Teorema da Impossibilidade de Arrow e o Caos Aéreo – um mini-texto algo técnico…
O meu xará sempre fala sobre a qualidade sofrível dos comentários em blogs de jornais. E foi só eu conferir um deles…leia você mesmo. O blog do Estadão falava de como o consumidor poderia se defender do caos aéreo. Aí, nosso amigo, solta esta:
É a velha história. Sujeito acha que as preferências dele são melhores que as dos outros. Comentário feito em 17.07.2007, ontem mesmo, às 08:50.
Por isto é que eu gosto de estudar Economia. Não foi da boca de sociólogos ou de cientistas políticos que ouvi falar, pela primeira vez na minha vida, do teorema da impossibilidade de Arrow. Sim, foi o professor Décio Kadota, em sua aula no mestrado de economia (não-pterodoxa) da USP que me expôs a este sensacional resultado científico.
O que o teorema diz, em resumo, é que é possível, sob exigências teóricas não tão fortes, mostrar que a democracia é um sistema falho de tomada de decisões e que, perigosamente, a ditadura é a única forma de solucionar o problema (no ambiente específico das hipóteses do teorema). Em resumo, é como se o comentarista acima impor sua vontade à toda sociedade fosse a única maneira de resolver o dilema social que ele mesmo coloca.
Uma vez que você aprende a importância do teorema, é difícil dar crédito a esta suposta superioridade de alguns iluminados sobre o restante da sociedade. Na época do referendo das armas, um colega meu viu um (ou uma, sei lá) sociológo que discursava a favor do desarmamento, invocando a sabedoria do povo, mudar subitamente de discurso quando o resultado final foi divulgado. A partir dali, claro, o povo “havia sido manipulado”. Resumindo: as preferências do sabichão eram “melhores” do que a efetivamente mostrada nas urnas (difícil é encarar a verdade de que a reeleição do presidente dos dois acidentes aéreos também foi fruto da decisão dos mesmos eleitores..).
É importante que se ensine mais sobre este teorema, ao invés de tentar inculcar ideologias na cabeça de alunos de filosofia no 2o grau, ou nas pseudo-aulas de sociologia que imperam nos cursos superiores. Como seria bom se os doutrinadores lembrassem do que dizem no primeiro dia de aula: “queremos formar pessoas críticas”.
Como formar pessoas críticas se você quer que ele chegue no SEU gabarito normativo-ideológico?
Claudio
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O mais curioso é que, não raro, esse tipo de comentário é feito por alguém da própria classe média ou média alta. Além de achar que os ricos devem se F**, esse pessoal, não importa quanto dinheiro tenha, acha que os ricos são sempre os outros!
Já estou lendo sobre o Arrow! Valeu pela dica!
“forma perfeita de tomar decisões sociais”. Para Arrow seria aquela em que as escolhas sociais fossem o reflexo exato das ordenações individuais, isto é, fossem perfeitamente democráticas. Mas quem se colocou tamanho desafio na história do pensamento? Ninguém! Os processos decisórios podem ser pensados como mais ou menos democráticos, sempre segundos principios normativos de quem avalia. De resto, o raciocíno é tão abstrato, que valeria sugerir que os economistas voltassem a ler alguns sociológos, no mínimo para discutir uma das condições colocadas por Arrow, a de que a função de bem-estar social não pode ser imposta. Esse fator é absolutamente central para esse ponto, mas, como sempre, os economistas, ao se depararem com o problema, sempre afirmam que “the examination of the question would take us very far afield indeed”.
ahhh, de resto vale apenas lembrar que os economistas também têm os seus gabaritos ideológicos e, o que é pior, apresentados como se fossem meras abstrações científicas e, portanto, neutras. O pressuposto do indivíduo livre para escolher a partir do postulado da racionalidade poderia ser longamente discutido tanto no que diz respeito a sua validade científica, como no que se refere o seu caráter histórico e, portanto, não universal. Ou por outra, universalizar esse indivíduo significa universalizar uma forma de sociedade que lhe deu origem e, por conseguinte, naturalizá-la. Desculpe-me, mas isso é claramente um gabarito ideológico, ainda que não diretamente partidário. Um pouquinho de sociologia e história seria bom.