Modelos em Economia…

Um dos usos é para gerar hipóteses testáveis. Nem sempre, entretanto, queremos testar as hipóteses, mas apenas verificar se elas são geradas com um raciocínio minimamente organizado (lógico). Eis um exemplo interessante, cujo resumo reproduzo.

It’s A Sin – Contraceptive Use, Religious Beliefs, and Long-Run Economic Development
Klaus Prettner, Holger Strulik

July 2014
Abstract. This study presents a novel theory on the interaction of social norms, fertility, education, and their joint impact on long-run economic development. The theory takes into account that sexual intercourse is utility enhancing and that the use of modern contraceptives potentially conflicts with prevailing social norms (religious beliefs). The theory motivates the existence of two steady states. At the traditional steady state, the economy stagnates, fertility is high, education is minimal, and the population sustains a norm according to which modern contraceptives are not used. At the modern steady state, the population has abandoned traditional beliefs, modern contraceptives are used, fertility is low and education and economic growth are high. Social dynamics explain why both equilibria are separated by a saddlepoint- equilibrium (a separatrix), i.e. why it is so hard to transit from the traditional regime to the modern regime. Enhancing the value of education is identified as a promising policy to encourage contraceptive use and to initiate the take-off to long-run growth.

Interessante, não?

Ao invés de transformar seus alunos em militantes, que tal ensiná-los?

Não vou dar esta dica novamente. Já falei, brevemente, aqui, do livro do Doug Lemov (ou o citei, sei lá). Aqui está a dica para quem leciona no ensino básico e médio. Dois livros dele já foram traduzidos para o português e, sim, os métodos são tudo o que o professor queria, mas não teve acesso porque, nas aulas, o pedagogo falava de nonsense.

Há pedagogos e pedagogos, mas muitos que já vi não sabem o que é uma sala de aula. Por isto existe este ótimo Lemov para nos ajudar.

Economia Brasileira Contemporânea

Citei este texto em um post há uns dias. Acho ótimo para debates em sala de aula. Dica para os professores de História Econômica que não têm medo de Econometria (até porque isso não faz sentido…).

Eis o gráfico que arrastará amizades para a discórdia e, se você for destes militantes, para a inimizade.

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Para um resumo do texto, veja o EconomistaX: http://economistax.blogspot.com.br/2014/07/a-decada-perdida.html

Então, junte-se a este trabalho mais alguns fatos indicados no livro Complacência do Giambiagi e do Schwartsman, os insights de Acemoglu e cia no Por que as Nações Fracassam e, claro, também observe o recrudescimento recente da base do tripé macroeconômico que é a relação governo-mercado no episódio do Santander e você tem muitos temas para debate.

Só um conselho: não faça como os militantes. Amizades são mais fortes, justamente, quando resistem à intolerância que é um valor oposto ao bom desempenho social e econômico (para mim são sinônimos, mas vá lá) de um país. Aqueles que resistem às tensões – os que são antifrágeis, no sentido que lhe dá Taleb (obrigado, Diogo, pelo presente) – sobrevivem.

Como a descarga da privada do shopping pode nos dizer algo sobre a omissão dos indivíduos diante da perseguição a analistas de bancos?

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A foto acima é, realmente, a cara do Brasil. “Boulevard Shopping” é um shopping de Belo Horizonte. No banheiro masculino, todas as descargas estavam assim. Dá para adivinhar o porquê disto?

Para ser honesto – e eu sempre digo que no longo prazo somos todos otimistas (não é difícil ver o porquê, mas aqui está um resumo) – nem todo grande estabelecimento de lojas assina suas descargas. Há outras formas de se controlar isto como, por exemplo, colocar um funcionário nos banheiros para a limpeza e…checagem.

Há vários aspectos nesta foto, mas um deles é o da importância das instituições formais e informais para o bom funcionamento dos mercados. Este é um tema mais do que recorrente neste blog como bem o sabem os leitores sobreviventes. Obviamente, o tema não é originalmente meu, mas uma construção de vários anos de pesquisa aos quais devemos associar os nomes de alguns ganhadores do Nobel como Douglass North, Ronald Coase, Oliver Williamson e Elinor Ostrom, dentre outros.

De novo este papo?

Na verdade, não. Não há muito o que acrescentar. Os leitores que usaram a caixa de “busca” no alto da página podem encontrar textos positivos ou normativos (fortemente opinativos) que escrevi neste blog ao longo dos anos. Mas vale a pena lembrar, novamente, a relevância do tema. Eis um resumo rápido.

Outro ponto importante é a relação entre governo e setor privado. Digo, a relação incestuosa.

Mas um problema importante que decorre da má formatação das instituições é o (sub)desenvolvimento dos mercados. Disse Adam Smith – na tradução mais famosa, devida a George Stigler – que a divisão do trabalho é função direta da extensão dos mercados (o prof. Bodreaux conta como a vida de seu filho foi salva por isto aqui).

Voltemos à foto

Pergunte-se novamente sobre a foto acima. O que ela mostra? Uma imensa falta de confiança nas pessoas. Melhor dizendo, uma falta de confiança entre as pessoas: ninguém confia em ninguém. Todos pensam que serão roubados. Esta visão preconceituosa contra as pessoas tem a ver, obviamente, com a verificação empírica de que muitas coisas já devem ter sido roubadas naquele shopping ou em outros lugares.

Como boa parte dos roubos no Brasil não resultam em atuação eficiente da polícia (é até difícil obter estatísticas simples como a do percentual de recuperação de objetos roubados), as pessoas tentam se defender de algum jeito, no caso, tentando “marcar” a peça para diminuir seu valor ao potencial ladrão.

Agora, voltemos ao Adam Smith. Para que mercados funcionem bem, é necessário que haja uma divisão de trabalho digna do nome. Esta somente se desenvolve se a extensão do mercado atinge um certo tamanho (não me perguntem qual é o tamanho, não sei). Para que isto aconteça, dentre outros fatores, é importante que acreditemos que nosso trabalho será recompensado e, portanto, devemos contar com uma sociedade na qual não existam muitos incentivos ao roubo.

Aí eu te pergunto: qual é a visão sobre “mercados” que você tinha quando estava no colégio? Caso você não se lembre, vou ajudar: assista isto aqui. Pois é. No caso do Brasil não é apenas a desconfiança com a eficiência da segurança pública que faz com que tenhamos que assinar descargas, amarrar canetas com correntes ou algo assim. Há também a visão de que mercados são jogos de soma zero (“se eu ganho, você perde”).

A politização do ensino é tal que predomina a unilateralidade de uma única visão sobre o funcionamento dos mercados. Até mesmo futuros empreendedores, quando entram nas faculdades, espantam-se ao descobrir que mercados não são jogos de soma zero (aliás, nunca foram). Educar, no Brasil, também é um árduo trabalho de desfazer preconceitos…

O ocaso do Santander e o capitalismo de compadres: um reflexo da nossa sociedade e história?

Você viu algum porta-voz de algum “conselho”, “ordem” ou “sindicato” se manifestar sobre a bizarra demissão da analista do Santander? Não. Por que? Porque existe uam significativa parcela da sociedade brasileira que realmente não acredita no funcionamento dos mercados. Tendo vivido sobre um capitalismo de compadres (crony capitalism) por séculos, crê que esta é a regra.

Só pode ser contra as trocas voluntárias (outro nome para mercado) quem é contra a democracia, não é? Provavelente.  Pois veja o Brasil no ranking do Latinobarometro. Quem dá nome de rua a ex-ditador (Getúlio Vargas) pode não saber o que está fazendo exatamente, mas ao fazer pouco caso da demissão da analista do Santander, percebe-se que a sensação é a de que não vale a pena se preocupar com um desconhecido, não é?

Mas não é este o fundamento das trocas que faz mercados crescerem? Não é a confiança de que quem vendeu vai te entregar a mercadoria?  Não é na base da confiança com desconhecidos que você entra em um táxi, em um ônibus ou em uma farmácia? 

Há aí, sim, um pouco de história sobre liberdade de trocas, liberdade civil ou econômica. Embora o discurso ideologizado, politizado, não-científico tente negar, os dados não dão espaço a tanta descaso com a liberdade de expressão.

Não, não me venha falar, subitamente, de seu amor às leis. Você e eu sabemos que você (e eu) passamos boa parte de nossas vidas reclamando de leis irreais ou sem sentido. Aliás, nem houve qualquer apelo legal para a demissão (só para deixar claro, nem faço idéia de quem seja a demitida, ok?).

O campo que estudo, na História Econômica, está praticamente repleto de estudos mostrando que nem todos os sistemas legais são pró-prosperidade (ou, se você quiser, pró-pobre, embora saibamos que haja alguma controvérsia no uso de ambos como sinônimos, mas duvido que entre os polemicistas haja algum defendendo o fim da liberdade de expressão). Leis também são dinâmicas, meus amigos leitores, e mudam com o tempo. Mudam com a ação dos homens, os mesmo que, agora, estão se calando diante da demissão citada. 

Conclusão inconclusa…

Talvez este seja um aspecto esquecido neste episódio negro na história da democracia brasileira: o fato de que muitos de nós se satisfazem com a demissão de uma desconhecida. Afinal, desconhecido não é digno de confiança e confiança, como vimos, é um dos pilares do desenvolvimento dos países e os países desenvolvidos, ensinam-nos nas escolas, só o são porque nos exploram (alguém precisa estudar com calma a inexistência, na língua portuguesa, da distinção entre exploitation exploration…acho que foi Pedro Sette quem me chamou a atenção para isto há anos…).

Pois é. Você não confia na analista econômica, mas confia em um político. Pela mesma lógica, deveria abandonar seu médico e se consultar com um qualquer eleito para a Câmara Municipal. Não sei o resultado, mas sei que você faz parte de uma sociedade doente mesmo…

Desculpem-me pelo texto tão longo e algo desorganizado. Prometo tentar algo melhor, ainda que você, meu caro, provavelmente não me conheça pessoalmente…

Um dos melhores textos libertários dos últimos anos e, claro, ele não está nos grandes portais libertários

É isso mesmo. E é o melhor texto por dizer o óbvio ululante (bem, deveria sê-lo, para os que, supostamente, não são analfabetos funcionais ou preguiçosos). O trecho que vale ouro é este:

Mas confesso que é um pouco deprimente ver essa bandeira — forjada dentro de um movimento que defendia o uso da razão (iluminismo) — ser carregada como uma arma anti-petista cuja munição não emana da análise da evidência empírica, mas simplesmente da repetição cega de mantras liberais — quase que como uma espécie de culto que replica práticas comuns do movimento simétrico oposto que criticam. Se vai ser anti-esquerda por uma via liberal, que seja com lastro empírico. E os resultados do exercício acima oferecem munição empírica para quem deseja apontar as deficiências dos últimos dez anos de governo.

Disse tudo, não? Para quem já foi vítima de ataques do Hamas libertário do Brasil, é um prazer inenarrável ler este trecho. Sei que não há somente o obscurantismo no meio libertário. Conheço diversos alunos promissores em meio a este ótimo movimento e alguns deles já me confidenciaram o cansaço com a tentativa, de alguns, de evitarem, a todo o custo, o uso de qualquer método empírico em estudos de políticas públicas.

Outros já perceberam que muitos supostos libertários vivem confortavelmente em posições de poder monopolista e, claro, não têm interesse em financiar estudos empíricos sobre concorrência (qualquer leitor de Mises notará que o próprio sabia disto, a despeito dos membros do Hamas libertário do Brasil…).

Ah sim, sobre o método do controle sintético que o Sérgio cita, eu o conheci por conta do prof. Felipe Garcia (PPGOM-UFPel) que fez um ótimo texto com Kang e Stein sobre Cuba (está em algum lugar da internet…).

UPDATE: leia lá o texto original. É uma interessante aplicação de controle sintético ao Brasil. Aí sim, você pode discutir seriamente algumas evidências empíricas…

Até o momento, ninguém no Gallup perdeu o emprego por insatisfação de Obama: uma breve reflexão sobre nossa selva

 

É, minha gente. A confiança econômica nos EUA caiu.

Gallup’s U.S. Economic Confidence Index dropped six points last week to -21 — the largest one-week drop since last October, and the lowest weekly index score since December. Americans’ confidence in the economy’s future waned more than their views of the current conditions.

Apesar disto, ninguém perdeu o emprego na Gallup. É um fato da vida: indicadores econômicos nunca agradam a todos. A diferença entre um selvagem e um civilizado está na atitude diante disto e nós sabemos quem é o selvagem, certo?

Ok, e daí? 

Agora, falando em campanha eleitoral, tem gente que me diz assim: “mas o candidato X também não gosta de jornalistas. Não tenho provas, mas ele causou a demissão de fulano”. Ai me cobram coerência. Bem, agora virou, né?

Veja, diante da realidade política atual, e lembrando um pouco das minhas leituras de política, Bobbio e Buchanan, principalmente, está óbvio para mim que não existem políticos angelicais, santos. Diante desta realidade – e diante da realidade de que eu e meus críticos também não o somos – sou pela opção do menos pior.

No meu caso, eu prefiro discutir um pouco do que entendo: programa econômico. No dia 22 de Julho, em um blog público, que alcança mais gente do que os correntistas do Santander, o prof. Ellery criticou o programa do candidato Aécio. Fica em aberto, aqui, o convite para que ele me conte das pressões que sofreu por fazer críticas – e não apenas elogios – a tal programa.

Vamos combinar que críticas, por mais ferinas que sejam, não são como as famosas bombas de black blocs contra jornalistas, ok? Caso alguém não concorde, pode ir lá ler Sorel, vestir seu uniforme e fazer turismo nas cavernas do Afeganistão.

Bom, depois do episódio – que só posso chamar de censura na falta de um termo mais adequado – aos analistas do Santander, Ellery fez como nossa imprensa fazia na época em que a presidente sofria porque, segundo ela, defendia nosso direito à liberdade de expressão e crítica ao governo militar. Assim, ele fez esta crítica ao programa da candidata.

Cadê os libertários?

Como vocês sabem, conheço um bocado deles. Todos muito enfáticos em se dizerem contra o governo, anarco-isso, anarco-aquilo, etc. No entanto, eles estão incrivelmente calados. Ou então estão apenas xingando algum conservador, ou brigando entre si. Senti falta do tal movimento libertário em manifestações pela internet. Acho que estão de férias. Por incrível que pareça, isso explica muito da paradeira deste pessoal. A maioria é jovem, outros acham que correlação é coisa do demônio e uns outros, mais radicais, acham os economistas do Santander merecem perder o emprego porque, sei lá, não são seguidores de algum oráculo austríaco.

Não sei onde estão os libertários. Mas eu sei onde estão os economistas do Santander: estão prestes a serem despejados porque fizeram seu serviço honestamente. Os que falam do candidato Aecio e falam de supostas perseguições a jornalistas estão calados, mostrando que não são, realmente, muito fiéis ao princípio da liberdade de expressão. Outros temem por seus empregos e se calam. Outros, como os libertários, sempre tão barulhentos e cheios de energia para brigar por linhas ou parágrafos de “A Ação Humana”, estão sem energia para protestar diante do fato.

Concluindo…

Pensando bem, será que eu deveria me esquecer das evidências empíricas sobre o papel das instituições no desenvolvimento econômico? Isto é irrelevante? E isto aqui? Vamos nos esquecer disto? Vou até reproduzir o trecho de Mill citado no último link:

Let us suppose, therefore, that the government is entirely at one with the people, and never thinks of exerting any power of coercion unless in agreement with what it conceives to be their voice. But I deny the right of the people to exercise such coercion, either by themselves or by their government. The power itself is illegitimate. The best government has no more title to it than the worst. It is as noxious, or more noxious, when exerted in accordance with public opinion, than when in opposition to it. If all mankind minus one, were of one opinion, and only one person were of the contrary opinion, mankind would be no more justified in silencing that one person, than he, if he had the power, would be justified in silencing mankind. Were an opinion a personal possession of no value except to the owner; if to be obstructed in the enjoyment of it were simply a private injury, it would make some difference whether the injury was inflicted only on a few persons or on many. But the peculiar evil of silencing the expression of an opinion is, that it is robbing the human race; posterity as well as the existing generation; those who dissent from the opinion, still more than those who hold it. If the opinion is right, they are deprived of the opportunity of exchanging error for truth: if wrong, they lose, what is almost as great a benefit, the clearer perception and livelier impression of truth, produced by its collision with error.

Este, meus amigos, foi John Stuart Mill. Nos outros links você encontrará algumas correlações básicas e algumas referências para artigos que falam sobre o papel das instituições sobre a prosperidade de uma sociedade.

Mais sobre a escalada autoritária

Agora, até um dos membros de um dos melhores blogs de Economia do Brasil se manifesta (ou não?).

Só eu reparei no silêncio dos sindicatos, aqueles que dizem receber para defender seus filiados contra arbitrariedades?

O mais belo exemplo de amor à liberdade de expressão

Roberto Ellery Jr é um cara inteligente e correto. Não o conheço pessoalmente, mas no momento terrível em que vivemos, no qual parte da sociedade acha legal e divertido calar a dissidência e pensa que liberdade de expressão é um conceito “burguês” e não um valor universal, só posso parabenizar o meu colega pela coragem.

Ah, liberdade de expressão? Quantas vezes preciso dizer que já falamos dela aqui? Lembro aos amigos que é necessário pensar mais sobre este medo da vida em sociedade.

Ilustrando…

Mais um…

Pense bem nestes gráficos e em alguns outros, ok?

História Econômica: o debate!

Excelente coletânea de textos. Confira, aqui. Por falar no prof. Bodreaux, confira estes vídeos para duas excelentes aulas de economia.

A propaganda infantil nos tempos da inflação: o caso da caderneta de poupança

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Como a inflação voltou, infelizmente, não custa lembrar de como era a vida nos tempos dourados em que a política monetária era discricionária, a política fiscal era ultra-keynesiana e o discurso de que não existiriam consequências relevantes, para a microeconomia, do descontrole macroeconômico era a regra.

A imagem acima fazia parte da propaganda de um banco em revistas em quadrinhos lá nos anos 70. Repare na conversa dos nossos heróis. Ela nos mostra algo mais sutil, não? A inocência da infância, tão cantada em verso e prosa por políticos e economistas que insistem em se dizerem “amigos do povo” era profanada diariamente pela inflação galopante. Há formas e formas de se aprender sobre a inflação (ou sobre o câncer) e uma delas é vivenciando-a (pensou no câncer?).

Tragicômico, não?