Alemães felizes com seus amigos?

A tal economia da felicidade ainda não me convenceu com seus resultados, mas vamos lá, pesquisa publicada é pesquisa para ser lida e comentada. Nesta pequena nota, o autor fala desta história de felicidade relacionada aos amigos. Segundo autor, com sua amostra germânica:

Life satisfaction estimates for Germany indicate that money as well as social relationships matter. The high consumption values of permanent partnerships and close friends of several ten thousands Euros per year in terms of household income are in line with previous findings for the US on partnerships (Blanchflower and Oswald 2004), for the UK on meeting with friends and relatives and on talking to neighbors (Powdthavee 2008), and for the UK on deaths of partners and friends (Oswald and Powdthavee 2008). The relevance of social relationships in determining well-being is often ignored in standard welfare analysis, although the shadow prices can be estimated, are very large and should therefore not be ignored. For example, a cost-benefit analysis of mobility should also take into account these negative effects as already pointed out by Layard (2006, p. C32) (…).

My econometric analysis has moreover shown that the computed consumption values are significantly lower when non-linearity (decreasing marginal utility) of household income is accounted for, which indicates a significant upward bias in the computation of consumption values (willingness to pay or shadow prices) when using linear income specifications such as in Blanchflower and Oswald (2004), Powdthavee (2008), Oswald and Powdthavee (2008), and many other studies.

Mesmo sendo um pouco cético quanto a estes resultados, acho legal o ponto do autor sobre o problema de especificação. Vale dizer, estimar uma relação linear sem testar para não-linearidades pode, sim, ser um problema. Obviamente, qualquer um que tenha estudado um pouco de Economia sabe que utilidade marginal decrescente não é algo que você despreze ad hoc em um modelo econométrico, notadamente, um modelo que fala de “felicidade”, “utilidade” ou “satisfação”.

Fonte: BBC

Neste sentido, o autor tem um ponto muito válido, mas poderíamos questionar também suas conclusões. Afinal, por que não usar algum método do tipo Box-Cox para checar esta questão de linearidade? Por que parar no efeito de segunda ordem (ok, eu sei que seria difícil explicar um efeito de quinta ordem mas, ei, não foi ele quem falou da importância das não-linearidades, de forma geral?)?

Outra coisa a se pensar: o autor fala de alemães e tenta, a partir desta amostra, falar da importância da não-linearidade em outras amostras. Ok, pode ser que ele tenha levantado uma pista importante. Mas também é possível que não exista efeitos não-lineares entre os nativos da França ou de Madagascar. A observação dele, portanto, deve ser encarada como uma agenda de pesquisa acerca da utilidade marginal decrescente em geral.

A microeconomia, realmente, é um campo fértil para qualquer interessado em estudar assuntos humanos. Bom, alemães felizes já é uma boa imagem para começar o sábado.

Vai um cafezinho aí?

Eis um estudo pequeno, mas didático para quem acabou de aprender a lei de demanda e não sabe o que fazer com ela.

Where to sell the next cappuccino? Income per capita and coffee consumption
Arturo Jose Galindo - Inter-American Development Bank

Abstract
This paper estimates the world demand for coffee using a dataset for 88 countries from 1990 to 2005, and dynamic panel data estimators. Results suggest that the income elasticity of demand is non constant and varies according to a country’s income level. Higher income countries have lower income elasticities than middle and low income ones. Differences in price elasticities are not significant across income groups

Por que didático? Porque geralmente o pessoal tem uma visão muito limitada – quando aprende – da lei de demanda ou melhor, da função (de) demanda. A falta de noção sobre o caráter científico da economia, muitas vezes, impede que o sujeito perceba como aplicar a econometria em problemas do mundo real.

Por exemplo, muitos alunos desistem do curso porque acham a “função demanda muito abstrata”. Entretanto, se você tem uma boa base estatística e entende a ligação entre teoria e prática, as coisas ficam bem mais simples. 

Um preconceito comum acerca disso é o famoso: “mas eu não quero ficar na academia”. Ok, então você está me dizendo que nem precisava ter feito vestibular, certo? Ok, imaginemos que a bronca é só com a aplicabilidade. Neste caso, um bom profissional de marketing poderá lhe dizer sobre a importância da coleta de dados, de seu tratamento estatístico e da estimação. Obviamente, nem todos os profissionais são bons ou tratam de análise de dados, mas pense nisso. Enquanto isso, fique com um café. Eu, por acaso, hoje, estou no chá verde. ^_^

Economics Bulletin

Se você está encontrando dificuldades no acesso de www.economicsbulletin.com, para me ajudar a fazer um relatório mais detalhado para o editor da revista (parece um problema de DNS), por favor:

1. Informe-me de que país você tentou acesso e, se possível, estado/região

2. Se quiser informar o provedor ou fazer comentários, também são bem-vindos.

Pode me informar pela caixa de comentários. Pretendo descobrir se é um problema exclusivo do Brasil ou se há colegas em outros países com os mesmos problemas.

Ah sim, até que se saiba o que fazer, use este outro link: http://www.accessecon.com/pubs/EB/.

Dar notas excessivamente boas aos alunos os deixa mais frustrados?

Implications of grade inflation: knowledge illusion and economic inefficiency in the knowledge market
Tin-chun Lin (Indiana University – Northwest)

Abstract

In this paper, we adopt the neoclassical model of consumer choice and view students as a utility maximizer to investigate two implied issues caused by grade inflation – knowledge illusion and economic inefficiency in the knowledge market. These issues are important because they negatively impact the quality of higher education and weaken the signaling role of educational credentials in screening workers. More importantly, students eventually suffer a loss in well-being in the knowledge market and become less productive and competitive in the labor market.

Como se vê, a resposta é positiva. A recomendação de política é simples e clara: professores devem evitar a aplicação de testes óbvios, trabalhos que geram pontos facilmente, etc. Alunos, como todos os seres humanos que sobrevivem no processo evolutivo, gostam de desafios.

Maior salário de professor, melhor qualidade do ensino

Mais um dos infindáveis artigos que encontram este resultado, aqui. Para os alunos de Econometria, atenção para a discussão sobre endogeneidade.

p.s. uma boa discussão seria “como se mede a qualidade do ensino”?

Quer diminuir os juros dos bancos?

Esqueça o papo furado das correntes em sua caixa de emails ou o papo sem sentido do bolivarianismo. Basta aumentar a concorrência, como constatam – pela enésima vez – estes dois autores.

Por falar em bancos, este pequeno artigo de Celina Ozawa está muito interessante. A autora explora, empiricamente, a relação entre taxa de juros, garantia e tempo de relacionamento para o capital de giro no Brasil. Parece-me um resumo de tese/dissertação mas o leitor já pode apreciar a qualidade de um bom estudo empírico. Coisa de gente que faz economia, claro.

Efeito Peltzman em Minas Gerais

Economic Determinants of Driver’s Behavior in Minas Gerais

Claudio Djissey Shikida (IBMEC-MG), Ari Francisco de Araujo Jr. (IBMEC-MG) & Guilherme de Castro (Polícia Rodoviária Federal – Brasil)

The aim of the paper is to evaluate the behavior of drivers when they face a safe-traffic environment. Some studies suggest that the laws that demand auto makers to produce safer vehicles also stimulate their drivers to drive carelessly, since the cost of driving carefully decreases. Likewise, a safer traffic environment or less dangerous surroundings can stimulate drivers to drive more aggressively and less carefully. This study tries to test whether the
undesirable behavior described by Peltzman (1975) is observed on the highways and roads of the State of Minas Gerais, Brazil. Estimates based on data found in the Brazilian Federal Road Police’s accident report databank confirm drivers’ lack of attention in safer environments. The results suggest that careless behavior in traffic increases when safer conditions prevail.

Detalhes sobre novo artigo

Military Expenditures, External Threats and Economic Growth
Ari Francisco de Araujo Junior Cláudio D. Shikida – Ibmec Minas Ibmec Minas

Abstract

Do military expenditures have impact on growth? Aizenman Glick (2006) found that this impact is positive in countries with good governance, where the external threat is significant. Our article shows that their results suffer from three limitations: (i) they are not robust to the most recent main database used; (ii) small changes in the time period of some variables change their results, and (iii) the authors’ econometric specification is not adequate to their hypothesis. Using a 2SLS specification we reconfirm the authors’ hypothesis.

Onde? No Economics Bulletin. Trata-se, aliás, do primeiro segundo artigo de professores das Faculdades IBMEC-MG em inglês publicado no exterior. O primeiro é do Ari com André Golger, em Papeles de Población  (no prelo).