E o Procon se preocupa com o ovo…

crime_bandidos

Pois é. A notícia completa está aqui e ela assusta. Vejamos: (a) o consumidor tem tantos direitos no Brasil que ele precisa guardar recibos de compras por cinco anos porque alguém, que não tem nada a ver com a sua vida, pode pedi-los; (b) a Receita pode errar e azar o seu, (c) alguém, com poderes divinos, calculou que US$ 50.01 é um valor que merece punição divina estatal.

Enquanto o Procon se preocupa com ovos…

Vamos conversar, Procons, vocês adoram dizer que vivem em função do consumidor, mas, digam-me aqui: quando a Receita erra, ela tem que agendar um encontro com o consumidor? Ela se sujeita aos mesmos trâmites legais a que sujeita os consumidores?

Realmente a manutenção do valor de US$ 50.01 para tributar algum importador de bens de consumo há anos faz sentido, senhores defensores dos direitos dos consumidores? Qual a metodologia de cálculo? Tantas multas são reajustadas, tantos impostos o são, mas este valor permanece fixo há anos. Fosse a realidade tão estável, a Receita não precisaria se preparar para sua super-estrutura de fiscalização citada na notícia. Veja um trecho:

O País tem recebido perto de 1,7 milhão de pacotes a cada mês, quando no início de 2013 o volume era da ordem de 1,2 milhão. No ano passado, foram 18,8 milhões no total, segundo dados da Receita Federal.
A maior parte dessa farra de consumo tem chegado ao comprador sem a cobrança de tributos, mas isso está prestes a mudar. Um sistema que está sendo montado em parceria com os Correios e a Receita vai automatizar a fiscalização, que hoje é feita por amostragem.

Bonito, né? Com tanto esmero, estranha-me que ainda exista corrupção no governo. Ops, espere, o governo diz que não há corrupção. Tá tudo lindo. Ah….

Honestamente, o CADE não se preocupa com a união do monopolista chamado “Correios” com o governo para fins de aumento de margem de receita? Sério que uma união de “gigantes” monopolistas só é um problema no caso do setor privado, mas não no caso do governo?

A farra do jornalismo econômico

A jornalista chama a demanda de importações de farra de consumo. Eu poderia chamar o déficit público do governo de farra de gastos públicos? E o que seria uma invasão ilegal de terras sem punição por parte de grupos de interesse que não se legalizam para poderem continuar invandindo com risco mínimo de responsabilização legal? Uma farra de invasões? E aqueles industriais que importam máquinas para renovar o parque industrial? Praticam farra de desindustrialização (mesmo quando não existe o similar nacional)?

Existe uma estranha suposição moralista na expressão (e talvez a jornalista nem tenha tido esta intenção, mas assim soou…). É como se a importação estivesse em um nível moralmente condenável: virou farra mesmo, coisa de adolescente irresponsável. Será que é assim mesmo? A jornalista não deve acreditar que seus gastos no restaurante no final de semana são uma farra gastronômica, imagino eu.

Será que não existe uma farra arrecadatória com a Receita se aproveitando para tributar só porque precisa manter seu corpo de funcionários, mais os outros de outros ministérios, etc? Podemos falar em uma farra com o dinheiro público arrecadado sempre que houver oportunidade, ainda que não haja mais justificativa econômica?

Então, é mais ou menos isto: os jornalistas usam expressões moralistas para falar de importações e os supostos defensores dos consumidores na verdade os ofendem, chamando-os de idiotas que não sabem comprar e precisam ser tutelados por, adivinhem, pessoas que conseguiram romper o ciclo da ignorância de forma pretenciosamente mágica.

20140407_081523

“Nada de importação para você, seu pobre recém-entrado na classe média! Fique no seu lugar de analfabeto funcional que precisamos arrecadar, imbecil!”

Lembra da minha campanha dos bookholders para todos?

Bom, outubro está chegando. Será que, com ele, teremos novas equipes econômicas que tenham algo a dizer sobre estes aspectos da vida dos cidadãos?

Sério mesmo que você, jornalista, você, do Procon, você, da Receita e vocês, leitores, acham que devemos mesmo tributar bookholders para privar os pobres do acesso ao mesmo? Realmente querem uma massa de cidadãos analfabetos que vão mal no PISA porque não estudam direito? Não digam que não, porque estão fazendo tudo para impedi-los de exercitarem seu potencial de consumidores e, não, sociólogos de porta de cadeia, consumir é uma forma de se libertar dos grilhões da ignorância sim. Ou vocês são contra o Bolsa-Família?

Abertura econômica? Para quem? A barreira dos US$ 50.01

Caso você ainda ache que importar é uma questão de “farra”, faça seu dever de casa e leia um pouco antes. Leia sobre a relação entre abertura econômica e prosperidade, por exemplo. Faça uma farra intelectual (e veja a qualidade das evidências de todos os autores envolvidos no debate).

Na história, como sabemos, a liberdade – inclusive a econômica – não evolui linearmente. Há retrocessos, há governos tributando para matar e, claro, existem os intelectuais, que sobrevivem de críticas e elogios aos poderosos, como aprendemos, por exemplo, aqui.

E aí? Vamos nos unir para amarrar os farreadores das importações nos postes?

A taxa de câmbio vai bem, obrigado.

Meta de exportações do Brasil será revisada para US$ 200 bi

Eu sei que é engraçado pensar que o governo estabelece metas para a temperatura, o número de garrafas de cerveja que você pode comprar ou mesmo para quanto queremos que o país exporte. Mas o mais irônico é que o povo vive reclamando da taxa de câmbio enquanto o burocrata aí diz que a exportação segue firme e forte.

Pode-se sempre acusar o governo de estar a mentir. Mas não deixa de ser irônico. Afinal, próximo à reunião do COPOM costuma-se ouvir uma choradeira quanto ao preço do dólar que beira à insanidade.

A culpa é do consumidor!

Segundo esta notícia, em breve ouviremos discursos de empresários contra os consumidores: graças a vocês, que consomem “supérfluos” (segundo nossa iluminada capacidade de discernimento entre bens supérfluos e essenciais), a indústria terá déficit.

Claro que se houver empresário idiota, este discurso aparecerá na imprensa. Contudo, é mais comum culpar o governo. Neste caso, o discurso se transforma em: “graças às políticas do governo, que aumentaram a renda do consumidor, agora teremos déficit”.

Mas, espere, no final do dia, será que a culpa não é dos próprios empresários que pagam salários para os trabalhadores que, por sinal, consomem? Se o discurso chegar a este ponto, provavelmente os empresários terão um problema pois são os mais famosos frequentadores dos vôos internacionais (e sempre voltam com seus ipods novinhos do exterior).

Talvez não exista nenhum problema nos déficits, exceto na cabeça dos grupos de interesse específicos, que se vendem sempre como “setores estratégicos” (ou mesmo “sindicatos de trabalhadores…de setores estratégicos”) para seus pagantes. Evidentemente, o futuro do país pode não ser exatamente o que estes setores desejam, mas são eles mesmos os responsáveis pela dinâmica da economia. Quando muito, o governo não atrapalha ou piora as coisas fazendo…políticas industriais (a famosa “escolha dos que receberão subsídios”).

É interessante parar para pensar nestes tópicos antes de engolir o discurso tecnocrático dos burocratas governamentais, sempre ciosos dos interesses de seus visitantes em Brasília, o discurso empresarial exemplificado acima e o dos sindicalistas que sempre arrumam um jeito de colocar a culpa em todos os que não se filiaram a seu clubinho.