O Relatório Mensal do FED

Citado hoje na imprensa – dado que o Brasil aparece em cores bem realistas – eis aqui o link para o relatório. O pessoal do Estadão gostou muito deste gráfico que coloca o Brasil como – na amostra – um dos países com maior apreciação negativa da moeda (ou seja, maior depreciação/desvalorização da moeda) em relação ao dólar e, ao mesmo tempo, como um país com alto índice de vulnerabilidade.

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A primeira pergunta que me ocorre é: que índice de vulnerabilidade é este? Talvez seja este descrito aqui. O relatório nos dá algumas pistas. Por exemplo, ele tem a seguinte composição:

The index is constructed for a sample of 15 EMEs and is based on six indicators: (1) the ratio of the current account balance to gross domestic product (GDP), (2) the ratio of gross government debt to GDP, (3) average annual inflation over the past three years, (4) the change over the past five years of bank credit to the private sector as a share of GDP, (5) the ratio of total external debt to annualized exports, and (6) the ratio of foreign exchange reserves to GDP. By construction, higher values of the index indicate a greater degree of vulnerability.

Bom, percebe-se que não há uma preocupação maior com o índice já que o objetivo é acompanhar apenas 15 países (embora eu desconfie que o pessoal do FMI tenha uma base mais ampla com estes dados…).

Chato mesmo é que a gente fica curioso para saber se esta correlação apresentada vale para um período de tempo maior. Caso a correlação acima seja algo realmente significativo, então não estamos lá muito bem mesmo. Há um tempo atrás a conversa de alguns entusiastas da administração da Fazenda falavam no alcançar de um nirvana com taxas de câmbio bem desvalorizadas. Bem, parece que a realidade contradiz esta teoria.

Morre Michael Mussa

Michael Mussa morreu. Trecho da matéria:

No último relatório, publicado em setembro, ele escreveu que “está demorando muito para que funcionários públicos e bancos centrais parem de puxar o saco e comecem a chutar o traseiro de banqueiros cujo interesse próprio diverge substancialmente do interesse público”.

Mais sobre Michael Mussa aqui e aqui.

Nova base de dados para se prevenir contra quebras de bancos

Distress in European Banks: An Analysis Based on a New Dataset

Author/Editor: Poghosyan, Tigran | Cihák, Martin

Summary: The global financial crisis has highlighted the importance of early identification of weak banks: when problems are identified late, solutions are much more costly. Until recently, Europe has seen only a small number of outright bank failures, which made the estimation of early warning models for bank supervision very difficult. This paper presents a unique database of individual bank distress across the European Union from mid-1990s to 2008. Using this data set, we analyze the causes of banking distress in Europe. We identify a set of indicators and thresholds that can help to distinguish sound banks from those vulnerable to financial distress.

Artigo novo lá na Public Choice: o viés das previsões oficiais

The political economy of IMF forecasts
Axel Dreher · Silvia Marchesi · James Raymond Vreeland

Abstract We investigate the political economy of IMF forecasts with data for 157 countries (1999–2005). Generally, we find evidence of forecast bias in growth and inflation. Specifically, we find that countries voting with the United States in the UN General Assembly receive lower inflation forecasts as domestic elections approach. Countries with large loans outstanding from the IMF also receive lower inflation forecasts, suggesting that the IMF engages in “defensive forecasting.” Finally, countries with fixed exchange rate regimes receive lower inflation forecasts, suggesting the IMF desires to preserve stability as inflation can have detrimental effects under such an exchange rate regime.

Se você for ao Google, talvez ache versões anteriores do artigo.

Agora, por que parar no FMI? Não será que outros órgãos públicos tendem a puxar sardinha para seus pagadores, os governos? Comentários?

Novo número do IMF Staff Papers

Super Cycles in Real Metals Prices?
John T. Cuddington and Daniel Jerrett

Mortality and Lifetime Income: Evidence from U.S. Social Security Records
James E. Duggan, Robert Gillingham, and John S. Greenlees

The Effect of External Conditions on Growth in Latin America
Pär Österholm and Jeromin Zettelmeyer

How Does the Global Economic Environment Influence the Demand for IMF Resources?
Selim Elekdag

A Debt Overhang Model for Low-Income Countries
Junko Koeda

Index (PDF 92Kb)

A microeconomia que ministro (claro) nunca vê

Autoridade não passa pelo que o Duke relata. Tem gente que precisa olhar um pouco para o que escreveu antes de fazer discurso. Ou um cargo público muda tudo?

O bom da blogosfera é que não existe apenas otário comentando. Existe gente como o Duke que vai além da reprodução bovina de muita redação “supostamente” jornalística e vai fundo na crítica. Em resumo, a microeconomia do sistema bancário brasileiro não pode ser desprezada.

Eis algo para a história econômica do século XX

Stress Testing at the IMF
Author/Editor: Moretti, Marina | Stolz, Stéphanie | Swinburne, Mark
Authorized for Distribution: September 1, 2008
Electronic Access: Free Full Text (PDF file size is 282KB)
Use the free Adobe Acrobat Reader to view this PDF file.

Disclaimer: This Working Paper should not be reported as representing the views of the IMF. The views expressed in this Working Paper are those of the author(s) and do not necessarily represent those of the IMF or IMF policy. Working Papers describe research in progress by the author(s) and are published to elicit comments and to further debate.

Summary: For almost a decade, the IMF has been using stress tests to identify vulnerabilities across institutions that could undermine the stability of a country’s financial system. This working paper focuses on the IMF’s experience with stress testing in the Financial Sector Assessment Program (FSAP). It provides background on the nature of an FSAP and the role of macro stress testing within it. It also describes how the methodology of stress testing in FSAPs has been evolving and what are fairly common approaches now being used. Finally, it discusses the main strengths and challenges for future development of macro stress testing in FSAPs and provides an overview of stress testing practice in European FSAPs.

 

Lembra do IPEA aparelhado?

Pois imagine o que seria um FMI aparelhado. Certamente é uma hipótese polêmica (não li o artigo, apenas o resumo), mas alguém pode pensar em um teste similar para o Brasil. Governos grandes e distorção de informação estão, sempre, juntos ao longo da história do mundo. Que coisa…

FMI elogia a administração da Silva: e você com isso?

Valor: O Brasil cresceu 5,4% em 2007 e há sinais de que a atividade econômica continua forte no começo do ano. O sr. acha que esse nível de crescimento é sustentável?

Singh: Fundamentalmente, a economia brasileira está aproveitando os benefícios de políticas bem-sucedidas de estabilização, das reformas estruturais, da abertura externa crescente e da redução das vulnerabilidades. Em especial, uma administração macroeconômica adequada contribuiu para reduzir a inflação para níveis baixos, diminuir a relação dívida pública/PIB e melhorar o seu perfil e permitir uma forte queda dos juros reais e prêmios de risco, que eram historicamente altos. Houve uma mudança surpreendente no desempenho econômico do Brasil nos anos recentes. Como resultado, o crescimento aumentou. A economia ganhou impulso nos trimestres recentes, principalmente refletindo a força da demanda doméstica, incluindo um considerável crescimento do investimento privado, impulsionado pelos elevados preços de commodities e grandes fluxos de investimentos estrangeiros diretos. Os números mais recentes do PIB, como o resultado do quarto trimestre de 2007, são outra indicação da continuidade da força da economia brasileira. Números parciais mostram que o crescimento se manteve robusto nos primeiros meses de 2008. As perspectivas econômicas de curto prazo são em geral favoráveis, embora sujeitas ao ambiente externo, e o Brasil está certamente construindo capacidade para sustentar um crescimento elevado no médio prazo. Um fator-chave para essa última questão é promover melhoras adicionais no ambiente de investimentos, em infra-estrutura, na intermediação financeira e na eficiência da política fiscal.

Até hoje há gente que compra o discurso do partido do presidente da Silva de que o FMI é um grande vilão. Eu penso um pouco diferente. Do ponto de vista das instituições, o FMI nada tem a ver com a microeconomia de um país. Por isto você consegue ver um elogio às políticas fiscais brasileiras, com quase ou nenhuma análise microeconômica sobre o jogo político que ocorre por aqui. Neste sentido, o FMI pode elogiar até o governo cubano, caso o mesmo siga o seu receituário.

Uma crítica completamente diferente é se o receituário do FMI é bom ou não. O presidente da Silva, há anos, faz o discurso de que, sim, é bom seguir o que diz o FMI. Em outras palavras, é fácil, macroeconomicamente, seguir o que diz o FMI. Outra coisa é culpar o FMI pelo mensalão e outros escândalos que surgiram na administração atual, com o envolvimento de gente importante no partido do presidente. Não é possível culpar as políticas do FMI como herança maldita.

Gente da esquerda gosta de socializar a culpa e privatizar os benefícios gerados por outros fatores e, por isto, você vê tanta ênfase em termos de marketing político como: “herança maldita”, “FMI e os imperialistas” ou “o economicismo frio e malvado”. Trata-se de uma estratégia de tentar se desvincular da própria responsabilidade em ser o governo que aumenta a carga tributária e jogar a culpa nos outros. Claro que esta é facilmente perceptível por quem tem algum grau de instrução (não de doutrinação).

Mas a outra crítica, a dos não-liberais da direita, é a que mais se mostra confusa. Ou se diz que o presidente da Silva capitulou, ou se diz que ele faz um ajuste fiscal para gerar recessão e…implantar o socialismo. Uma coisa contradiz claramente a outra. Aqui é “claramente” mesmo porque em uma das críticas o ajuste fiscal é o “mocinho” e, na outra, o “vilão”.

É importante diferenciar bem estas coisas. Primeiro, estudos de cientistas políticos sérios mostram que os governos não-liberais de FHC e da Silva não são idênticos. Segundo, o fato de um déficit primário estar próximo de zero não significa que o mesmo é obtido sempre de uma única forma. Terceiro, as circunstâncias externas que FHC enfrentou e as que o presidente da Silva enfrenta são muito diferentes sendo que, no último caso, herdou-se uma política macroeconômica muito mais adequada ao momento atual (câmbio livre e política monetária razoavelmente mais independente) do que em outros períodos de transição de nossa história.

Do ponto de vista liberal, sem dúvida, nem FHC, nem da Silva foram presidentes liberais. A confusão está, na verdade, entre os não-liberais, que ora criticam, ora elogiam o presidente atual…e sempre pelos mesmos motivos. Por isto eu insisto sempre nos tags “socialismo real” e “bolivarianismo”: as pessoas precisam aprender a dar nomes aos bois e, mais do que isto, explicar o que são os bois, de jure e de facto.