Por que oferta e demanda são importantes?

Armínio Fraga explica. Entrevista ótima. Sim, tem vídeo também. Leia tudo e assista o vídeo para entender um pouco de oferta e demanda…digo, de propostas para uma economia decentemente saudável a partir de 2015.

Existem certas verdades…

verdades

“Ah, IBGE, vamos esquecer estes gráficos…abandonemos estes números frios dos economistas…a sociedade é paixão, amor, ternura…”.

Existem certas coisas que não mudam com o tempo. Uma delas é a discussão de metas e instrumentos de política econômica. Desde que William Poole publicou seu clássico artigo em 1970, muita coisa aconteceu: a discussão original de Friedman sobre regras foi aperfeiçoada, as expectativas racionais trouxeram muitas inovações tecnológicas na forma de se fazer política econômica e, claro, a Teoria dos Jogos mudou a visão, digamos assim, de engenharia para uma abordagem microfundamentada. De certa forma, aquela história de Hayek sobre o individualismo falso e verdadeiro (um ensaio famoso dele) teve um final feliz: a visão dos microfundamentos prevaleceu (embora nem tudo o que Hayek quisesse dizer com o artigo se transformasse em realidade).

Mas existe o lado político…

Parece um tanto quanto óbvio que fazer política econômica é um problema no qual não se pode ignorar nem o “política” e nem o “econômica”. Quanto ao segundo, estamos tranquilos. Mas quanto ao primeiro, a administração Yousseff, Rousseff não tem se mostrado lá muito virtuosa e seus apoiadores, inclusive, parecem descomprometidos com a verdade (basta ouvir o rosnar dos lobos em comentários agressivos, ameaçadores e violentos na rede, acompanhados de pedidos para demissões de jornalistas, etc).

O caso do IPEA e o do IBGE mostra que há um problema com o “política” acima citado. Não se quer fazer o dever de casa ilustrado pelo gráfico acima e se pretende roubar nas regras do jogo. Pressões políticas em órgãos públicos que coletam dados? Cerceamento dos mesmos via cortes orçamentários (enquanto outros gastos bem menos nobres continuam?).

O que as autoridades acham disto tudo?

Bem, não acham nada. Ou acham, mas não falam. Ou mentem. Até agora, não vi um único membro da administração atual chamar a imprensa e fazer uma barulhenta declaração de apoio ao IBGE ou contra pesquisas técnicas de baixa qualidade do IPEA. Vejo, sim, muito diversionismo e oportunismo com tentativas de bloquear uma CPI (fazia tempo que não via esta galera, que sempre pediu CPI em outros governos, fugir assim, de forma bem covarde, da briga) e muito rosnado contra inimigos imaginários.

Manifestações insanas…e o que você acha disto tudo?

Pois é. Até o tomate virou inimigo do socialismo bolivariano brasileiro. “Amarrem o tomate ao poste!”, pedem os militantes que ganham R$ 150,00 para quebrar propriedades privadas nas ruas. “Estuprem o tomate!, diz um professor de filosofia de uma universidade federal carioca. “Julguem o tomate, mas só se ele estiver verde ainda!”, berra o cronista gaúcho enquanto saboreia sua salada.

Já a boa Ciência Econômica…

Notem como, sutilmente, estão tentando desmoralizar a pobre Ciência Econômica. Querem espalhar por aí que o IPEA é um lixo, que o IBGE é tucano e que o bom mesmo é ensinar ideologia nas faculdades de Economia. A permissividade disfarçada de pragmatismo é a regra: deixa para lá, defender a lógica dá dor de cabeça. Daqui a pouco vão promover queima de livros de Adam Smith e David Ricardo e os chefes de departamento aplaudirão.

“Queimem os livros-texto de Economia! Queimem! Mais amor! Mais emoção! Menos números frios e sem coração!” Palmas! Palmas!

O viés dos progressistas: lamentação pelo IBGE

Tanto no episódio do IPEA como neste péssimo episódio da PNAD do IBGE, o que não me espanta mais é o silêncio dos auto-denominados (e supostos) progressistas. Geralmente se dizem tolerantes com a divergência, mas não perdem a oportunidade de de cobrar, daqueles que deles discordam, uma suposta neutralidade porque, conforme dizem: sua opinião é viesada porque ideológica e a minha não. Cadê a neutralidade?

Pois é. Agora entendo a neutralidade deles: significa neutralidade de ação. Eles preferem se calar nestes episódios. Ou tentam arrumar uma desculpa para continuar sua agenda política como se a mesma fosse neutra (ou, como dizem: a sua é que não é neutra, logo…).

O ocaso do IBGE é perigoso. Repare que, mesmo para os admiradores do nacional-inflacionismo (nacional-desenvolvimentismo para alguns), que adoram o governo Médici (e também o do general Geisel), este é um péssimo precedente. Nem nos anos da ditadura houve tamanha interferência no órgão. Em democracias sérias, no outro extremo, isto também não ocorre.

O viés dos auto-denominados progressistas, para mim, está claro: além de carregarem a bandeira de neutralidade e diversidade enquanto praticam o oposto, eles se calam diante de perigosas interferências como estas.

Em ano eleitoral, com a credibilidade econômica reduziada a zero – e não falo do setor financeiro que, como o Ellery mostrou, é otimista e não pessimista, como afirma o “nervosinho” Mantega –  agora o governo começa a destruir a credibilidade daqueles que fornecem dados públicos. Combine a isto os poderosos interesses contrários a um bom desempenho no PISA e você terá um bando de gente analfabeta funcional que serve de massa de manobra ou para ações páramilitares no estilo black bloc contra os que discordam de você.

No final, você ainda vai achar que isto tudo é democracia, tolerância e diversidade, com o aval de alguns auto-denominados (e supostos) intelectuais que nunca perdem a oportunidade de ganhar um dinheiro governamental (= vindo do seu bolso) para divulgar suas idéias bovinas e dóceis ao governante da hora enquanto também achincalham adversários sérios ou não, imaginários ou não. Falam de “observar” (= vigiar e eliminar a divergência?) de imprensa, de democracia, mas o fato é que ninguém quer aprender sobre anos e anos de pesquisas sobre instituições e resultados econômicos ou políticos.

Pobres técnicos do IBGE. Passaram anos fazendo um trabalho sério, acreditando pessoalmente em alguns políticos ou partidos, obviamente, mas sempre separando o lado pessoal do profissional e, agora, isto. Não é só perigoso e triste: é frustrante.

Liberdade de imprensa não se coloca atrás da porta dos fundos

É realmente um tema importante, não é? A tal liberdade de imprensa. Já passei raiva demais explicando o óbvio para alguns. Já tive bons momentos debatendo o não-óbvio com outros. Entretanto, não dá mesmo para aturar a falta de argumentos de algumas pessoas. Acho que o Felipe Moura sente o mesmo.

Ah, mas o Felipe cita um filósofo que não curto

Veja bem, leitor, não sou olavete, mas nem por isso acho que leitores de Olavo não possam citá-lo e, obviamente, se o Felipe está na Veja e cita o Olavo isto não o torna um cidadão de segunda categoria. Caso ele degolasse alguém, poderiámos discutir. Mas ter opiniões diferentes faz parte do jogo democrático. O ponto importante é a coerência da argumentação e, sim, há uns valores morais importantes como a tolerância com as opiniões distintas (e é por isto que admiro a democracia norte-americana que permite praticamente todas as manifestações ideológicas, desde que não haja agressão física).

Caso você julgue pessoas por parte do que ele fala ou porque ele está à direita ou à esquerda de alguém, então você não deveria estar lendo este texto, ok? Pré-conceitos devem ser substituídos pelos conceitos, em um processo natural de evolução, imagino eu. Não sou perfeito, mas não pretendo piorar.

O último que sair apague a luz dos fundos

Liberdade de expressão, meu caro humorista, é importante demais para ser tratada como se fosse uma porta dos fundos de algum barraco. Estou aqui educando, corrigindo provas, falando de esforço individual, participando de grupos de estudos, debatendo, ensinando, aprendendo para que o Brasil não tenha pessoas que achem que a melhor argumentação possível é uma frase no twitter. Eu ganho inimigos que não assumem que suas notas ruins são fruto de suas escolhas e você pode ignorar os comentários de que não gosta, não é? Isso quando não faz um “Portaria” como os primeiros, nos quais a gente quase sentia a vontade que você tinha de mandar algumas pessoas para aquele famoso lugar. É, é bom ser famoso e poder mandar as pessoas para aquele lugar, eu imagino.

Ensinando o óbvio para os que não toleram aprender: pão e circo

Vamos usar a divisão do trabalho, tão bem descrita por Adam Smith? Eu, que já estudei instituições, falo da liberdade de expressão e do desenvolvimento econômico. Você, que sabe fazer boas piadas, dá circo para as pessoas, ok? Mas não fique aí pedindo que pessoas não possam trabalhar para colocar pão na mesa porque você, que defende a liberdade de fazer piadas com cristãos (eu não tenho problemas com isto, ok?), acha que a intolerância só vale para alguns. Lembre-se: pão e circo. Cuide das palhaçadas que nós cuidamos do nosso pão.

Pessimismo? Onde?

O Roberto Ellery dá uma resposta correta e simples aos “nervosinhos” do governo, que enxergam conspiradores neoliberais embaixo da cama (e pedem para dormir de luz acesa). Veja aqui.

Basicamente, o que ele fez foi comparar a previsão dos mercados (os malvados bancos, que lutam para aumentar o rendimento dos fundos de velhinhas e velhinhos pobres só para lucrar…) com o que, de fato, a economia conseguiu, com a sempre sacrossanta intervenção governamental. O resultado? O mercado sempre é mais otimista do que deveria.

E agora, Gui-gui?

Tarifa implícita média e Índices de Produção

Lembrando das aulas de História Econômica do Brasil, eis um gráfico interessante.

brazil_tarifas

Os dados estão lá naquele livrinho do Versiani & Versiani (leitura básica de todo curso de história econômica do Brasil) para os índices de atividade (Agr(icultura), Ind(ústria) e Tot(al)). A tarifa implícita média é de um texto do Marcelo de Paiva Abreu.

Não vou fazer uma análise de correlação baseada nisto aí não, mas é um bom gráfico para se começar a falar de crescimento, industrialização, rent-seeking e falhas de governo. O que falta nesta molecada é a vontade de fazer algo sério com dados. Tem uma galera que adora fazer barulho e bradar aos quatro ventos que “tal filosofia é a melhor para a política econômica”. Infelizmente, não conseguem apresentar uma análise minimamente séria que vá além das correlações.

Sim, é preciso ir além das correlações. Então, meus caros, tudo começa com uma correlação, claro. Mas o resto do trabalho…

A sede de sangue…

É isto aí. Amanhã tem defesa de tese. Eis o anúncio:

10.04.2014 :: DEFESA PÚBLICA DE TESE
Postado em 1/4/2014

O Programa de Pós-Graduação em Economia tem a satisfação de convidar a Comunidade Universitária para assistir a Defesa Pública da Tese do doutorando, como segue: 

Aluno: Rodrigo Nobre Fernandez
Dia: 10/04/2014 – 5a. feira 
Horário: 13:30 
Local: Sala 31-B da FCE 

Título: Ensaios sobre parcerias público-privadas

Orientador: Prof. Dr. Ronald Otto Hillbrecht

Comissão Examinadora: 

Cristiano Machado Costa (UNISINOS) 
Cláudio Shikida (IBMEC-MG) 
Hudson da Silva Torrent (PPGE/UFRGS)

Isto quer dizer que tenho que ir e voltar no mesmo dia porque amanhã tem aulas pela manhã e eu não tenho muito mais horários livres para ficar brincando de reposição com meus alunos (que, obviamente, odeiam reposições de aulas por minha causa e também por causa da reposição, um evento que sempre lhes parece desagradável).

O lado bom da correria é que faz tempo que não encontro algumas pessoas muito bacanas lá do sul. Ainda que brevemente, será extremamente prazeiroso reencontrá-las.

 

Qualidade institucional, contabilidade (criativa?) e o jornalismo sério

Vou direto ao trecho do texto:

Recent research in accounting has examined the link between political connections and accounting quality. Researchers in this area have posited that political connections may increase accounting quality because connected firms are subject to greater media scrutiny, which could provide for stronger monitoring of earnings manipulation. Connected firms may also have readier access to subsidized financing or government contracts, which may blunt incentives to manage earnings for capital market and contracting purposes. On the other hand, politically connected firms may be shielded from the consequences of poor accounting quality or the revelation of earnings management. Moreover, connected firms may manage their earnings to avoid detection of payments to political insiders to maintain their connected status.

Preliminary evidence from this body of research suggests that politically connected firms tend to have lower financial reporting quality. However, there is reason to expect that a country’s political, legal, and media institutions—which affect firms’ financial reporting environment more generally (Leuz et al. 2003)—may moderate the relationship between political connections and accounting quality. For example, lack of transparency may limit media outlets’ role in scrutinizing political cronyism. Strong investor protection laws, accompanied by prosecutorial and judicial independence, may impact a connected firm’s ability to escape the consequences of accounting manipulation.

Antes que você fique “nervosinho”, o artigo trata da Venezuela. Quer ler mais? Dá uma olhada lá.

 

IPCA…chegamos lá: estamos quase nos anos 80…

Deu lá no IBGE, pessoal: 0.92% ao mês. Nada de herança maldita, nada de tucanagem, nada de alma branca do Joaquim Barbosa só porque ele colocou políticos na cadeia, nada de crise asiática, nada de neoliberalismo, nada de independência do Banco Central.

Ah sim, não vamos amarrar os tomates nos postes, né, classe média intelectualizada? Só porque um componente do índice subiu, não quer dizer que ele foi a causa do aumento do IPCA. A pergunta é: que forças fazem com que o IPCA varie?

ipca_atualizado

Veja lá a derrocada da estratégia econômica do governo no último mês (aquela pujante subida no final do gráfico). Deve-se torcer para que efeitos sazonais sejam a nosso favor, que ocorram choques positivos e que alguém, lá no governo, estude Economia e entenda que uma tarifa de energia elétrica reduzida aumenta a demanda da mesma. Caso contrário, estamos em trajetória direta para os anos 80.

As políticas governamentais chamadas de “política industrial” por alguns já nos levaram ao governo Geisel. A ineficiência dos resultados está nos levando rapidamente para os anos 80, a era de ouro dos experimentos heterodoxos.

O (e)leitor mais jovem terá a oportunidade antes reservada a turistas ou viajantes do tempo: viver em um país de inflação acelerada. Digo, pode ser que isto não ocorra, pode ser que o Mantega só esteja “nervosinho” e pode ser que as coisas não piorem mais. Entretanto, é difícil não ver no que ocorre uma terrível semelhança com o passado…

Real Business-Love-Stories Cycles

20140409_09095820140409_08570820140409_084250

A melancolia da quarta-feira gera os sinais mais aleatórios sobre a mente humana. No meu caso, a vontade de vencer a melancolia geralmente encontra na Teoria Econômica um aliado. Tá, tem o humor também, mas parar superar a tristeza, só rindo (sorrindo), né?

 

Momento R do Dia – Macarrão instantâneo no Japão

myojao2

Lembra que falei do tema aqui e aqui? Pois é, meu caro. Eis aí um gráfico diferente, com os dados apenas para o Japão, o grande país do macarrão instantâneo, por excelência. Quem já visitou as mercearias do bairro da Liberdade, em São Paulo, sabe do que falo.

O momento R do dia não poderia deixar de vir sem a dica. Então, aí vai.

myojo<-data.frame(year=c(2008:2012), number=c(5100, 5340,5290,5510,5410))
library(ggplot2)
library(xkcd)
q<-ggplot()+xkcdrect(aes(xmin=year,xmax=year+0.2,ymin=number,ymax=number+36),myojo,    fill="red", colour="black")+ggtitle("Million Packets of Instant Noodles in Japan")+ theme_xkcd() 
q

Ah, sim, recomendo fortemente que você faça uma pesquisa sobre o pacote xkcd. É, não existe almoço grátis, mas o macarrão, bem, o macarrão ficou aí, bonitinho, fácil de visualizar. E foi fácil de fazer. Deixei a água ferver, escrevi o código em dois minutos e, pronto, estava prontinho para comer. ^_^

Produção Industrial Mensal – XKCD

pim-pf

Eis aí, meus caros, a série da PIM-PF, na versão moderna. Aposto que os alunos vão começar a olhar para os gráficos com outros olhos (de preferência, abertos).

Obviamente, estudos empíricos precisam de alertas iniciais, como este:

Eu sei que não tem nenhuma correlação no meu gráfico aí no alto, mas não custa lembrar, né?

Se uma prova dura duas horas na faculdade, na Terra…

Planetas Um dia (minutos) Considerando o percentual… Em minutos
Terra 1436 8.356545961 120.00
Vênus 348948 8.356545961 29160.00
Mercúrio 84248 8.356545961 7040.22
Júpiter 596 8.356545961 49.81
Marte 1477 8.356545961 123.43
Netuno 967 8.356545961 80.81
Saturno 615 8.356545961 51.39
Urano 734 8.356545961 61.34
Plutão 9216 8.356545961 770.14

Pois é, não ache que sua vida é difícil. Um aluno, em Vênus, teria uma prova com muitas questões (sem falar no horário de aulas). O pessoal que chega atrasado em Vênus e não pode entrar na sala esperaria um bocado fora de sala?

Em Júpiter, por outro lado…

Você pode visualizar os dados da tabela acima interativamente aqui. Obviamente, eu não entendo nada de Física e não faço idéia da medida correta dos dias em cada planeta. A piada não é nada mais do que uma piada, ok? (dados originais daqui)

“Prova de Macroeconomia em Vênus de novo? Oh, não!”

A cultura e o cronismo – qual é mesmo a definição de “tigres asiáticos”?

tigres_asiaticos

As pessoas gostam de falar dos “tigres asiáticos” como se os mesmos fossem bons exemplos de países “heterodoxos” (melhor seria: “pterodoxos”). Mas será que a causa da pujança destes países está em regimes fortes, com gerentões na presidência, com políticas industriais que escolhem “perdedores” (você não pode escolher um “vencedor” sem escolher “perdedores”, certo?) e com a contabilidade criativa em ação? Talvez não.

Veja, por exemplo, o gráfico acima. Temos a posição do país no ranking de cronismo (rent-seeking) da The Economist no eixo horizontal. No eixo vertical, a variável de cultura que mostra valores compatíveis com sociedades que privilegiam a alocação de recursos por meio do sistema de mercado. Ah, ok, as escalas são logaritmicas.

Então, veja, quanto mais à direita, no eixo horizontal, menos sujeito ao cronismo é o país. Já no eixo vertical, quanto mais para cima, mais a cultura do país privilegia aspectos (valores) que favorecem as trocas voluntárias entre as pessoas (isto, apesar do discurso errado que você ouviu do militante, é exatamente o que define o mercado).

Observe, no gráfico, onde estão Japão, China e Coréia do Sul. Os “tigres” não são tão tigres assim, não é? Repare em Taiwan e Cingapura, por exemplo. O caso da Rússia e da Ucrânia é mais interessante – já que o Putin resolveu brincar de Hitler agora – e você vê que sociedades com capitalismo com menor ênfase no mercado – como é o caso destes dois países – também são países caracterizados por alto índice de cronismo. Quem já estudou os incentivos que operam no socialismo real sabe que este não é um resultado surpreendente (leia qualquer artigo/livro do Janos Kornai, por exemplo).

O Brasil, claro, mostra um índice de cultura muito baixo e minha observação anedótica me diz que isto dificulta a evolução do país em direção à construção de instituições que privilegiem trocas voluntárias: as pessoas gostam de um ditador ou um presidente gerentão, autoritário, que lhes diga o que fazer e lhes dê de comer. Troca voluntária é vista como jogo de soma-zero (um erro grosseiro, mas repetido goebellianamente por supostos professores todos os dias…).

Minha observação anedótica é que brasileiro adota ditadores como nomes de praças, avenidas, ruas e fundações, como é o caso de Getúlio Vargas, não protesta para mudar este nomes e nem chama o golpe de Getúlio de golpe, mas de “revolução”. Somente quando alguns grupos de interesse agem é que você vê alguma mudança, mas repare que esta só diz respeito a ditadores que estes grupos não curtem como os da revolução (ou golpe?) de 1964.

Pois é. Então, se há algum aspecto “tigre” nos países do sudeste asiático, ele passa pela adoção de valores pró-mercado nestas sociedades. Dá o que pensar? Creio que sim. E olha que nem comentei o capital humano, também presente no gráfico.

Antes que você me pergunte sobre os dados, lembro que já os usei diversas vezes aqui, neste blog, anteriormente. Então, a “cultura” vem de trabalhos da Claudia Williamson (que também usei com Pedro e Ari neste artigo) e o índice de cronismo vem da The Economist. O capital humano, obviamente, é da famosa base de dados de Barro & Lee. Faça sua pesquisa neste blog e encontre as fontes. Ou vá pelo google mesmo.

Foi uma honra: eu vi um super-herói ao vivo!

image

Um verdadeiro herói: Celton (usando a identidade secreta de Lacarmélio, à esquerda). À direita, o cara que sonhou ser o Celton um dia.

Com vocês, Celton!

Na minha adolescência,  lendo revistas em quadrinhos,  sempre ia ao centro da cidade procurar pelos meus heróis. A viagem de ônibus era um relaxamento para mim,  numa época em esta cidade era bem menos violenta.  Os melhores dias eram os sábados. Era nestas manhãs que eu ia até a finada (?) Agência Riccio em busca de novas aventuras. Não preciso lembrar ao leitor que um dos principais vilões daquela época era a inflação (veja o vídeo abaixo, caso se interesse por 20 minutos de conversa sobre o tema).

Acho que foi pela janela do ônibus que, em alguma manhã de sábado, comecei a reparar nas pichações em muros dizendo: “leia Celton”. É,  leitor,  houve um tempo em que pichações nos pediam para ler algo. Hoje, as pichações não pedem para ler muita coisa (e há algumas que não lembram, nem de longe, algo legível…). Lembro-me de ter ficado intrigado: quem seria o tal Celton?  Não sei como, um dia encontrei a revista numa banca de jornais. Claro que eu a comprei e, claro, também continuei comprando sempre que ela aparecia nas bancas.

Um empreendedor que merecia mais divulgação

O autor, o Lacarmélio, deveria ter sua casa tombada e deveria ser alvo de visitas turísticas porque é praticamente o self-made man desta cidade. Na minha opinião, o poder público divulga pouco o Lacarmélio. Fala-se muito em empreendedorismo por aqui nesta cidade e alguns supostos economistas adoram encher a boca para falar de inovação, e outros termos “cool” para a galera chique. Mas empreendedorismo bom mesmo está lá, no trabalho duro do dia-a-dia de gente como ele.

Algumas vezes já tive a oportunidade de comprar revistas com ele, nos sinais de trânsito. Claro, sempre digo a ele a verdade: que comprava as revistas dele das épocas dos muros pichados (nunca achei uma foto da época, mas quem viveu nesta cidade nos anos 80 sabe do que falo…). É sempre legal vê-lo ali, empreendendo, relançando grandes sucessos como o famoso duelo da sogra contra o capeta ou empenhado em lançar novas histórias.

Celton27

Há quem não goste das histórias do Lacarmélio e é verdade que não há uma grande saga intergaláctica ou um universo próprio nas histórias de Celton que, aliás, nem é mais o carro-chefe das revistas esporádicas do autor. Mas o bacana é que ele está sempre, aleatoriamente, em algum sinal de trânsito, em algum dia da semana, com alguma revista diferente. O que eu apenas imaginava com respeito aos meus super-heróis – conhecer o desenhista ou o roteirista – é um acontecimento que esporadicamente ocorre comigo ou com outras pessoas, fãs de quadrinhos na cidade.

O que uma criança grande gostaria de ver lá nas revistas? O bom e velho Celton!

Pois é, Celton (ou Lacarmélio), eu sinto mesmo falta é do personagem Celton nas histórias. É bacana ver as pesquisas sobre história da cidade ou de pontos turísticos. Mas o início, aquele super-herói que não usava uniforme, que parecia um vizinho ou um colega de escola, mas com super-força e um forte senso de justiça, o Celton, merecia voltar como carro-chefe de suas revistas. Mas eu sou só um leitor mais velho que talvez sinta muita nostalgia de um tempo em que esta cidade era mais tranquila…

p.s. o blog do Lacarmélio parece estar desativado, mas aqui está (ou o Lacarmélio é um esquizofrênico criador de blogs, como se vê aqui ^_ ^)

E o Procon se preocupa com o ovo…

crime_bandidos

Pois é. A notícia completa está aqui e ela assusta. Vejamos: (a) o consumidor tem tantos direitos no Brasil que ele precisa guardar recibos de compras por cinco anos porque alguém, que não tem nada a ver com a sua vida, pode pedi-los; (b) a Receita pode errar e azar o seu, (c) alguém, com poderes divinos, calculou que US$ 50.01 é um valor que merece punição divina estatal.

Enquanto o Procon se preocupa com ovos…

Vamos conversar, Procons, vocês adoram dizer que vivem em função do consumidor, mas, digam-me aqui: quando a Receita erra, ela tem que agendar um encontro com o consumidor? Ela se sujeita aos mesmos trâmites legais a que sujeita os consumidores?

Realmente a manutenção do valor de US$ 50.01 para tributar algum importador de bens de consumo há anos faz sentido, senhores defensores dos direitos dos consumidores? Qual a metodologia de cálculo? Tantas multas são reajustadas, tantos impostos o são, mas este valor permanece fixo há anos. Fosse a realidade tão estável, a Receita não precisaria se preparar para sua super-estrutura de fiscalização citada na notícia. Veja um trecho:

O País tem recebido perto de 1,7 milhão de pacotes a cada mês, quando no início de 2013 o volume era da ordem de 1,2 milhão. No ano passado, foram 18,8 milhões no total, segundo dados da Receita Federal.
A maior parte dessa farra de consumo tem chegado ao comprador sem a cobrança de tributos, mas isso está prestes a mudar. Um sistema que está sendo montado em parceria com os Correios e a Receita vai automatizar a fiscalização, que hoje é feita por amostragem.

Bonito, né? Com tanto esmero, estranha-me que ainda exista corrupção no governo. Ops, espere, o governo diz que não há corrupção. Tá tudo lindo. Ah….

Honestamente, o CADE não se preocupa com a união do monopolista chamado “Correios” com o governo para fins de aumento de margem de receita? Sério que uma união de “gigantes” monopolistas só é um problema no caso do setor privado, mas não no caso do governo?

A farra do jornalismo econômico

A jornalista chama a demanda de importações de farra de consumo. Eu poderia chamar o déficit público do governo de farra de gastos públicos? E o que seria uma invasão ilegal de terras sem punição por parte de grupos de interesse que não se legalizam para poderem continuar invandindo com risco mínimo de responsabilização legal? Uma farra de invasões? E aqueles industriais que importam máquinas para renovar o parque industrial? Praticam farra de desindustrialização (mesmo quando não existe o similar nacional)?

Existe uma estranha suposição moralista na expressão (e talvez a jornalista nem tenha tido esta intenção, mas assim soou…). É como se a importação estivesse em um nível moralmente condenável: virou farra mesmo, coisa de adolescente irresponsável. Será que é assim mesmo? A jornalista não deve acreditar que seus gastos no restaurante no final de semana são uma farra gastronômica, imagino eu.

Será que não existe uma farra arrecadatória com a Receita se aproveitando para tributar só porque precisa manter seu corpo de funcionários, mais os outros de outros ministérios, etc? Podemos falar em uma farra com o dinheiro público arrecadado sempre que houver oportunidade, ainda que não haja mais justificativa econômica?

Então, é mais ou menos isto: os jornalistas usam expressões moralistas para falar de importações e os supostos defensores dos consumidores na verdade os ofendem, chamando-os de idiotas que não sabem comprar e precisam ser tutelados por, adivinhem, pessoas que conseguiram romper o ciclo da ignorância de forma pretenciosamente mágica.

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“Nada de importação para você, seu pobre recém-entrado na classe média! Fique no seu lugar de analfabeto funcional que precisamos arrecadar, imbecil!”

Lembra da minha campanha dos bookholders para todos?

Bom, outubro está chegando. Será que, com ele, teremos novas equipes econômicas que tenham algo a dizer sobre estes aspectos da vida dos cidadãos?

Sério mesmo que você, jornalista, você, do Procon, você, da Receita e vocês, leitores, acham que devemos mesmo tributar bookholders para privar os pobres do acesso ao mesmo? Realmente querem uma massa de cidadãos analfabetos que vão mal no PISA porque não estudam direito? Não digam que não, porque estão fazendo tudo para impedi-los de exercitarem seu potencial de consumidores e, não, sociólogos de porta de cadeia, consumir é uma forma de se libertar dos grilhões da ignorância sim. Ou vocês são contra o Bolsa-Família?

Abertura econômica? Para quem? A barreira dos US$ 50.01

Caso você ainda ache que importar é uma questão de “farra”, faça seu dever de casa e leia um pouco antes. Leia sobre a relação entre abertura econômica e prosperidade, por exemplo. Faça uma farra intelectual (e veja a qualidade das evidências de todos os autores envolvidos no debate).

Na história, como sabemos, a liberdade – inclusive a econômica – não evolui linearmente. Há retrocessos, há governos tributando para matar e, claro, existem os intelectuais, que sobrevivem de críticas e elogios aos poderosos, como aprendemos, por exemplo, aqui.

E aí? Vamos nos unir para amarrar os farreadores das importações nos postes?

Otimismo? Abenomics novamente

Na última edição do índice de condições da atividade econômica, a tendência de alta prossegue, mas com uma pequena queda em Fevereiro (o índice caiu de 115.2 para 113.4). Observando o indicador desde 2012, há momentos de queda, mas a tendência de crescimento observada no final daquele ano parece robusta. Veja a série no horizonte mais recente, conforme divulgação recente. Na série histórica do índice – você a encontra lá, no mesmo endereço – temos: abeonomics_07_04 A grande queda recente tem início em Out/2008. Aparentemente, a política econômica atual parece ter um mérito que é o de gerar uma recuperação bem acelerada da atividade econômica. Claro, isto é o que parece à primeira vista, neste indicador. É preciso analisar outras variáveis para controlar por diversas influências. Como já disse anteriormente, há que se diferenciar também entre a recuperação econômica pós-tsunami e a política econômica atual.

Adicionalmente, confira também este paper do prof. Ueda sobre a política monetária do BOJ e seu papel no comportamento da bolsa japonesa em 2013..