Professores em frente às câmeras

Gosto muito do Madadayo, de Kurosawa, e de como seu protagonista principal, o professor (chamado, aliás, no filme, apenas de “professor”), passa pelos anos da guerra – que lhe repugna – com relativo bom humor, até mesmo ao perder praticamente tudo (lembra um pouco o bom humor que encontro nos livros de Natsume Souseki).

Mas nas minhas compras de final de ano, incluí, por recomendação de um professor meu (irônico, não?), o “Nijyuushi no Hitomi” cuja tradução direta e correta é “24 olhos”, referência aos doze alunos que a professora Ooishi tem em uma ilha do arquipélago japonês. Extremamente triste, mas (mas?) lírico e com uma trilha sonora composta apenas de canções infantis japonesas, o filme se passa praticamente no mesmo período de Madadayo, mas o enfoque é distinto.

Em ambos, a guerra aparece como um incômodo para a vida dos idealistas professores, mas o contato que o espectador tem com a mesma não é o principal. Não é um filme DE guerra, mas um filme que se passa DURANTE a guerra e, claro, a guerra tira muito da vida dos protagonistas em ambos os filmes. Talvez seja isto que eu goste em ambos os filmes: o foco na narrativa individual dos mesmos com sua carreira, filhos e alunos.

Kurosawa lançou seu filme em 1993 enquanto Kinoshita lançou o seu em 1954. Kinoshita é menos conhecido do público brasileiro exceto pelo – também dramático – Balada de Narayama. Seria algum tipo de homenagem ao velho mestre? Nunca li nada a respeito…

Já vi muitos filmes de Kurosawa mas com à internet e à globalização, tive mais contato com a obra de outros diretores (na verdade eu havia visto filmes de Mizoguchi e Ozu antes, mas procure algum deles nas locadoras: são raras figurinhas em suas estantes…) e conheci mais atores japoneses do que apenas o excelente Toshirou Mifune.

Professores, no sentido de mestres (ou “senseis”), são figuras interessantes e comuns na cultura japonesa. Ambos os filmes merecem sua atenção e inevitavelmente nos fazem pensar sobre nossos professores ou sobre a nossa (minha) vida como professor. Já conheci mestres assim em minha vida, mas hoje não vejo muitos por aí. Talvez seja porque mudei meu olhar para alguém que também é professor, talvez porque o mundo mudou mesmo ou, claro, por causa de ambos.

A versão moderna do “espírito sensei”, na minha opinião, está em Great Teacher Onizuka. A cômica série de quadrinhos (com séries televisivas animadas e com atores reais) mostra um professor determinado a ensinar e a educar. Talvez se possa dizer que, à sua maneira, Onizuka realize os sonhos de seus dois predecessores.

p.s. Levemente relacionado ao tema deste texto…

Comprei e assisti também um filme traduzido estranhamente como “A espada da maldição” cujo título original é “O caminho (ou trilha montanhesa) Daibosatsutougue” (1966). O final é inesperado – dá a sensação de que falta algo para terminar – mas é outro filme memorável. A capa do DVD, erroneamente, dá destaque a Mifune que, embora esteja no filme, é secundário perto ao papel principal desempenhado por Tatsuya Nakadai, famoso por aqui pelo filme “Ran”, de Kurosawa. A insanidade, frieza e pura maldade imprimidas pela atuação de Nakadai ao personagem é impressionante. Outro que vale a compra.