Politicamente correto é sempre censura: o assassinato do camarão

Não vejo como dourar a pílula com um nome “bonitinho” pode mudar a definição da palavra (a não ser que você viva no “1984” de George Orwell, um livro que, no meu tempo, professor de História recomendava, ao contrário do que vemos hoje).

Veja este ótimo relato sobre a música “Tragédia no fundo do mar”.

Quando Mussum finalmente foi convencido de que a música tinha potencial, surgiu um problema até então inédito ao conjunto: o departamento de censura considerou o título da música ofensivo e não aceitou o uso da expressão de duplo sentido no refrão. A caneta dos censores não atacava apenas recados contra a ditadura. Falar em “dar um pau nas piranhas lá fora” era inaceitável, uma afronta à família brasileira. (…) De um jeito ou de outro, o samba sobre quem assassinou o camarão teve que esperar mais dois anos para ser prensado. A música só passaria pela censura, e sem mudanças, em 1974, quando seu título foi trocado para “Tragédia no fundo do mar”. [Barreto, J. (2014). Mussum forévis - Samba, mé e Trapalhões, Leya, 172]

Veja, caro leitor, hoje temos discussões sobre o uso de termos que, supostamente, segundo alguém (geralmente um grupo de interesse, o que, atente bem, não significa que o “interesse” não possa ser legítimo, já que não vivemos sob uma ditadura…), ofende a alguma parcela da sociedade.

O trecho acima, modificado, bem poderia se parecer com este tipo de discussão. Basta eu alterar algumas palavras e o leitor, provavelmente, mudaria de opinião. Digamos:

Quando fulano finalmente foi convencido de que a música tinha potencial, surgiu um problema até então inédito ao conjunto: a ONG “Defesa da Criança” considerou o título da música ofensivo e não aceitou o uso da expressão de duplo sentido no refrão. A preocupação dos engajados militantes pela defesa da criança não atacava apenas recados contra o Estatuto da Criança e do Adolescente. Falar em “dar um pau nas piranhas lá fora” era inaceitável, uma afronta à família progressista, tão intensamente atacada, segundo a ONG, pela propaganda nefasta do capitalismo consumista. (…)

Fala para mim, ficou ou não ficou parecido? No final da história, o problema não é se você vive sob um regime autoritário ou não. O problema é se você tolera este tipo de interferência na livre expressão (cultural). Observe que esta “livre expressão (cultural)” também pode ser parte de interesses de grupos (sambistas, por exemplo), e isso não é um problema em si.

Pelo visto, tem muita gente no Brasil de hoje que adora assassinar o camarão, bater em piranhas e, claro, manter tudo isto em sigilo para não atrapalhar o grande crescimento econômico – com baixa inflação – verificado no mundo de Papai Noel nos últimos tempos, não? Ah é, encontrei a música aqui.

Até o momento, ninguém no Gallup perdeu o emprego por insatisfação de Obama: uma breve reflexão sobre nossa selva

 

É, minha gente. A confiança econômica nos EUA caiu.

Gallup’s U.S. Economic Confidence Index dropped six points last week to -21 — the largest one-week drop since last October, and the lowest weekly index score since December. Americans’ confidence in the economy’s future waned more than their views of the current conditions.

Apesar disto, ninguém perdeu o emprego na Gallup. É um fato da vida: indicadores econômicos nunca agradam a todos. A diferença entre um selvagem e um civilizado está na atitude diante disto e nós sabemos quem é o selvagem, certo?

Ok, e daí? 

Agora, falando em campanha eleitoral, tem gente que me diz assim: “mas o candidato X também não gosta de jornalistas. Não tenho provas, mas ele causou a demissão de fulano”. Ai me cobram coerência. Bem, agora virou, né?

Veja, diante da realidade política atual, e lembrando um pouco das minhas leituras de política, Bobbio e Buchanan, principalmente, está óbvio para mim que não existem políticos angelicais, santos. Diante desta realidade – e diante da realidade de que eu e meus críticos também não o somos – sou pela opção do menos pior.

No meu caso, eu prefiro discutir um pouco do que entendo: programa econômico. No dia 22 de Julho, em um blog público, que alcança mais gente do que os correntistas do Santander, o prof. Ellery criticou o programa do candidato Aécio. Fica em aberto, aqui, o convite para que ele me conte das pressões que sofreu por fazer críticas – e não apenas elogios – a tal programa.

Vamos combinar que críticas, por mais ferinas que sejam, não são como as famosas bombas de black blocs contra jornalistas, ok? Caso alguém não concorde, pode ir lá ler Sorel, vestir seu uniforme e fazer turismo nas cavernas do Afeganistão.

Bom, depois do episódio – que só posso chamar de censura na falta de um termo mais adequado – aos analistas do Santander, Ellery fez como nossa imprensa fazia na época em que a presidente sofria porque, segundo ela, defendia nosso direito à liberdade de expressão e crítica ao governo militar. Assim, ele fez esta crítica ao programa da candidata.

Cadê os libertários?

Como vocês sabem, conheço um bocado deles. Todos muito enfáticos em se dizerem contra o governo, anarco-isso, anarco-aquilo, etc. No entanto, eles estão incrivelmente calados. Ou então estão apenas xingando algum conservador, ou brigando entre si. Senti falta do tal movimento libertário em manifestações pela internet. Acho que estão de férias. Por incrível que pareça, isso explica muito da paradeira deste pessoal. A maioria é jovem, outros acham que correlação é coisa do demônio e uns outros, mais radicais, acham os economistas do Santander merecem perder o emprego porque, sei lá, não são seguidores de algum oráculo austríaco.

Não sei onde estão os libertários. Mas eu sei onde estão os economistas do Santander: estão prestes a serem despejados porque fizeram seu serviço honestamente. Os que falam do candidato Aecio e falam de supostas perseguições a jornalistas estão calados, mostrando que não são, realmente, muito fiéis ao princípio da liberdade de expressão. Outros temem por seus empregos e se calam. Outros, como os libertários, sempre tão barulhentos e cheios de energia para brigar por linhas ou parágrafos de “A Ação Humana”, estão sem energia para protestar diante do fato.

Concluindo…

Pensando bem, será que eu deveria me esquecer das evidências empíricas sobre o papel das instituições no desenvolvimento econômico? Isto é irrelevante? E isto aqui? Vamos nos esquecer disto? Vou até reproduzir o trecho de Mill citado no último link:

Let us suppose, therefore, that the government is entirely at one with the people, and never thinks of exerting any power of coercion unless in agreement with what it conceives to be their voice. But I deny the right of the people to exercise such coercion, either by themselves or by their government. The power itself is illegitimate. The best government has no more title to it than the worst. It is as noxious, or more noxious, when exerted in accordance with public opinion, than when in opposition to it. If all mankind minus one, were of one opinion, and only one person were of the contrary opinion, mankind would be no more justified in silencing that one person, than he, if he had the power, would be justified in silencing mankind. Were an opinion a personal possession of no value except to the owner; if to be obstructed in the enjoyment of it were simply a private injury, it would make some difference whether the injury was inflicted only on a few persons or on many. But the peculiar evil of silencing the expression of an opinion is, that it is robbing the human race; posterity as well as the existing generation; those who dissent from the opinion, still more than those who hold it. If the opinion is right, they are deprived of the opportunity of exchanging error for truth: if wrong, they lose, what is almost as great a benefit, the clearer perception and livelier impression of truth, produced by its collision with error.

Este, meus amigos, foi John Stuart Mill. Nos outros links você encontrará algumas correlações básicas e algumas referências para artigos que falam sobre o papel das instituições sobre a prosperidade de uma sociedade.

O mais belo exemplo de amor à liberdade de expressão

Roberto Ellery Jr é um cara inteligente e correto. Não o conheço pessoalmente, mas no momento terrível em que vivemos, no qual parte da sociedade acha legal e divertido calar a dissidência e pensa que liberdade de expressão é um conceito “burguês” e não um valor universal, só posso parabenizar o meu colega pela coragem.

Ah, liberdade de expressão? Quantas vezes preciso dizer que já falamos dela aqui? Lembro aos amigos que é necessário pensar mais sobre este medo da vida em sociedade.

Ilustrando…

Mais um…

Pense bem nestes gráficos e em alguns outros, ok?

O Banco Central que não sabe se agrada à Fazenda e à candidata ou se cumpre sua função constitucional (e uma palavra sobre o “Santandergate”)

A impressão que se tem é esta. Leia a matéria. Lá um diretor do Banco Central, Odilon, explica ao jornalista que a questão de crédito é uma questão de defasagens (uma explicação que qualquer aluno entende, quando estuda o multiplicador bancário).

Ocorre que ele prefere não falar em números muito exatos no que diz respeito à estrutura de defasagens, ou seja, sobre quanto tempo leva para o impacto ser potencializado. Por que? Porque ele e nós sabemos que esta medida é difícil de ser precisada. Muito mais difícil do que estimar o impacto da Selic sobre o PIB.

Um dia depois de atacar a liberdade de expressão, pressionando nos bastidores o Santander a pedir desculpas por cumprir seu dever com seus correntistas de informar o que os analistas do banco pensam de uma eventual reeleição da Dilma, claro que os bancos privados jogaram confetes no anúncio da medida exótica da Austoridade Monetária.

Aliás, curiosamente, o governo não é muito rigoroso para pedir desculpas quando ele próprio tem amigos que espalham boatos. Lembra da história da CEF e do Bolsa-Família em que uma ministra acusou a oposição? Pois é. Lá, naquele episódio, os governantes não se mostraram muito estadistas, e não pediram desculpas pela trapalhada cometida.

O que vem por aí? Bom, todo mundo que é sério tem avisado, na blogosfera, que o ajuste é inevitável. Enquanto isto, a direção do Banco Central vai se acomodando em uma posição perigosa. Fosse eu um criador de metáforas, diria que Tombini está mais para Júlio César do que para Dida.

Liberdade de Expressão e Relatórios do Santander: só pode ser análise técnica se for com materialismo histórico…e otimista. Ou melhor, só se for otimista. Senão, a gente manda tirar!

Liberdade de imprensa não se coloca atrás da porta dos fundos

É realmente um tema importante, não é? A tal liberdade de imprensa. Já passei raiva demais explicando o óbvio para alguns. Já tive bons momentos debatendo o não-óbvio com outros. Entretanto, não dá mesmo para aturar a falta de argumentos de algumas pessoas. Acho que o Felipe Moura sente o mesmo.

Ah, mas o Felipe cita um filósofo que não curto

Veja bem, leitor, não sou olavete, mas nem por isso acho que leitores de Olavo não possam citá-lo e, obviamente, se o Felipe está na Veja e cita o Olavo isto não o torna um cidadão de segunda categoria. Caso ele degolasse alguém, poderiámos discutir. Mas ter opiniões diferentes faz parte do jogo democrático. O ponto importante é a coerência da argumentação e, sim, há uns valores morais importantes como a tolerância com as opiniões distintas (e é por isto que admiro a democracia norte-americana que permite praticamente todas as manifestações ideológicas, desde que não haja agressão física).

Caso você julgue pessoas por parte do que ele fala ou porque ele está à direita ou à esquerda de alguém, então você não deveria estar lendo este texto, ok? Pré-conceitos devem ser substituídos pelos conceitos, em um processo natural de evolução, imagino eu. Não sou perfeito, mas não pretendo piorar.

O último que sair apague a luz dos fundos

Liberdade de expressão, meu caro humorista, é importante demais para ser tratada como se fosse uma porta dos fundos de algum barraco. Estou aqui educando, corrigindo provas, falando de esforço individual, participando de grupos de estudos, debatendo, ensinando, aprendendo para que o Brasil não tenha pessoas que achem que a melhor argumentação possível é uma frase no twitter. Eu ganho inimigos que não assumem que suas notas ruins são fruto de suas escolhas e você pode ignorar os comentários de que não gosta, não é? Isso quando não faz um “Portaria” como os primeiros, nos quais a gente quase sentia a vontade que você tinha de mandar algumas pessoas para aquele famoso lugar. É, é bom ser famoso e poder mandar as pessoas para aquele lugar, eu imagino.

Ensinando o óbvio para os que não toleram aprender: pão e circo

Vamos usar a divisão do trabalho, tão bem descrita por Adam Smith? Eu, que já estudei instituições, falo da liberdade de expressão e do desenvolvimento econômico. Você, que sabe fazer boas piadas, dá circo para as pessoas, ok? Mas não fique aí pedindo que pessoas não possam trabalhar para colocar pão na mesa porque você, que defende a liberdade de fazer piadas com cristãos (eu não tenho problemas com isto, ok?), acha que a intolerância só vale para alguns. Lembre-se: pão e circo. Cuide das palhaçadas que nós cuidamos do nosso pão.

Ainda a liberdade de expressão…

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Algumas pessoas me perguntaram sobre os dados do post anterior. Bem, veja aí a sanha do governo brasileiro, que vê tudo como “crime de difamação”, etc. Acho que um governo que faz o que faz – notadamente em 2012 – não é um sujeito ao qual eu confiaria um “marco civil”, viu?

Mas, claro, esta é minha opinião apenas.

Liberdade de expressão

Este breve relato mostra que os liberais realmente são indesejados na América Latina. Afinal, ir à Igreja é sempre, como sabemos do discurso do “líder-estudantil-que-não-estuda-porque-está-na-passeata”, Igreja é coisa de “elite católica opressora”.

Se você ainda acha que os porta-vozes da diplomacia do presidente da Silva e aliados estão com a razão ao apoiarem os vizinhos bolivarianos, então certamente você não vê problemas em perseguições políticas também.

Um discurso repleto de mentiras repetido muitas vezes, acho que disse Goebbels, torna-se verdade. O leitor deve ter cuidado com o que ouve. Talvez eu esteja mentindo. Talvez a oposição venezuelana esteja mentindo. Talvez o presidente esteja mentindo. Como você sai deste imbróglio? Só mesmo estudando e criando algum discernimento.

Não há como recomendar uns “dez passos para a auto-iluminação”: você vai errar, achar que tal blogueiro é bacana e o outro é um crápula, depois poderá até mudar de idéia e perceber que foi enganado. E assim vai. Só temos que combinar uma coisa: tente não ficar na nuvem da ilusão na hora em que o autoritarismo estiver em seu momento crucial de implantação no Brasil. Senão, este processo todo cessa e a “iluminação” virá de gente que acha que sabe o que é melhor para você.

Onde está a blogosfera “de responsabilidade social” nestas horas?

As minorias cuidam de seus privilégios conseguidos junto ao governo (com ou sem zumbi escravocrata…) e se esquecem do que prometeram: lutar pela livre expressão. O motivo? Simples: o doador é amigo do ditador. Por isto os comentários imbecis de gente que reclama de minha definição de “movimentos sociais” são apagados antes de chegarem ao blog: os sujeitos não conseguem nem um mínimo de coerência.