junho 2011


Dois boxeadores cubanos extraditados = Um terrorista italiano protegido.

Os jornalistas brasileiros não podem ouvir falar de “Wikileaks” que é uma festa na redação. Entretanto, ninguém toca no tabu da presidenta: seu apreço pelo sigilo eterno. Não é que a história brasileira deve ser feita de forma acorvadada? Os historiadores, que até agora não reclamaram à altura de Clio, deverão contar histórias falsas para todos porque…os documentos oficiais têm sigilo eterno.

Imagine se um Julian Assange aparece no Brasil e publica os documentos. O que dirá a esquerda, que sempre se diz a favor do jornalismo livre? Bem, no momento, sem Julian Assange, as preferências reveladas da esquerda nacional (e dos políticos de outros partidos, barulhentamente silenciosos) mostram que político brasileiro gosta de censura. Eles podem ver meu CPF, podem até permitir que um CD com dados dos contribuintes saia da Receita Federal e seja vendido na rua sem muita preocupação.

Mas quando o assunto envolve os “representantes” do povo, parece que todo sigilo é pouco.

Engraçado mesmo como nenhum filósofo, jornalista militante ou historiador tem se manifestado sobre o assunto. Pois é, Julian Assange só é bom quando o documento secreto é do governo dos EUA. Para o Brasil, pelo visto, vale a lei da selva.

Uma excelente dica do Fábio Pesavento foi esta matéria no Boston Globe. É impressionante como a pesquisa de campo feita por historiadores sérios resulta em novos e melhores caminhos para se entender ( = testar hipóteses) o passado.

Eis o Centro de Estudos de Escolha Pública da UFM.

Os vereadores devem estar loucos. Cristiano Gomes tem razão: a cada dia que passa a política local se mostra menos e menos conectada com o mundo.

p.s. a justificativa do vereador que propôs a lei é bizarra: acabar com as brigas nas boates e bares de BH…

p.s.2. em uma notícia algo relacionada, os produtores de sacolas de plástico da civilização não são tão bocós assim.

Excelente entrevista com o Gustavo Franco onde ele, sem perceber, explica a deterioração fiscal da administração Rousseff-da Silva no pós-2008 com o argumento de Robert Higgs, o “efeito-catraca”.

Pois é, passei um tempo danado brincando com a série do PIB…mas fui obrigado a reconstruí-la. A dica do Colistete foi ótima porque, com ela, acabei voltando (e reencontrando) as antigas tabelas de “economia” das Estatísticas do Século XX do IBGE (não vá ao download, mas procure na página principal do IBGE).

Assim, lá vou eu brincar com as séries novamente…

UPDATE p.s. brinquei. Essencialmente, a raiz unitária se faz presente…

Interessante matéria no Estadão de hoje. Trata-se da lista crescente de “efeitos colaterais” em bulas de remédios. Eis alguns trechos:

Para uma pessoa que sempre teve de ver anúncios de Flomax (remédio para tumor benigno da próstata), a lista dos efeitos colaterais de um remédio é quase uma piada. Mas a pergunta é: por que ela continua crescendo? Não é que o problema não tenha sido abordado. Em 2006, preocupado com um catálogo cada vez mais extenso de efeitos colaterais, Jerry Avorn e William Shrank, da Escola de Medicina de Harvard, escreveram um artigo para o New England Journal of Medicine qualificando o fato como “toxicidade linguística”.

(…)

Anos depois de a diretriz ser estabelecida pela agência, Duke percebeu que, em vez de a lista diminuir, o número de efeitos colaterais aumentou nos rótulos existentes antes da nova exigência. Eram apontadas possíveis complicações bizarras, como “jogo compulsivo”. Outras, como “náusea”, são muito comuns e estão em 75% dos rótulos.

(…)

Catalogar cada indício de reação adversa pode ajudar as empresas farmacêuticas no caso de ações judiciais. Se alguém processa uma empresa por causa de um efeito colateral informado na bula que acompanha o medicamento, a empresa pode dizer que o paciente foi alertado.

Veja só, leitor. Estas bulas ultra-detalhadas servem apenas ao propósito de proteger as empresas de processos judiciais. Se fossem para ajudar aos pacientes, não se faria uma lista gigantesca e de difícil leitura. Pode-se até imaginar o seguinte: se a ANVISA disser que deseja listas mais detalhadas nas bulas, a suspeita é de que a regulação teria sido capturada pelos interesses da indústria farmacêutica. Não sei o que a ANVISA faz nestes casos (ela deve fazer algo, já que, de uns para cá, passou a se comportar de maneira muito intervencionista), mas a reportagem tem algumas mensagens claras: (a) não basta regular um setor. A regulação deve ser pró-competição e, portanto, pró-consumidor e; (b)  interesses específicos podem sempre se sobrepor a uma regulação bem-intencionada, com ou sem sua cumplicidade.

Ops, está na hora do anti-alérgico…

Este é relativamente didático.

Olha aí, leitores. O Salvato fez um longo comentário neste post, explicando o que ele disse e o que a repórter conseguiu fabricar (com o que ele disse).

De minha parte, só posso lamentar que a imprensa seja tão descuidada a ponto de gerar muito ruído na reputação de quem lhe fornece boa parte do trabalho: as fontes de opinião. Salvato é uma delas e não merece este tipo de erro.

Aos bons colegas jornalistas: mais cuidado na transcrição, por favor.

Este é direto do SB. Portanto, leiam lá. Desnecessário dizer que um pouco de economia não faz mal…

O PIB do Brasil tem raiz unitária? Estive tabulando dados históricos e resolvi brincar um pouco com a série do PIB. Em resumo, consegui um esboço de “PIB de longo prazo” (1862-2010) para o Brasil.

Bem, aí surgiu a pergunta: o PIB tem raiz unitária? Para efeitos de diversão, fiz o ADF, o ADF-GLS e o KPSS (de quebra, ajudei a detectar um “bug” no gretl…). Eis os resultados. Para o ADF, temos:

 test with constant
   model: (1-L)y = b0 + (a-1)*y(-1) + ... + e
   1st-order autocorrelation coeff. for e: 0.015
   lagged differences: F(9, 128) = 13.517 [0.0000]
   estimated value of (a - 1): 0.000838294
   test statistic: tau_c(1) = 0.389209
   asymptotic p-value 0.9826

   with constant and trend
   model: (1-L)y = b0 + b1*t + (a-1)*y(-1) + ... + e
   1st-order autocorrelation coeff. for e: 0.017
   lagged differences: F(9, 127) = 13.480 [0.0000]
   estimated value of (a - 1): -0.0347951
   test statistic: tau_ct(1) = -2.38959
   asymptotic p-value 0.385

Note que a não-rejeição da hipótese nula parece maior no caso em que o teste tem como termos deterministas a constante e a tendência na equação. Aparentemente, a série é um passeio aleatório com drift em torno de uma tendência determinista.

No teste do ADF-GLS:

Augmented Dickey-Fuller (GLS) test for l_PIB_LP_inde
including 9 lags of (1-L)l_PIB_LP_inde (max was 13)
sample size 139
unit-root null hypothesis: a = 1

   with constant and trend
   model: (1-L)y = b0 + b1*t + (a-1)*y(-1) + ... + e
   1st-order autocorrelation coeff. for e: 0.013
   lagged differences: F(9, 129) = 13.910 [0.0000]
   estimated value of (a - 1): -0.0128951
   test statistic: tau = -1.26888

                      10%     5%     2.5%     1%
   Critical values: -2.64   -2.93   -3.18   -3.46

Aqui a hipótese de raiz unitária ganha um pouco mais de força. Vejamos o KPSS:

KPSS regression
OLS, using observations 1862-2010 (T = 149)
Dependent variable: l_PIB_LP_inde

             coefficient   std. error    t-ratio    p-value
  ----------------------------------------------------------
  const       2.09506      0.0734929      28.51    9.24e-062 ***
  time        0.0453337    0.000598572    75.74    1.14e-119 ***

  AIC: 79.8893   BIC: 85.8972   HQC: 82.3302

  Robust estimate of variance: 0.450189
  Sum of squares of cumulated residuals: 4512.94

KPSS test for l_PIB_LP_inde (including trend)

T = 149
Lag truncation parameter = 4
Test statistic = 0.451537

                   10%      5%      1%
Critical values: 0.120   0.148   0.216

A hipótese nula é de estacionaridade da série mas a estatística de teste, novamente, favorece a hipótese de não-estacionaridade da série.

Bem, as saídas acima são todas do Gretl (hoje não temos o “momento R do dia” e sim o “momento Gretl do dia”, he he he) e, caso alguém que saiba de uma série de população para todo o período (ou pelo menos para depois de 1913, para que eu possa usar a série de população do Leff até esta data), eu agradeceria. Neste caso eu teria uma boa aproximação da evolução da renda per capita ao longo de quase dois séculos…

Reinaldo Azevedo mostra que, contas simples, refuta-se o argumento de muito ecoterrorista (e de muita gente ingênua). Você pode até ser contra o Código Florestal, mas não pode se esconder na ignorância quanto aos números.

…certamente apelará para negociações com os terroristas. Claro que nem lhes passa pela cabeça uma açãozinha envolvendo a sua inteligência e seus efetivos…O que será que o governo chinês acha das FARC agora?

 

Já não é de hoje que ouço os conservadores dizerem que a escolaridade dos pais afeta o desempennho escolar dos filhos e, portanto, espera-se que isto repercuta no mercado de trabalho. Estes mesmos conservadores (internacional-recessionistas…ou regional-estagflacionistas), segundo sua doutrina, reclamam dos gloriosos governos (refiro-me aos iluminados governos de esquerda, claro), por não investirem tanto em educação básica.

Nota-se que são inimigos dos sem-terra, dos GLS, dos negros, dos índios, das mulheres…talvez até dos homens. Afinal, está tudo errado. O que o governo tem feito ao investir pouco em educação básica faz todo o sentido. Veja só: se a educação dos pais gera desigualdades, o remédio popular e democrático é deseducar (ou: “emburrecer”) os pais! Como isso não é tão fácil porque há resistências da elite cultural (a mesma da norma culta e da matemática imperialista eurocêntrica na qual 2 + 2 = 4), o melhor que se pode fazer é não investir em educação básica!

Agora sim, a falácia da argumentação ortodoxo-monetarista-neoliberal-globalizante do capital sem alma e sem rosto foi desmascarada. Companheiros! Uni-vos pelo emburrecimento dos pais! Além do mais, isso nos garante votos mais facilmente…

Novo número, aqui.

Economista critica falta de correção inflacionária
O escalonamento em quatro anos do reajuste de 97% de PMs e policiais civis pode representar, no fim do período, em mais perdas. É o que afirma o doutor em economia do Ibmec Márcio Salvato. Segundo ele, o aumento deveria considerar também a inflação do período.

“É preciso que seja considerado essa inflação para que a defasagem não seja alta”, disse. Para o economista, a falta de reajuste nos salários pode favorecer a busca por uma renda paralela e, em casos extremos, propiciar a corrupção”, afirma Salvato.

Além do reajuste salarial, os policiais civis também pedem por melhores condições de trabalho. Para a categoria, o aumento atende apenas a uma parte das reivindicações. “Pedimos aumento no quadro de funcionários e melhores condições de trabalho, e isso até agora não foi apresentado”, disse o presidente do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil (Sindipol), Denilson Martins. (GS)

Embora o pessoal da imprensa tente me convencer que o prof. Salvato defende a indexação da economia, eu vou dizer a vocês, meus dois leitores: distorceram o que ele disse. Assim, este espaço está aberto para o prof. Salvato, caso queira fazer algum comentário esclarecendo o que realmente ele quis dizer.

Eu sei o que ele quis dizer, claro. Mas não sou eu que faço matérias para jornais…

1. …a que se dá privilégios.

2. …a que ilegaliza a honestidade.

Difícil, não?

Falei um pouco mais do que isso, mas a essência das minhas idéias está toda lá. O BC está na lona. Ano que vem, ano que vem…mas o time é o mesmo…o que esperar disso tudo? Como sou um sujeito naturalmente pessimista…

Lá no Nepom, a gente imaginava este como um dos cenários (nosso modelo puxou para inalteração, mas, em um cenário, havia a probabilidade de aumento de 0.25 p.p.). Bem, nada de novo. O BC errou na mão no início do ano, as medidas “macroprudenciais” parecem não estar surtindo efeito (ou não estaríamos no limite superior de 6.5, segundo o discurso do próprio BC), a inflação voltou, a indexação já é um fato, o governo não quer saber de gastar menos, etc, etc.

Não sei se dá para ficar otimista. Aliás, não estou.

O nome do livro é Macroeconomia – Teorias e Aplicações à Economia Brasileira, de Carlos J.C. Bacha e Roberto A. de S. Lima. Acho que está esgotado, mas vou falar dele assim mesmo.

Bom, em primeiro lugar, há tempos eu queria ver uma reedição do antigo Branson & Litvack – um livro que me foi apresentado no início dos anos 90 pela Roseli (do blog Random Walk) – e que era de 1976 ou algo assim. O que era bacana neste livro era a abordagem detalhada no que hoje se chama de fundamentos microeconômicos da macroeconomia. A função consumo de Friedman, Duesenbarry, o ciclo da vida…estava tudo lá. Em segundo lugar, um livro geralmente pouco lembrado, mas muito útil, era o de Ivo Torres. Bom, poderíamos continuar com o antigo Dernburg, o famoso Dornbusch & Fischer, etc. Todos livros muito bons em vários aspectos do ensino de macroeconomia.

Bem, Bacha e Lima conseguiram fazer uma espécie de reedição de todos estes livros em um só, com alguns exemplos de economia brasileira, o que eu acho muito, mas muito bom mesmo. Pena que os exemplos não são amplamente discutidos, mas já é uma inovação e tanto (achei até amigos citados lá como o Aguirre e o Fábio Gomes). Qualquer um que lecione sabe que não é fácil encontrar exemplos didáticos de pesquisas acadêmicas para uma disciplina como Macroeconomia e, muito menos, exemplos nacionais.

Eu não marquei a página, mas os autores deixaram passar um Edmond Phelps (ao invés de Edmund Phelps) em algum lugar. Há uma vantagem deste livro para gente da minha idade, mas que talvez não agrade alguns alunos mais novos: a recorrente citação a livros-textos mais antigos (como os que citei acima). Para mim foi ótimo porque posso acompanhar exatamente o que os autores quiseram fazer. Para um aluno mais novo, não sei, pode ser inócuo.

Gostaria de ter visto mais citação de artigos originais e menos de livros-textos, mas não sei se esta era a idéia dos autores. Também ficaram muito pequenas as seções de macroeconomia aberta e teorias da inflação.

Uma coisa que eu não gostei muito no livro foi a abordagem aos novos-clássicos. Gostei da oferta de Lucas, embora os autores não enfatizem muito o caso em que ela fica vertical (nada demais, já que o bom leitor concluirá facilmente sobre isto ao acompanhar o exemplo lá no capítulo 9. Mas acho que a questão do Banco Central e a inflação (o jogo de Barro-Gordon) poderia ter sido citado com mais detalhes. Quanto aos novos-keynesianos, não sei se a ênfase ao modelo do outro Bacha, o Edmar Bacha, como um modelo novo-keynesiano ficou um pouco exagerada, já que outras contribuições são citadas de forma muito rápida.

Outra coisa que não verifiquei detalhadamente é se as curvas desenhadas correspondem às formas funcionais dos exemplos. Lembro-me de ter encontrado este erro em uma das edições de Dornbusch & Fischer, quando era estudante e isso atrapalha um pouco o aluno que gosta de álgebra. Principalmente diante de um livro tão didático como este de Bacha & Lima.

Agora, é ótimo poder acompanhar o mesmo modelo por todos os capítulos, como os autores o fazem. Achei genial e fica bem mais fácil não apenas para o estudante, mas também para o professor. Mas na parte 4 do livro, os autores poderiam ter tentado fazer algo similar ao que faz o manual de macroeconomia de Sachs & Larrain, com um modelo de dois períodos usado tanto para consumo quanto para investimento. Particularmente, não gosto do texto de Sachs & Larrain, mas acho a abordagem de um único modelo que é ampliado capítulo a capítulo muito boa, em termos didáticos (entretanto, a parte da economia aberta deste manual me parece sempre confusa).

Ah sim, na minha opinião, os capítulos 12 e 13 sobre funções de demanda e oferta de moeda ficaram ótimos. Isto faz falta em outros livros-texto. Se eu fosse sugerir algo aqui, seria a discussão de padrões mono e bi-metálicos e mais exemplos brasileiros (os autores poderiam se aproveitar de algumas estimações de Nathaniel H. Leff em seu Subdesenvolvimento e Desenvolvimento no Brasil, 1991, como a estimação da PPP para o Brasil lá nos idos do século XIX, ou os achados de Peláez & Suzigan com a TQM).

Em poucas palavras, se fosse para dar uma nota para este livro, seria um belo 9.5 em 10.

Não se trata apenas da liberdade econômica, mas da liberdade em seu conceito mais amplo. A iniciativa é ótima e foi pouco divulgada no Brasil (as usual…), mas não apenas vale citá-la como também adaptá-la para verificar nossa baixíssima liberdade econômica, vítima, inclusive, de políticas sem sentido algum, mas com um apelo populista enorme.

Por falar nisso, lembrando do bom lembrete do Ronald Hillbrecht, eis uma campanha cujo custo marginal é praticamente zero e o benefício marginal é positivo: o abaixo-assinado por menos impostos e mais eficiência no Brasil. Não, não é uma campanha liberal. O movimento popular que endossa o abaixo-assinado tem o – sempre elogiado pelo sr. da Silva – Delfim Netto, o heterodoxo Nakano e o liberal Rabello de Castro.

…já dizia Milton Friedman e, também, os estudos da área, como este.

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