jump to navigation

Ensino à distância…da qualidade? Abril 21, 2008

Posted by claudio in Uncategorized.
Tags: , , , , ,
trackback

Eis matéria interessante do Estadão. Alguns trechos:

Apesar de ainda ser visto com certas dúvidas, avaliações do sistema têm mostrado bons resultados. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão ligado ao MEC, mostrou que estudantes a distância se saíram melhor do que alunos presenciais em 7 de 13 graduações avaliadas no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), incluindo Administração, Biologia, Ciências Sociais e Física. Nos outros 6 cursos, entre eles Ciências Contábeis, História e Geografia, as notas dos grupos são semelhantes.

Parte da explicação para o bom desempenho pode estar no próprio perfil do aluno: média de 30 a 35 anos, casado, com filhos, oriundo da escola pública, com renda até três salários mínimos e que trabalha durante o dia. “Os alunos já estão no mercado de trabalho, não conseguiram concluir uma faculdade quando eram mais jovens ou já estão formados em outra área”, afirma Luciano Sathler, pró-reitor de Educação a Distância da Universidade Metodista de São Paulo, que oferece 11 cursos a distância. “Em geral, é um público mais disciplinado, mais dedicado, porque o ensino a distância é a oportunidade que ele tem”, diz.

(…)

“O curso é muito apertado. Às vezes, as pessoas pensam que é um curso por correspondência. Não tem nada a ver. Exige muita disciplina, tem de cumprir os cronogramas. O tutor só esclarece as dúvidas. Você precisa se organizar”, diz. Durante a semana, Dayselane estudava com as apostilas e pela plataforma na internet. Nos finais de semana, ia aos pólos presenciais. “Hoje, eu vejo como as pessoas que fizeram cursos presenciais muitas vezes ficam admiradas ao ver que a gente sabe as coisas com profundidade. Como não temos a figura do “professor da disciplina”, precisamos entender tudo para ir bem nas provas.”

Interessantes resultados, não? Primeiramente, este tipo de ensino é interessante para os que nunca tiveram a chance de fazer um curso superior. É sempre interessante a diversificação dos produtos para se adequar ao perfil dos consumidores? Eu diria que quase sempre (pense em um pedófilo para entender meu “quase”). Algum tipo de regra é necessário para o bom funcionamento do mercado. Não se trata, obviamente, de qualquer tipo de regra, mas as que favoreçam a experimentação com o mínimo de interferência estatal costumam funcionar bem. Portanto, inicialmente, sim, acho a idéia ótima. Eu esperaria que bons alunos se saíssem bem nesta modalidade tanto quanto na tradicional “presencial”.

Entretanto, seria bom continuar a matéria analisando mais alguns dados. Algumas questões me parecem relevantes:

  • O desempenho da graduação presencial e à distância citado só trata de alunos de universidades públicas? Ou trata das privadas (e as estranhas “confessionais”)? - Pergunto isto porque toda a matéria analisa apenas questões de universidades federais. Assim, eu gostaria de ver, por exemplo, se o desempenho dos alunos de outras faculdades é maior ou menor, tanto no caso presencial como no caso à distância.
  • A avaliação do ENADE - pelo menos no que toca à prova - é bem pouco exigente em alguns casos. Um aluno que fez o ENADE ao final de sua graduação, ceteris paribus, é incapaz de obter um conceito razoável na prova da ANPEC (refiro-me, obviamente, ao que entendo: o curso de Economia). Como não desejamos baixar o nível do ensino, esta é uma discussão que deve se estender para outras áreas do conhecimento. Explico-me: se o ENADE avalia um conjunto mínimo (mas mínimo mesmo) de habilidades, o bom desempenho do aluno no ensino à distância pode não nos dizer muito sobre a qualificação da mão-de-obra que estamos formando.
  • Como o ensino à distância resolveu (ou não resolveu?) os problemas de incentivos? Já ouvi de amigos casos estranhos nos quais supervisores (normalmente pedagogos que não se preocupam com incentivos, mas vivem e se alimentam unicamente de discursos do tipo “social”, “coitadismo” e similares) pressionam professores para diminuírem o nível do conteúdo ministrado ou mesmo para considerarem respostas absurdamente estranhas como corretas para alunos do ensino à distância. A justificativa, como já mencionado, é, inclusive, a mesma que a matéria cita como geradora do bom desempenho do aluno. Só que ao invés do sujeito “experiente e mais velho” ser mais responsável, ele usa esta condição (que, obviamente é a mesma que lhe restringe o número de horas para estudo) para pedir privilégios incompatíveis com os critérios clássicos de uma boa avaliação do aprendizado.

Note que o ponto de minhas dúvidas não é o de condenar, a priori, esta ou aquela forma de ensino. Pelo contrário, acho interessante a proposta do ensino à distância. Mas será que esta modalidade de ensino tem realmente agregado valor à produção? Nossos trabalhadores realmente melhoraram? Ou é apenas um clássico problema de sinalização (alunos de Economia conhecem bem este termo da microeconomia)? Finalmente, quais incentivos prevalecem na hora da choradeira de um aluno sem tempo para estudo? O que pressiona o professor a mudar a falsamente avaliá-lo como apto ou o que pressiona o aluno a estudar mais?

Como não conheço muito mais do que ouço de meus amigos envolvidos nesta experiência, adoraria saber mais. Comentários?

Comentários»

1. Ronald Hillbrecht - Abril 22, 2008

E se o experimento de ensino à distância fracassasse? Ou só em parte? É suficiente para dizer que o “mercado” educacional não funciona? Ou, talvez, para saber o que funciona, é necessário descobrir o que não funciona? Se for assim, competição, em termos de criação de alternativas, ou seja, o “mercado”, não seria uma boa?

às vezes, julga-se uma instituição apenas pelo resultado, não pela oportunidade criada. Mas pense no aluno que, por vários motivos, não tem melhores oportunidades - A faculdade é muito longe, é muito cara, ou é muito difícil - educação à distância pode melhorar sua qualificação, por pior que seja avaliada.

Essa discussão me faz lembrar a idéia de “padrão mínimo de qualidade”. É legal saber que o governo preza ou estabelece um padrão mínimo, mas será que a intervenção estatal melhora a vida de quem precisa? Se o padrão mínimo de qualidade no mercado de carne for filet mignon, o pobre que só pode comprar mortadela fica sem proteína.

Da mesma forma na educação, o que importa não é proibir mortadela (ops, educação como mercadoria, uma heresia!), mas aumentar o menu de opções para se adequar às preferências e necessidades das pessoas.

Pode-se sempre recorrer à idéia de que de que um padrão mínimo de qualidade na educação existe para proteger o consumidor, mas sempre que se estuda o problema mais de perto, as evidências apontam no sentido de proteção à corporação (evitar o acesso ao mercado de um contingente maior de profissionais) e não proteçâo consumidor.

Dessa forma, enquanto existir a ínfima a possibilidade de o Greg Mankiw, por exemplo, ensinar economia no Brasil - como o custo marginal de uma aula de economia do Greg Mankiw pela internet é praticamente zero e o benefício marginal é imensamente positivo, enquanto que pagar um professor socialista para dar aulas de economia custa caro à sociedade e seu benefício marginal é negativo - serei plenamente favorável à famigerada educação à distância.

2. Enoch - Abril 22, 2008

Cláudio,

* Além das faculdades à distância, existem as semi-presenciais, onde uma disciplina é dada em 16 horas presenciais, e o restante, (teoricamente) o aluno estuda em casa, com a apostila xerocopiada que o professor montou preparou.

* Todo aluno de cursos à distância vai dizer que o curso é apertado, tem muitas atividades, é difícil, etc. Mas, vai perguntar aos tutores ou dá uma olhada no material didático…

* Sim, a grande maioria desses cursos funciona como aquele programa de aceleraçao do governo: não pode repetir de ano! he he he

* Eu também sou a favor do ensino à distância, mas é preciso deixar claro que os objetivos, as necessidades e possibilidades de quem faz escolhe este tipo de ensino é muito diferente de quem faz presencial.

* Mesmo assim, eu que sou um otimista inveterado, creio que os alunos sempre saem melhores do que entram.

* Não é bem sobre EAD, mas tem um depoimento interessante neste link: Aqui

3. claudio - Abril 22, 2008

Gente, valeu pelos comentários. Mas ainda permaneço com minhas dúvidas/curiosidades sobre se os pedagogos prezam pelo problema de incentivos ou se já capitularam ao discurso fácil (e bem menos tenso, claro) do “tadinho dele, passa ele”. A dica do Enoch é que isto pode bem ser mais comum do que eu pensava.

O comentário do Ronald mais reforçou o que eu disse - com alguns destaques para a importância da experimentaçào - mas não tocou no problema do agente-principal. A experimentação, claro, é sempre bem-vinda. Mas eu me preocupo com o exemplo do pedófilo. Poderíamos dizer que, pela evolução humana, concluímos que este tipo de experimentação nào é interessante. Mas não ficou claro se Ronald também vê o problema desta forma.

E seguimos em frente: e se a experimentaçào resultar em um equilíbrio com ensino de baixíssimo nível? Bem, isto mostraria o que o consumidor, em sua grande maioria, procura. Reações de mercado? Bem, se chegou ao fundo do poço e quem não quiser isto não fizer nada, é isto, ponto final. As pessoas terão que arcar com o custo de suas escolhas. Alguns tentarão fazer isto via coerção (governo), mas aí voltamos ao ponto inicial, exceto que ficou mais claro que sempre há incentivos para se fugir do mercado para tentar impor suas preferências aos outros.

4. JC - Abril 23, 2008

Cláudio, sua pergunta me lembrou imediatamente das experiências com a tal “Escola Plural”. (Progressão Continuada)

No início tudo foi festa, os pais e a população feliz com os índices de crianças na escola. Mas depois de um tempo percebeu-se que a qualidade não estava lá essas coisas (baixíssimo nível) e hoje tal método é muito questionado. (Não vou entrar no mérito se o método é bom ou ruim, e se a aplicação foi correta ou não).

Na minha opinião o que tivemos é uma perda enorme de tempo na educação dessas crianças e uma geração com grandes problemas num mercado de trabalho mais exigente.

5. Glauber - Maio 30, 2008

Vou dar aqui minha posição como alguém que é aluno do ensino presencial e do ensino a distância ao mesmo tempo. Sim, curso duas faculdades ao mesmo tempo. Portanto, tenho conhecimento de causa, estou inserido nas duas realidades e falo com propriedade.

O ensino a distância é de qualidade, e o que as provas do ENADE mostram é que ele tem se mostrado com melhores resultados que o curso presencial. Veja bem, não disse “bons” resultados, mas fiz uma comparação: resultados MELHORES que o ensino presencial na maioria das áreas avaliadas.

De fato, eu prefiro estudar a distância a cursar o ensino presencial. Tenho que fazer os dois cursos para conciliar meus interesses pessoais e profissionais, mas eu não vejo que o ensino presencial torna o aluno melhor ou mais preparado simplesmente porque é presencial.

O ensino a distância tem todo um projeto pedagógico específico, e não deve ser visto como um método de ensino paliativo, pois isso não corresponde à realidade. O curso que faço superou minhas expectativas, e é um erro afirmar que os temas não são abordados com profundidade. São abordados sim, dentro dos limites da carga horária, que é a mesma do presencial. Todos os cursos, para serem reconhecidos pelo MEC, devem cumprir um núcleo de base, e isso todos os cursos a distância fazem. Mas eles também vão além desse núcleo.

E quanto ao perfil dos alunos, como idade, por exemplo, vale afirmar que eu ainda estou na metade da casa dos 20, ainda não concluí nenhum curso superior mas simplesmente não suporto frequentar salas de aula. O ensino a distância, dentro da minha realidade, é a melhor alternativa, e o é também para muita gente. Não só para aqueles que não puderam frequentar a faculdade, mas também para aqueles que, como eu, podem, frequentam mas sabem que ela não é a melhor opção simplesmente por ser “presencial”.