDonald’s would be more likely to say that the unbranded food tastes better. By the way, the young children of McDonald’s rejectors might act similarly to their parents. Your attitude toward the brand counts for a lot when physical differences between food samples is small.

The correct interpretation of the Stanford research is that when confronted with an ambiguous taste test young children will rely on familiarity and experience in making judgments. This does not suggest that McDonald’s actions are depraved, nor does it support “regulating or banning marketing directed at children.”

O autor gastou muita tinta para dizer algo bem óbvio. Talvez pudéssemos fazer um experimento similar. De um lado, colocamos um sanduíche enrolado no papel genérico. Do outro, um sanduíche enrolado em um papel com o símbolo do partido do presidente da Silva (ou com o símbolo dos nazistas, com uma goiaba desenhada, com o Bob Esponja..). É bastante óbvio, pelo menos para mim, que a criança preferirá a informação do que a falta de informação. Em outras palavras, qualquer marca é um sinal melhor do que nenhuma marca.

Lembro-me de Jerry Kirkpatrick, no único livro que já vi, traduzido em português, falando de propaganda do ponto de vista de Mises e Hayek (já posso imaginar o Guilherme Stein todo alegre, risos). Melhor, estiquei o braço e peguei o livro (“Em defesa da propagand – argumentos a partir da razão, do egoísmo ético e do capitalismo laissez-faire, Geração Editorial, 1997). Kirkpatrick faz uma análise randiana-austríaca (nunca vi nada igual entre os nossos “marketeiros”, mas confesso que não passo horas do meu dia folheando livros de marketing em livrarias…) da propaganda. Uma amostra do que há no texto dele:

A propaganda não modificou nossos gostos criando uma necessidade que de outra forma não teria existido? (…) Sempre tivemos necessidade de métodos mais rápidos e mais convenientes de cozinhar, e a necessidade de um entretenimento disponível de acordo com a conveniência de cada um. As pessoas que fazem o marketing dos fornos de microondas e dos VCRs, certamente, tornaram possível para o consumidor ir ao encontro destas necessidades, de uma forma melhor e mais barata, e a propaganda certamente contribuiu para esse processo. (…) Mas, à medida que os preços destes produtos declinaram, e os rendimentos dos consumidores aumentaram, as atitudes dos consumidores – o seu julgamento de valor – com relação aos produtos mudou. Livremente, eles resolveram não mais considerar estes produtos como um luxo e gradualmente passaram a considerá-los como necessidades (…). Longe de serem receptáculos passivos, que respondem curvando-se ante a propaganda, as mentes dos consumidores ativamente percebem as condições mutáveis do mercado e as avaliam. [p.70]

O ponto é que “marketing” não é esta coisa toda. Bom, o experimento descrito -  e criticado – acima não foi capaz de mostrar, realmente, o sucesso da (maligna) propaganda (subliminar) da McDonald’s. Apenas mostrou que sinalização é importante (e se o outro sanduíche viesse com o símbolo da Burger King?). E, afinal, seguir sinais – como marcas – não é nenhuma novidade. As placas indicando trajetos e nomes de cidades existem desde sempre.

Finalmente, aposto que o Guilherme não conhecia este livro. He, he, he.