Eis um verdadeiro estudo de história econômica

Muito bacana o esforço do autor em construir séries históricas para Brasil e Argentina nos idos dos 1890…

É um artigo versão WP, de 2001, mas me alegrou pela descoberta. Eis o resumo:

This paper assesses the role of international markets in the Brazilian financial crisis of 1891/92 (the “crack” of the Encilhamento). It looks for the impact of the Argentine default in 1890 (the Baring crisis) on Brazilian access to capital markets. The history of bond yield fluctuations in London for Brazilian and Argentine debt, exchange rates, data on investment flows and archival and journalistic accounts reveal a close congruence between the Argentine and Brazilian crises. The effects of the Argentine experience carried over to Brazil because the open capital and money markets of the period easily transmitted crisis from one economy to another and because fundamental conditions in both economies rendered them similarly vulnerable to fluctuations in capital flows. The paper raises this case as a precedent for the contagious financial crises that emerging markets faced at the end of the twentieth century.

É bacana, não? Mais artigos bacanas aqui.

CVAR vs DSGE

Roseli está convergindo para a metodologia de Copenhagen. De certa forma, eu tendo a concordar com ela, embora, para ser honesto, nunca tenha trabalhado com um DSGE.

Roseli e eu temos estado em sintonia econométrica em várias ocasiões, com um lapso de tempo de 10 anos no qual ela evoluiu e eu fui trabalhar com probits e painéis simples. Paguei meu preço (e tive minhas recompensas, claro!). Agora, neste retorno ao mesmo assunto de nossas discussões de mais de 10 anos na cantina da FEA (ou na sala de estudos, ou nos corredores, ou antes da cerveja da noite na sexta-feira), descobri que, divergências políticas à parte, esta cabeça-dura lomográfica continua lutando para que a macroeconomia econométrica seja mais séria do que o que se encontra por aí.

Eviews e R

Eis aí as diferenças para um caso bem simples: estimação de modelos SARIMA.

Para os leitores menos familiarizados, recomendo a leitura. Até porque a discussão é importante. Afinal, se programas usem algoritmos diferentes e, além disso, métodos diferentes (OLS não linear, Máxima Verossimilhança), então você, aluno de graduação preocupado em fazer uma boa estimação para um trabalho qualquer, tem que prestar atenção a este tipo de detalhe.

É um post interessante e didático. Vale a leitura.

Por que não estou surpreso?

O Brasil não avança no índice de prosperidade. Os motivos são bem óbvios: insegurança e capital humano. Eu me pergunto se isso tem a ver com valores culturais ou com outros fatores. Mas o nosso “firewall” da faculdade me impede de fazer algo interessante para mostrar ao leitor, neste momento.

Quem sabe alguém já não faz umas correlações e regressões e nos diz o que encontrou?

Citação do dia

“O estruturalismo – na história econômica, na análise econômica e na política econômica – não se situa no curso dos acontecimentos e sim no centro de dogmas, sofismas e idiossincrasias.

Os estruturalistas têm passado a história econômica do Brasil pelo Leito de Procustes. [Carlos Manuel Peláez, "História da Industrialização Brasileira, APEC, 1972, p.218]

Houve um tempo em que, a despeito da sombria história econômica que se pretendia descolada dos dados ou das teorias econômicas, alguns tentaram seguir o caminho correto.

Curiosamente, muitos pós-keynesianos de hoje não gostam de ler as obras de Peláez que, por sinal, gostava de Leijonhufvud. Ah, mas isso é fácil de entender. Basta ver a citação acima: diversos pós-keynesianos-estruturalistas-etc só gostam dos fatos que lhes agradam. O falecido Ernani Teixeira, por exemplo, sempre foi tratado sem o devido respeito por esta galera, embora fosse um leitor feroz deste mestre pós-keynesiano.

Aliás, Leijonhufvud é um leitor interessado dos austríacos, embora com eles não se confunda.

Este pessoal que gosta de dogmatizar a economia faz parte do que se chama de “fim da picada”. Se os dados não comprovam o que disse este ou aquele mané (que, para eles, é um oráculo), então que se culpe a econometria.

Peláez tinha razão. Aliás, ele continua com a razão: história econômica sem teoria e sem dados não passa de sonhos ou, no caso, pesadelos…

Por que este IOF pode gerar ganhos para grupos poderosos afinados com a administração da Silva mas…

…pode ser ruim para, aham, o restante dos habitantes do Brasil.

Política econômica, nunca é demais lembrar, não deve ser feita de maneira irresponsável só porque a economia mundial (leia-se: a China) vai de vento em popa. Já sabemos o que acontece quando se esquece as lições do passado (já ensinamos história econômica do Brasil há anos, “nezte-paíz”, não é?): porcaria pura.

Quer pagar para ver, (e)leitor? Então prepare o seu bolso, mas não conte comigo. Como dizia aquela camisa engraçada: vá ao teatro, mas não me chame.

Mulheres ganham mais do que homens…

…mas isto não é uma boa notícia para nenhum dos dois. A não ser que você adore uma recessão. Isto me lembra Karl Marx, que dizia que mulheres não deveriam trabalhar porque diminuiriam o salário real dos homens no mercado de trabalho (aquela velha história de deslocar a oferta…sem considerar as externalidades pecuniárias).

Notícia interessante, não?

A ineficácia do multiplicador keynesiano dos gastos

John Taylor lança nova luz sobre este problema. Qualquer discussão séria sobre a ineficácia deste multiplicador deveria ser urgentemente feita por aqui. José Oswaldo Candido Jr. tem um trabalho sobre isso, recente. Entretanto, tenho a impressão de que ele não tem interlocutores.

Talvez seja a hora de os defensores do ativismo keynesiano “a la anos 70″ mostrarem seus modelos, já que muito falam, mas pouco mostram. José Oswaldo iniciou o debate no Brasil. Nos EUA, como o leitor habitual sabe, o debate começou com a crise. O lapso entre políticas e análises empíricas, lá, é menor do que aqui. Por que isto acontece?

Possíveis respostas:

a) No Brasil a academia é relativamente menor: não há tanta especialização;

b) Os incentivos nas universidades públicas não levam à publicação de artigos na quantidade socialmente ótima;

c) Os incentivos nas universidades privadas são para uma quantidade aulas maior do que uma quantidade de pesquisas (artigos);

d) Os incentivos políticos são tais que os economistas se desencantam com a academia e fogem para o setor privado (não-educacional). Os que ficam, na maior parte das vezes, dedicam-se a campanhas políticas, public funds-seeking, rent-seeking, etc.

Será que é por isso que temos tão pouco debate sobre políticas recentes?

p.s. as exceções de praxe sintam-se devidamente citadas.

Um heterodoxo, no Irã, seria preso

Sim, com certeza. Afinal, Keynes não era lá um sujeito muito afinado com o Islã. Sorte a dos heterodoxos que nós, ortodoxos, achamos que a coexistência é algo fora de questão. Não há restrição para que pterodoxos, por exemplo, falem besteiras.

Agora, é bom lembrar que o Islã paz e amor, como diria o ex-marqueteiro do presidente da Silva, acha a física nuclear compatível com o seu livro religioso.

Não é uma cara de pau incrível?

p.s. o eleitor mediano iraniano tem saído às ruas para mostrar que não curte isto, mas a democracia bolivariana do Irã é idêntica a que se defende aqui, entre nossos bolivarianos e, portanto…

A Justiça alternativa alemã

No começo do século, um proletário austríaco ganhou as eleições e foi carregado nos braços dos movimentos sociais para a presidência alemã. Ele implementou também um notável sistema de segurança pública e criou as Cortes do Povo.

Não, não se trata de uma notícia boa. Trata-se de uma triste história. Mais dicas aqui.

Venezuela e Brasil: o papel da Justiça e as liberdades

Eu nunca me esqueço do artigo do Rodriguez sobre como Chavez obteve os dados de votos individuais e passou a perseguir opositores. Eu sei que os leitores de esquerda detestam este tipo de artigo porque incomoda profundamente a noção de “democracia” que dizem defender.

Mas pense no caso brasileiro, no qual a liberdade de imprensa, graças à mesma esquerda, sofre agora risco de cerceamentos. Junte-se a isto a Justiça brasileira, que parece achar, muitas vezes, que liberdade é apenas o direito de extrair informações do Google ou do YouTube, proibindo sua exibição porque algum cidadão incomodado (geralmente contrário à liberdade de imprensa quando as notícias não lhe são positivas) e você fica com uma pulga atrás da orelha.

Será que o candidato vencedor recorrerá à justiça (sim, em minúsculas) para obter os nomes de seus opositores (e de seus aliados)?

Alguém pode dizer que o eleitor é o mesmo consumidor que alguns estudantes de Direito pensam ser um sujeito mal informado, ingênuo, limitado (mas que, por uma estranha razão, sempre é racional e espertão quando escolhe o seu escritório de advocacia, o contrário valendo para quando escolhe aquele escroque do seu concorrente…) e precisa ser tutelado.

Se a leitura das pesquisas de economia comportamental e da nossa tradicional economia (e mesmo da pouco estudada aqui, sem nenhum bom motivo, teoria da irracionalidade racional) for feita de forma superficial, teremos que discutir sobre a tutela que devemos ter sobre juízes, advogados, economistas e lavadores de carros porque, como perguntou o velho Marx, nas teses sobre Feuerbach (paráfrase adaptada): quem tutelará os tuteladores?

No final disto tudo, imagino mesmo é o que aconteceria se as preferências eleitorais do Facebook fossem obtidas – legal ou ilegalmente – por gente que pertence ao governo. Com uma imprensa tolhida e com bancos estatais no poder (lembre-se da Venezuela), um opositor jamais conseguiria um empréstimo ou abrir uma previdência privada. Não apenas um opositor, mas um bem-intencionado cidadão que, porventura tenha mudado de idéia sobre o candidato poderá se ver em uma situação bem desagradável.

Eis aí um exemplo do que acontece quando o Estado passa do seu tamanho ótimo (e não falo só de critérios econômicos….).