Estive em uma agência do monopólio estatal chamado “Correios” para buscar uma encomenda.
Ao chegar, encontrei um rapaz já à espera e, como bom cidadão, ocupei meu segundo lugar na fila. Por nós passou um senhor idoso, de aparência bem desarrumada, que entrou pela porta ignorando-nos completamente. Quando o segurança autorizou, entramos e encontramos o dito cujo. O guarda tentou um aviso:
“- Senhor, eles chegaram primeiro”.
Entretanto, o idoso respondeu em tom de desafio e arrogância:
“- Eu tenho preferência, não?”
Geralmente, se bem me recordo, o idoso deve ser tratado com respeito não porque exista uma norma governamental (aliás, não existe tal norma expressa na agência do monopólio em que estive). Pensei em responder-lhe:
“- Sim, o senhor tem a preferência e nós, mesmo que não existisse tal lei, ceder-lhe-íamos o lugar. Mas, pela sua postura, vejo que tem muita preferência e pouco orgulho”.
O engraçado é que pela aparência do idoso, percebi que o capital humano não seria o seu forte. Aliás, ao ser atendido pelo funcionário, o idoso continuou seu show de arrogância, reclamando em voz alta e, ao ser deixado de lado da fila (o problema dele, desconfio, não foi resolvido) a espera de outro funcionário que poderia, talvez, ajudar-lhe, praguejou em voz alta sobre o monopólio estatal dos correios.
Quando chegou a minha vez, peguei a encomenda e perguntei ao rapaz sobre o porquê das três tentativas de entrega não terem sido acompanhadas daquele tradicional documento na caixa de correio avisando o destinatário de que o correio teria tentado me encontrar. Afinal, com um papel destes eu poderia buscar a encomenda pelo menos com uma semana de antencedência.
Entretanto, o funcionário do monopólio estatal dos correios – friso novamente para o leitor não se esquecer do significado do monopólio – embora educado, deu-me uma explicação confusa e genérica. Algo como:
“- Quando a etiqueta é esta azul (todas as encomendas vêm com a mesma etiqueta que alardeia o “PAC” para qualquer eleitor…ou seria uma imensa coincidência?), então pelo tamanho da caixa, o tipo de encomenda….não, só este aviso”.
Imaginei: este cara seria bem ajudado por algum tipo de documento explicativo. Por que ele não tem um panfleto simples, explicando as modalidades de encomendas que são entregues e como elas se diferenciam quanto ao aviso de entrega? Talvez o pessoal do monopólio estatal dos correios ache que todos são como o arrogante idoso, que enchem a boca para dizer sobre sua “preferência na fila”, embora pareçam nem saber ler e, assim, tenham escolhido por explicações verbais, por mais confusas que estas possam ser.
Talvez, claro, seja a falta de concorrência a causa desta ineficiência no atendimento. Ou a falta de capital humano entre o pessoal dos correios. Ou ambos.
Eu imagino o que aconteceria se um funcionário de um monopólio – que se arroga o direito de colocar avisos ameaçando o usuário de seus serviços (“desrespeitar o funcionário público te dá cana, negão, segundo o artigo x, da lei y…”) – perdesse a paciência com o tal idoso que se acha melhor do que os outros porque o governo (o patrão do monopólio) criou um estatuto só para ele.
No final, parece que os principais problemas são: (i) privilégios concedidos são sempre geradores de arrogância; (ii) o capital humano não se corrije corrige (valeu, Beltrano, por apontar meu escorregão!) com PAC ou com universidades: o trabalho é na base, como já dizia boa parte da oposição (aqui sou obrigado a concordar com a oposição, ainda que esta seja uma massa amorfa e pouco significativa no discurso político), (iii) a competição poderia ter efeitos positivos sobre os serviços dos correios, mas o governo não tem interesse em melhorar a qualidade destes serviços, nem mesmo discutir a quebra do monopólio, principalmente em ano eleitoral.
Ah sim, a encomenda chegou com atraso, mas chegou…sem danos.
fevereiro 12, 2010 at 8:29 pm
Cláudio, daqui a alguns anos vc vai poder passar à frente também =)
Dia desses me aconteceu algo semelhante. Um senhor avançou na minha frente de uma maneira tão mal educada que tive de interpelar, pra todo mundo ouvir:
— Epa! Eu também tenho a preferência! Sou portador de necessidade especial – sou obeso!
fevereiro 13, 2010 at 12:48 am
Eu acho o monopólio dos correios no Brasil um atraso de vida.
(e uma brecha para mensalões, claro)
fevereiro 14, 2010 at 2:10 pm
Engraçado… num post que tem “Capital Humano” no título, no qual o autor obviamente se esforçou para escrever de forma rebuscada (com direito a uma mesóclise), o último parágrafo exibe um erro de português que se “corrije” no ensino fundamental.
Espero que você não tenha se achado melhor que o velhinho arrogante por ter mais “capital humano”. Seria uma prova de que karma existe.
fevereiro 14, 2010 at 2:12 pm
Obrigado por apontar o erro. Embora eu não seja melhor ou pior que o velhinho arrogante, numa coisa eu ganhei dele: educação.
fevereiro 15, 2010 at 8:17 pm
Com toda certeza, ganhou na educação =)
Parabéns!
fevereiro 15, 2010 at 1:03 am
Quando o atendimento é feito pessoalmente é mais complicado, porque não dá pra perguntar pra moça do guichê ao lado. Já quando a necessidade pode ser solucionada por telefone eu sou “muito comedida”. Ligo até encontrar um profissional que me entenda, mesmo que isso custe umas 7 tentativas. É impressionante como o atendimento não é padronizado…