O embate das idéias

Eu gosto do Larry White, principalmente quando discute tópicos de economia monetária. Fiquei, então, curioso, com este conjunto de textos para discussão dele (um, dois e três). Claro que eu recomendaria a leitura, em conjunto com este texto de Wallis & North.

Aliás, White dá um belo exemplo de porque a teoria do valor trabalho não funciona, em um dos textos. Trecho:

The most fundamental flaw of the labor theory of value (and of the generalized cost-of-production theory of value that Smith and others also advanced) is its supposition that the price of a good reflects an intrinsic feature of the good, something infused during its production, rather than something in the minds of its buyers. It supposes that expended input cost determines selling price, rather than vice-versa. Early critics of the theory, like Samuel Bailey (1825) noted that demand and scarcity together were necessary and sufficient to explain a positive price (and resolved the diamond-water paradox), but labor input was neither necessary nor sufficient. Naturally fertile plots of land, and accidently found gems, have no labor input yet high value. Bad works of art may have many hours of labor input, yet little or no value. But the critics hadn‘t yet fully spelled out an alternative theory.
Interessante, não? Entretanto, ainda há gente que busque forçar a barra com argumentos infantis (“ah, a matemática é do mal”) ou com apelos populistas (“tanto faz, o importante é a práxis”). Mas a humanidade evolui, apesar do que Hegel chamaria de resto da história anterior, em uma perspectiva, digamos, dialética…

Sei

A candidata do presidente da Silva quer nos fazer crer que os bancos – e ela se esqueceu dos seus eleitores, todos com algum dinheiro em conta, ou mesmo com acesso ao microcrédito – não temem suas idéias em economia.

Pois bem. Eis um teste simples: divulgue o nome dos seus futuros ministros da área econômica e deixe a sociedade se declarar a respeito.

p.s. o mesmo vale para os outros candidatos.

p.s.2. não me venha com esta cretinice de falar de “bancos”. Sabemos muito bem que o medo é da população como um todo, não apenas de “bancos”. “Bancos”, cara candidata, não existem sem poupadores.

Eu sou um otimista pessimista

“Em 1947, os gibis se transformaram em prioridade para a vereadora carioca Lia Correia Dutra. [Ela] (…) [c]hamou a atenção (…) para o quanto eram perigosas as revistas vendidas ‘com fins lucrativos e para enriquecimento de seus proprietários, sem ter nenhuma finalidade educativa’”. [A guerra dos gibis, Gonçalo Junior, Companhia das Letras, 2004]

Ok, ok. Onde está o aumento da criminalidade gerado pelas revistas em quadrinhos? A resposta é: se existe algum efeito, provavelmente ele é desprezível frente, digamos, ao trauma de um filho ao ver seu pai roubando como um louco na política. Ou matando um tio.

Por isso é que eu nunca tive medo de quem joga Playstation.

Por que o mercado falhou?

Eis aí uma pergunta que alguns se fazem quando analisam o mercado de transporte aéreo de passageiros no Brasil. A questão geralmente é mal interpretada como uma tácita aprovação de que mercados sempre falham. Alguns ainda diriam – erroneamente – que o governo deveria corrigir qualquer falha de mercado.

Bem, o caso é este: a ANAC teve que intervir para tirar o letárgico mercado de sua posição bem pouco favorável ao consumidor. Eis as novas medidas, caso você perca seu vôo por problemas da companhia. Será que a ANAC precisava dizer o óbvio para as companhias? Sim, porque não é óbvio que elas atendam bem ao consumidor. Por que? Porque o incentivo para fazê-lo é muito menor em um mercado pouco competitivo do que em um muito competitivo, ceteris paribus.

A falha do governo também está presente, já que os incentivos à concorrência não parecem ser o forte deste governo. A existência de incentivos fortes ao rent-seeking também não ajudam. Claro, o mais irônico disto tudo, é que os mesmos pseudo-professores que “ensinam” que não existe “soberania do consumidor” (ou que dizem: “soberania para que? Para serem explorados?”) são os mesmos que a defendem, nem que seja às custas da menor competição nos mercados.

Esta aparente tensão – na cabeça desta galera confusa – é fruto do contato do sujeito com a realidade. Quanto mais ele sai de sua torre de marfim universitária, na qual se fala muito sobre práxis (mas a mesma se resume a um jogo político bem sujo, na maioria das vezes…), para a prática do dia-a-dia (nem que seja ganhando um cargo em uma agência reguladora porque papai é amigo do deputado), mais ele é obrigado a aprender o papel dos incentivos da maneira mais difícil: na prática.

Claro, acho ótimo que a ANAC tenha dito o óbvio para as companhias, mas melhor seria se incentivasse a competição. Neste caso, as próprias empresas aprenderiam por si as melhores formas de respeitar o consumidor. Não dizem que é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe? Então…

Selecta Matinal

1. Mudanças institucionais são difíceis. Bem, por que instituições mudam? Por que se adotam instituições melhores e, em alguns casos, piores? Este artigo desenvolve um argumento para se entender o problema.

2. Nestas discussões sobre irracionalidade racional, capital humano, ideologia e cultura, certamente há um fator que me incomoda: a burrice. A burrice é só uma característica das pessoas ou é, realmente, um determinante do desempenho de países? Bem, eis um texto que trata do assunto, embora não use o termo “burrice”.

3. Os economistas brasileiros ainda não geraram uma quantidade aceitável de estudos para se analisar uma política pública tão simples quanto a da prevenção de acidentes no trânsito. Você vê um ou outro artigo por aí, mas a verdade é que há escassez de economistas (e, no subconjunto dos economistas que estudam políticas públicas também há a escassez de competência que, claro, enfrenta a escassez artificial de dados gerada pelos governos) na área. Ok, então sempre que eu encontro artigos sobre o tema eu divulgo aqui (ainda que o pessoal frequentemente se esqueça, como é hábito na cultura ruim brasileira, de agradecer ao blog). Bem, então lá vamos nós.

4. Quer combater a obesidade? Esqueça o aumento da carga tributária para gerar empregos e benesses com esta desculpa. Confie no mecanismo de preços e contrate uma boa equipe de economistas para fazer sua política pública. Garanto que qualquer um que não seja “cabeça-de-word” fará um bom trabalho.

Há possibilidade de escolha social?

Meu amigo Thomas Kang – cujo texto utilizamos em HEB II – é um destes que adora o tema “Escolha Social”. Neste pequeno texto ele se mostra mais otimista do que eu com as possibilidades de escolha social.

Não me entenda mal. Eu também comecei a ler sobre Escolha Pública a partir do que Dennis Mueller chama de Escolha Pública Normativa, o que engloba o tópico da Escolha Social. Mas eu prefiro os argumentos do que eu chamaria de “Nova Escolha Pública”. Tenho em mente os estudos de Caplan sobre a relação entre capital humano, votação e irracionalidade.

Acho este um caminho extremamente promissor mas, claro, a escolha (individual) de Thomas (e a minha) não são substitutas entre si. Pelo contrário, elas dialogam razoavelmente bem.