Incentivos na Academia – mais anotações

Uma carreira científica é peculiar de certas maneiras. Sua razão de ser é o aumento do conhecimento natural. Ocasionalmente, portanto, um aumento do conhecimento natural ocorre. Isso, porém, não demanda tato, e sentimentos podem ser feridos. Pois em algum grau é inevitável que visões previamente expostas se mostrem obsoletas ou falsas. Acho que a maioria das pessoas pode reconhecer isso e aceitar que aquilo que elas vêm ensinando há dez anos ou mais precisa de uma pequena revisão; contudo, alguns sem dúvida acharão difícil aceitar, como um golpe em seu amor-próprio, ou mesmo como uma invasão do território que julgavam ser exclusivamente seu, e devem reagir com a mesma ferocidade que vemos nos papos-roxos e tentilhões-de-peito-rosa, nesses dias de primavera, quando sentem uma intrusão em seus pequenos territórios. Acho que não se pode fazer nada a esse respeito; é inerente à natureza de nossa profissão. Mas deve-se aconselhar e avisar o jovem cientista de que, quando tiver uma jóia a oferecer para o enriquecimento da humanidade, alguns certamente desejarão cercá-lo e despedaçá-lo. [Ronald Fisher, 1947, em entrevista para a BBC, citado por David Salsburg em "Uma senhora toma chá...como a estatística revolucionou a ciência no século XX, Zahar, 2009]

Ontem eu citei um trecho de Hayek similar em espírito. O ponto comum de ambos é que a empresa produtora de conhecimentos é sujeita a muitas imperfeições.

Existem barreiras à entrada e à saída. Por exemplo, digamos que um grupo decide que seus membros são os únicos, digamos, a entenderem como a economia funciona (logo, os demais são tidos como “ignorantes” ou “mal-intencionados”). Aí não tem quem lhes diga algo novo porque, afinal, eles sabem tudo. É um fenômeno brevemente citado neste pequeno artigo de Klein & Stern. Por outro lado, o sujeito que leu determinado autor e resolveu avançar em sua interpretação em direção distinta à do grupo que pertence, claro, pode ser discriminado e perder amizades (senão acesso a recursos financeiros). 

Note que não estou a afirmar que o grupo do exemplo está mais ou menos perto de algo que se possa chamar de “verdade científica” (existiria tal coisa?). A análise se preocupa menos com o que Fisher, o interessante estatístico, chama de “avanço do conhecimento” do que propriamente com os incentivos envolvidos na aceitação ou não de novas idéias. Claro que pode haver um maluco que queira nos vender misticismo como ciência – e ele sofrerá os mesmos efeitos descritos acima a partir de seu grupo – mas não julgo a qualidade científica de sua contribuição, apenas analiso os incentivos, ok? 

O mercado das idéias é algo interessante de se analisar e não há respostas definitivas sobre o tema. Há incentivos políticos e econômicos envolvidos e a própria definição de ciência sempre está no âmago destas brigas (o argumento estúpido, mas  final é sempre:  “você não faz ciência, eu faço”). Só para se ter uma idéia do tamanho do buraco, veja este texto. Ah sim, um bom estudioso do tema, creio, é o Alberto Oliva, que anda sumido da internet, infelizmente…

A ideologia dos professores

Daniel B. Klein and Charlotta Stern

PROFESSORS AND THEIR POLITICS: THE POLICY VIEWS OF SOCIAL SCIENTISTS

ABSTRACT: Academic social scientists overwhelmingly vote Democratic, and the Democratic hegemony has increased significantly since 1970. Moreover, the policy preferences of a large sample of the members of the scholarly associations in anthropology, economics, history, legal and political philosophy, political science, and sociology generally bear out conjectures about the correspondence of partisan identification with left/right ideal types; although across the board, both Democratic and Republican academics favor government action more than the ideal types might suggest.Variations in policy views among Democrats is smaller than among Republicans. Ideological diversity (as judged not only by voting behavior, but by policy views) is by far the greatest within economics. Social scientists who deviate from left-wing views are as likely to be libertarian as conservative.

Daniel Klein tem sido um nome relevante no debate sobre o viés ideológico na Academia norte-americana. Em outro texto, interessante mas algo incompleto, os mesmos autores dizem o seguinte:

Most intellectuals develop ideological sensibilities by the age of twenty-five or thirty (Sears and Funk 1999), and afterward they rarely revise them substantially. Intellectual delight and existential comfort are taken not in reexamining prior decisions, but in refining and developing ideas along the lines already mastered (Ditto and Lopez 1992; Nickerson 1998). Professors are likely to respect scholars who pursue questions similar to their own and who master similar modes of thought. They are not likely to respect scholars who pursue questions predicated on beliefs at odds with their own. Indeed, if a scholar is engaged in a task that might threaten a colleague’s sense of self, he may give rise to personal distress and create acrimony between them. Professor A might lose standing and credibility with students if a colleague, Professor B, who is teaching those same students in a different course, exploded some of the premises of Professor A’s course materials, lectures, and writings.

Será que os professores se deixam levar por suas ideologias frequentemente? E esta história do sujeito já estar mais ou menos confortável com sua visão de mundo aos 25 ou 30 anos de idade? Concordo com o fato de que a ideologia é algo difícil de se entender, mas isto não implica que ela não esteja presente em nossas vidas. No caso da pesquisa acadêmica, acho que falta alguém que faça algo similar a Klein & Stern. Gostaria de saber se existe o tal viés “esquerdista” que tantos citam – sem uma única evidência empírica, por mais pobre que seja – nas universidades brasileiras. Eu até suspeito que ele exista, mas minha experiência pessoal não é generalizável (qualquer um que tenha estudado…e entendido…um pouco de estatística sabe disso).

De qualquer forma, ficam para o leitor deste blog as referências para começar sua pesquisa na área.

Kirzner, o confuso…

Dan Klein sobre um dos mais famosos economistas austríacos, Israel Kirzner. Texto obrigatório para o próximo semestre (se é que você me entende). Excelente para quem gosta de História do Pensamento Econômico que, claro, não se limita ao final do século XIX (lembrete: estamos no século XXI).