Frase do Dia – Timothy Besley

When we study attitudes, norms, and institutions we need to do so in a way that engages with wider reflections on what matters rather than banging our heads against brick walls that we have built for ourselves. There are diverse opinions within the economics profession and there is a core group who would likely prefer to defend the traditional paradigm against some of the developments that have been highlighted here. [Besley, T. What’s the Good of the Market? An Essay on Michael Sandel’s What Money Can’t Buy. Journal of Economic Literature 2013, 51(2), 478–495 (grifos meus]

Cabeça aberta, rapaziada, cabeça aberta.

Custos de Menu

Artigo interessante sobre o tema, aqui. Olha o resumo:

How Frequent Are Small Price Changes?

Eichenbaum, Martin, Nir Jaimovich, Sergio Rebelo, and Josephine Smith. 2014. “How Frequent Are Small Price Changes?” American Economic Journal: Macroeconomics, 6(2): 137-55.

 

Abstract

Recent empirical work suggests that small price changes are relatively common. This evidence has been used to criticize classic menu-cost models. In this paper, we use scanner data from a national supermarket chain and micro data from the Consumer Price Index to reassess the importance of small price changes. We argue that the vast majority of these changes are due to measurement error. We conclude that the evidence on the prevalence of small price changes is much too weak to be used as a litmus test of nominal rigidity models.

Ou seja, os custos de menu ainda resistem como argumento para a microfundamentação da rigidez de preços. Será?

Ainda os preços monitorados e livres – Momento R e Gretl do Dia

Obsessão Inflacionária

monitorados_10

Ok, só para não dizerem que não falei mais do tema do post anterior, eis mais algumas informações aleatórias. Primeiro, ao olharmos para a correlação entre os preços livres e monitorados, sem dessazonalizá-los, encontramos, para 1999.01 – 2014.07 (usamos a função cor.test() do R):

Pearson’s product-moment correlation

data: monitorados and livres
t = 3.2168, df = 185, p-value = 0.00153
alternative hypothesis: true correlation is not equal to 0
95 percent confidence interval:
0.0896239 0.3617048
sample estimates:
cor
0.2301572

Após dessazonalizar os dados:

Pearson’s product-moment correlation

data: monit_dessaz and livres_dessaz
t = 3.9235, df = 185, p-value = 0.000123
alternative hypothesis: true correlation is not equal to 0
95 percent confidence interval:
0.1392003 0.4045612
sample estimates:
cor
0.2771575

Vale dizer, há alguma correlação. O padrão de correlação pode ser percebido na figura abaixo.

monitorados_6

 

 

Não é lá aquelas coisas, né? Lembrando que eu havia feito, no post anterior, a análise para a administração Rousseff, teríamos bem menos observações para analisar, não é?

Mais material para pensar

Bom, não vou alimentar esperanças de ninguém, mas eis mais dois conjuntos de gráficos que podem ser interessantes para perceber que esta correlação pode não significar muita coisa. Em cada um deles você tem a correlação do valor contemporâneo de uma das variáveis relacionada com o contemporâneo da outra e de onze de suas defasagens. Repare que não tenho, infelizmente, a significância destas correlações (mas não é difícil calcular).
monitorados_7 monitorados_8

 

Pois é, meus sobreviventes leitores, só para não dizer que não falei das correlações cruzadas (que alguns gostam de usar neste tipo de questão), eis o gráfico, novamente indicando que não parece haver dependência temporal entre elas.

monitorados_9A história termina aqui? Bem, agora é com você, leitor.

 

Preços livres e preços monitorados: existe causalidade? Não! (ou melhor: preliminarmente: não!)

De onde veio a pergunta?

Ok, alguém lá no Nepom – numa reunião passada – comentou sobre a possibilidade. Fiz eu mesmo o download dos dados. Chequei a estacionaridade das séries com um teste ADF e resolvi verificar o período da administração Rousseff.

A hipótese que nos foi proposta: o governo manipula os preços monitorados para tentar segurar a inflação tomando como referência os preços livres? Isto é: se os preços livres sobem, o governo segura os monitorados. Caso os livres caiam, ele permite o reajuste dos monitorados. Se isso é verdade, com alguma defasagem de tempo, devemos verificar que se os preços livres variam, os monitorados variam de forma inversa.

Rápida investida!

Eventualmente, devemos nos preocupar com fatores sazonais e isso está incluído na análise que se segue. Aliás, eu havia feito os cálculos em R, mas resolvi mostrar os resultados em Gretl também pela preguiça em fazer algo mais detalhado no momento (o Gretl, neste caso, é mais rapidamente flexível para que eu possa testar o VAR com dummies sazonais).

A seleção do número de defasagens seguiu um dos critérios (se não me engano, usei o BIC). O resultado obtido está resumido no sistema estimado abaixo.

monitorados1 monitorados2

Como se vê, a dinâmica de monitorados não depende da dos livres e vice-versa. Então, preliminarmente, não há resultados muito interessantes aqui.

Observações Adicionais

Claro que se eu fosse um aluno de graduação pensando em fazer monografia sobre o tema, teria feito exatamente isto antes de começar a pesquisar. É desanimador, de certa forma, mas há muitos pontos para se discutir aqui. Primeiro: o período amostral é o melhor? Há quebras estruturais? A dinâmica é a mesma desde, digamos, 1999? Segundo: a estrutura do VAR realmente corresponde ao problema que nos foi proposto? Ou o sistema omite alguma variável importante? Faltou controlar por alguma coisa? Terceiro: há outras formas de se testar esta causalidade? Estas outras formas são superiores ao método utilizado? Quarto: você tabulou dados com erros (não neste caso)?

Não se engane. Isto não é o final da sua monografia. Isto é coisa de preguiçoso. Em seu curso de Economia, na graduação, você tem que ter aprendido a estimar e interpretar os resultados de um VAR. Não tem jeito. Todo livro-texto básico tem o teste de causalidade de Granger usado aqui. Além disso, existem pencas de pacotes gratuitos de econometria. Assim, como dizem os meus alunos que adoram uma internet: você pode aprender tudo pela internet. Pode? Então porque você não está fazendo este teste agora? Vai deixar os chineses ganharem mais esta batalha? Vai pedir arrego para o governo?

Bem, é isso. Lancei a semente. Vejamos se alguém entra para discutir isto.

Bom dia.

p.s. o gráfico das séries? Ei-lo.

monitorados_5

A lógica da inteligência contra a torcida do militante

Armínio Fraga ensina, de forma muito educada, ao militante torcedor (este que acha que o mundo se divide entre “ele e os tucanos” ou “esquerda e direita”, etc) a interpretar a economia. Faça uma boa ação: envie o link para um militante. Caso ele seja conhecido seu, aproveite para observar a reação dele. Veja o quanto ele é tolerante, ou o quanto ele consegue aceitar quando a desmistificação é de idéias que admira.

Uma reação típica é pegar qualquer análise (inferior, ilógica, etc) que chegue em conclusões opostas e dizer: “olha, como existe outra opinião, a sua está errada e serve ao grande capital malvado”. Eu sei, eu sei. Parece coisa de menino de 5 anos, mas lembre-se que a adolescência, hoje em dia, termina em algo como 21 ou 22 anos de idade. Então, sim, você encontrará gente com maturidade de 5 anos em corpo de 15.

Aliás, esta mudança – que vem lá da medicina – faz-me pensar sobre a idade mínima para certas coisas…

O VI Congresso da AMDE – últimos comentários

20140826_112254

Professor Cristiano reflete sobre cervos e iluministas franceses.

A Academia é um local fascinante porque é como a vida da gente. Assim, a ‘fascinação’ é uma mistura nem sempre trivial de frustração, alegria, vaidade(s) e esforço. Os Congressos da AMDE são uma oportunidade única de se vivenciar a melhor parte disto tudo. Por que?

Porque tem Economia e Direito interagindo. Isto significa que há temos desconhecidos para ambos e isto ajuda a quebrar vaidades. Alguns não suportam isto, fogem e não voltam. Ainda bem. Outros gostam, curtem e se superam. Ainda bem também.

Obviamente, como lembrou a Luciana Yeung na palestra do final da manhã de ontem, há tensões como as de economistas que não gostam de análises quantitativas que não envolvam a mais sofisticada econometria. Há que se debater, claro, o que seria a mais sofisticada dita cuja, mas há análises em que não é possível, por limitações dos dados, aplicar-se o último estimador inventado.

O contato com o Direito, inclusive, traz esta premência da realidade: não podemos esperar para sempre e, portanto, pesquisa aplicada é sempre incompleta porque sempre em um momento desta escalada rumo à menor imperfeição possível. É a vida e, como eu disse, a vida é um interessante amálgama – segundo alguns, uma orgia com Códigos de Hamurabi fálicos e big data abundantes, mas voltemos ao tema – que sempre vejo vivo em congressos acadêmicos.

Ronald Hillbrecht me lembra de alguém, acho que o falecido Coase, que dizia que o mais interessante da Ciência Econômica tem sido desenvolvido fora dos departamentos de Economia. Eu discordo parcialmente, mas vejo muitas evidências disto quando vejo os trabalhos apresentados nos grupos de trabalho destes congressos. Tem muita coisa preliminar – e me incomoda a demora com que o preliminar ainda é preliminar – mas o importante é que o bom vírus do progresso científico contaminou alguns profissionais do Direito e alguns economistas.

O Congresso, desta vez, não foi abraçado por muita gente. A divulgação foi precária? Não sei. Mas a tal juventude, que tanto dizem ser interessada em interdisciplinaridade ou em pesquisas não compareceu. Tal como o “gigante que despertou em 2013 e sumiu em 2014″, muita gente não apareceu para se divertir. Nem todos são interessados no tema, claro e nem tudo que há em Congressos assim é do interesse. Mas, como já disse em outras ocasiões, só melhoramos a qualidade do ensino – e do aprendizado – quando nos deparamos humildemente com o que nos é, até então, desconhecido.

Em alguma palestra, acho que a do Ivo, ele perguntou quantos faziam Economia. Levantei o braço. Depois ele perguntou quantos estavam perdidos. Levantei de novo. Claro, ele exclamou: “- Você é um economista e está perdido”. Pouca gente entendeu exatamente a piada. Ou melhor, muita gente entendeu a parte superficial da piada mas eu e ele e mais alguns entendemos o significado sutil da minha auto-ironia: estou sempre perdido porque sempre estudando e tentando aprender. Não é assim que estamos todos?

Até o ano que vem.

20140827_101702

Alunos se perguntam sobre o que estavam fazendo ali, de barriga vazia.

Ainda o VI Congresso da AMDE

20140827_103230

Taí um profissional que merece ser citado pelos comentários dos meus alunos e também pelos alunos do Direito que estiveram presentes em sua palestra. O prof. Ivo Gico tem sido uma presença constante na ABDE e na AMDE. Foi editor da revista da ABDE por um bom tempo também e, devo dizer, tem feito um notável trabalho de intermediação entre o vocabulário impenetrável do Direito (um dia alguém fará um estudo sobre barreiras à entrada e o “direitês”…) e o maravilhoso (ahá!) vocabulário econômico.

Ontem, inclusive, mostrou a força da evidência empírica ao responder um pergunta, convidando o questionador a lhe mostrar exemplos (a força da tecnologia veio com o prof. Satiro, e sua conexão wireless, logo encontrando-os em poucos minutos). Didaticamente, mostrou onde estava o erro da pergunta e todos aprendemos um pouco mais sobre contratos.

Faltava mencioná-lo aqui. Logo mais, comentários finais sobre o VI Congresso.

VI Congresso da AMDE – comentários

Vou aproveitar três fotos para falar rapidamente do Congresso. Primeiramente, este, da professora Luciana Yeung.

20140827_132044

Como falei, ao final da apresentação, um belo trabalho dela com o professor Luciano Timm (IDERS) com extrema relevância para qualquer debate sobre a infra-estrutura e o desenvolvimento econômico brasileiro. O pessoal de Economia não entende, geralmente, muito bem a importância da medida dos custos de transação, mas nós, com algum tempo de leitura na área, sabemos muito bem o quanto este artigo ajuda no debate e, veja bem, não é pouco.

Obviamente, não tem calibragem ou microfundamentos, mas o problema em questão nem o comporta (ainda?). Fato é que sem números, ficamos no vazio do discurso que, muitas vezes, lembra o de políticos que, aliás, acusamos de serem ineficazes na busca de solução de problemas reais porque…não nos trazem qualquer estimativa dos custos. Ou seja, voltamos ao ponto inicial.

Ao próximo.20140827_094813

O professor Antônio Porto, a cada encontro da AMDE ou da ABDE, não cansa de trazer dados ou temas novos. Incrível mesmo é como o pessoal do Direito – agora minha metralhadora vai para o outro lado – continua a torcer o nariz para métodos quantitativos. Porto trouxe tabelas geradas pelo Stata (infelizmente, ele não usa o R… ^_^) com resultados preliminares de um estudo interessante sobre inadimplência.

Não sou tão otimista quanto ao uso da economia comportamental para analisar os dados, mas, novamente, ele tem a amostra e está estudando os dados buscando tirar evidências iniciais sobre um problema relevante para a Economia e, obviamente, para o Direito. Não é hora do pessoal de Direito parar com o preconceito e investir na formação quantitativa? Acho que é.

Ao próximo.

20140826_112245O professor Ronald aí em cima dispensa comentários. Em uma apresentação claramente inspirada no livro (que eu, com remorso parcial, comprei e não li ainda) do Tim Besley (um antigo nome para quem conhece um pouco de Economia do Setor Público ou de temas ligados à área) com outro autor, ele trouxe de volta o maravilhoso insight  de Barry Weingast naquele texto clássico sobre a Revolução Gloriosa e a capacidade de endividamento do Estado britânico. Qual é o insight? Simples. Sociedades com instituições fortes se financiam melhor (e, diria eu, de forma mais sustentável).

A discussão das instituições, obviamente, é muito importante e os leitores mais antigos deste blog sabem o quanto o tema (re)aparece aqui. Não são poucas as vezes, né?

Tivemos mais palestras, mas eu queria usar estas três para ilustrar um ponto simples: há muita coisa interessante e importante sendo pesquisada no país, a despeito de recursos escassos, greves, politicagens, vaidades, etc. Estas pesquisas, muitas vezes, resultam em trabalhos que são rapidamente usados para rever políticas públicas ou para debater novas formas de melhorar a economia de uma sociedade.

A AMDE – e suas entidades irmãs como o IDERS, ADEPAR, ABDE, etc – têm feito um trabalho muito interessante ajudando a divulgar trabalhos desta área. Ao longo dos anos tem-se apresentado estudos que tentam avançar a abordagem de law and economics no Brasil. Nada mais saudável.

Foram dois dias interessantes, mas cansativos. Espero que todos tenham gostado do evento.

 

“E aí, brôu”, em sua versão anos dourados (ou nem tanto)

eaibrou

Clique na imagem para ler o verbete da Wikipedia sobre um movimento popular cujo discurso valorizava a “brasilidade” e…bem, tinham uns detalhes também…(cuidado: pode forçar você a repensar seu amor aos estereótipos).

VI Congresso da AMDE

Amanhã começa o VI Congresso. Nomes de primeira linha não faltam. Nos grupos de trabalho, o time do PPGOM está representado por Gustavo Frio e Daniel Uhr e também por Renata Cardoso, o mesmo Daniel e Julia Uhr. Dá-lhe PPGOM!

Aliás, quanto a este artigo, veja o resumo:

Teoria econômica do casamento, evidências das características socioeconômicas e do comportamento saudável sobre o estado civil dos brasileiros
Considerando os inúmeros impactos que os padrões conjugais trazem à sociedade e a relevância das famílias no contexto econômico, testamos a teoria econômica do casamento, verificando de que forma características socioeconômicas e de saúde, afetam o estado civil dos brasileiros. O método utilizado foi o semi-paramétrico(probit), aplicado sobre os microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do ano de 2008, que apresenta como suplemento, informações sobre o tabagismo e a saúde dos brasileiros. Os principais resultados mostram que hábitos de fumo, ter depressão, asma, fazer hemodiálise, morar com a sogra, morar na zona urbana ou metropolitana, afetam negativamente a estabilidade do matrimonio. Já, ter filhos pequenos, elevação da renda, aumento da escolaridade, afetam positivamente a estabilidade da união. Participar das tarefas domésticas, para as mulheres, tem sempre efeito positivo na estabilidade da união, diferente do resultado obtido na análise para os homens. (grifos meus)

Curioso, não? Mas duvido que minha esposa queira levar a sério as evidências científicas e vai se agarrar ao preconceito de que homem tem que participar de tarefas domésticas (tsc, tsc, tsc, você acreditou mesmo?)…

O Congresso, como sempre, promete. Ah sim, corre lá que ainda há vagas!

UPDATE: Este artigo me lembra isto.

Curva de Phillips, sempre.

Dizem Machado & Portugal (2014):

This paper estimates reduced-form Phillips curves for Brazil with a framework of time series with unobserved components, in the spirit of Harvey (2011). However, we allow for expectations to play a key role using data from the Central Bank of Brazil’s Focus survey. Besides GDP, we also use industrial capacity utilization rate and IBC-Br, as measures of economic activity. Our findings support the view that Brazilian inflation targeting has been successful in reducing the variance of both the seasonality and level of the inflation rate, at least until the beginning of the subprime crisis, when there was a dramatic drop in activity. Furthermore, inflation in Brazil seems to have responded gradually less to measures of economic activity in recent years. This provides some evidence of a flattening of the Phillips curve in Brazil, a trend previously shown by recent studies for other countries.

Então, é mais ou menos assim: (1) meta de inflação funciona (para o desespero dos pterodoxos); (2) a curva de Phillips tá ficando horizontalzinha (o trade-off está mudando, mas não vou especular sobre os motivos).

Será que vemos uma mudança estrutural em nossa economia, fruto das políticas econômicas dos últimos anos? Liberamos o câmbio, mantivemos – até o segundo governo Lula – o sistema de metas e redistribuimos renda. Entretanto, a abertura econômica não é lá aquelas coisas (e, se não estou enganado, isso também poderia impactar no trade-off ilustrado pela curva mais famosa do debate do café entre economistas).

Estabilizou mesmo?

História econômica da selva brasileira: tributos, taxas e afins

Na colônia brasileira – semelhantemente ao que se fizera em ilhas ultramarinas colonizadas por portuguêses – os tributos exigíveis foram estipulados nos forais dos donatários e se constituíam essencialmente da dízima e do quinto: a dízima, sôbre os gêneros produzidos pela indústria do homem; o quinto, sôbre os produtos da natureza colhidos pelo homem. Dízima e quianto que, sendo expressões de valores porcentuais fixos, constituíam um sistema insusceptível de qualquer alteração, quer para diminuir, quer para elevar o ‘quantum’ dos impostos, o que representava o máximo de garantia contra a ‘fome’ tributária do Estado. Fora disso, havia, como em tôda parte, os impostos sôbre transações, os quais nenhum govêrno podia elevar à sua vontade. E no cso de certas taxas (de valor variável) que, o donatário podia cobrar, por si ou por concessionário, pela prestação de serviços de utilidade pública – como por exemplo o de barcas para passagem de rios – êle sòmente cobraria ‘aquêle direito ou tributo que lá em câmara fôr taxado’, como se prescrevia nos forais. O seja, com a aprovação dos contribuintes, dos usuários, representados na câmara pelos vereadores escolhidos pleos mesmos contribuintes. [Neme, M. Fórmulas Políticas no Brasil Holandês, Editora da Universidade de São Paulo, 1971, p.136-7 (grifos no original]

 

Eis aí a vida do contribuinte lá no século XVI. Não era fácil, né?

Sorin era o cara!

Culinária e Cultura

Calma, embora o Cruzeiro seja o melhor time do Brasil, estou falando de outro Sorin.

Municipal officials here are trying to give people a real taste of this city’s history by reproducing European sweets once eaten by local feudal lord Otomo Sorin (1530-1587).

(…)

Mainly using ingredients that have been used for centuries, such as honey, brown sugar and kinako (roasted soybean flour), they produced a variety of sweets, such as “pao-de-lo,” the prototype of castella. They refrained from using materials, such as leavening agents, which did not exist in those days.

“Based on historical facts, we want to make delicious sweets,” said Kikuya Co. President Haruo Saito.

The city government plans to offer samples to citizens in the “Oita Seikatsu-Bunka-Ten” (Oita life and culture exhibition) to be held in the city in October.

Pois é, gente. Quem admira a cultura japonesa deve admirá-la por algo muito maior do que uma suposta “pureza” de mil anos. Cultura é sempre algo dinâmico e tem tudo a ver com o desenvolvimento de instituições e, portanto, com o desenvolvimento econômico. Bom, mas isso você, leitor frequente do blog, já sabe. O que você não sabia, talvez, é que o bolo Castella, tão frequente nas lojas da Liberdade, é, de certa forma, o resultado de uma espontânea – no sentido hayekiano de ordem espontânea – troca de influências culturais aqui e lá.

A ironia da história – digo isto porque sempre me lembro dos preconceitos – é pensar que, enquanto alguns condenam a cultura portuguesa por nossos males históricos, a mesma cultura portuguesa foi uma influência importante para a sociedade japonesa.

Da Macro para a Micro

Quem não acredita em microfundamentos – ou que o indivíduo é a noção última na análise científica das trocas – não deveria levar o que eu digo a sério, não é? Afinal, basta uma variável dummy na regressão com países para você falar que o impacto das instituições portuguesas não é importante.

Infelizmente, para os preconceituosos e pesquisadores sérios, não é tão simples. Estudos de caso são importantes também e, quando analisamos a História Econômica em eventos específicos, nem tudo que parece em macro o é em micro e, eu arrisco, em realidade. Afinal, uma dummy pode ser uma escolha errônea para se mensurar um fenômeno, como já mostraram diversos economistas famosos.

Conclusão

Conclusão? Eu quero é voltar ao Japão para comer um bolo Castella de lá.

Ô, portuga, manda um quindim aí, vai!

Momento Sala de Aula do Dia (de uma época em que aluno não se diminuía limitando-se a um simples ‘zapzap’…)

Aluna

Cecília Meireles

Conservo-te o meu sorriso
para, quando me encontrares,
veres que ainda tenho uns ares
de aluna do paraíso…

Leva sempre a minha imagem
a submissa rebeldia
dos que estudam todo o dia
sem chegar à aprendizagem…

- e, de salas interiores,
por altíssimas janelas,
descobrem coisas mais belas,
rindo-se dos professores…

Gastarei meu tempo inteiro
nessa brincadeira triste;
mas na escola não existe
mais do que pena e tinteiro!

E toda a humana docência
para inventar-me um ofício
ou morre sem exercício
ou se perde na experiência…

(Vaga Música, 1942)

Desconstruindo Piketty

Samuel Pêssoa já fez isto, mas agora a desconstrução vem de Acemoglu e Robinson. O livro vai ser lançado aqui já morto, pelo visto. Claro a tietagem vai dizer que não é bem assim, que isso e aquilo, mas está difícil sustentar as hipóteses do neo-marxismo do francês. É a lei de ferro da teoria econômica: não modelou, dançou.

O efeito das minidesvalorizações cambiais…lá no governo militar

Quem é, quem é?

Muitas vezes acusado de ter um comportamento errático, um certo economista que abandonou a academia há anos pela política (os preços relativos falaram mais alto?) já soube mais no passado.

Lá pelos idos do final da década de 70 (especificamente, 1979), ele se debruçou sobre um problema da economia brasileira representado pelas famigeradas minidesvalorizações cambiais do governo. Uma pergunta que, obviamente, ocorreria a qualquer bom aluno (= quase-estudante ou estudante) de Ciências Econômicas (se você é destes que não acredita que a economia é uma ciência, pare de ler aqui e saia correndo deste blog. Vá tocar violão com os amigos.), não é mesmo?

Orto-heterodoxo, sem distinção de gênero

Tal como todo economista “ortodoxo” que, na época, era uma designação satânica para todo aquele que ousava usar Econometria. Por favor, abra um parênteses: com o advento da estabilização da economia, vários “heterodoxos” descobriram a Econometria quando viram o quanto uma boa consultoria podia lhes render…este é um tema para uma tese de alguém que queira estudar os incentivos políticos por trás da suavização do – outrora – raivoso discurso heterodoxo (da ala esquerda) contra os métodos quantitativos. Fechando-o e voltando ao seu texto (ainda sem citá-lo corretamente para manter o mistério), o que foi que o sujeito concluiu?

O sistema de minidesvalorizações da taxa cambial a intervalos curtos provou ter para a economia brasileira diversas vantagens sobre o sistema de desvalorizações pronunciadas a intervalos longos. A principal vantagem foi a maior estabilidade na relação entre preços internos e externos para todos aqueles envolvidos no setor externo da economia. Portanto, o risco cambial envolvido na exportação, importação, investimentos estrangeiros diretos e operações internacionais de empréstimo foi praticamente eliminado .(p.172)

Um texto dos anos 70 com uma conclusão destas, você dirá, só pode ser de algum economista simpático ao governo. Ou então, para alguns mais radicais, de algum economista burguês, em busca da defesa dos interesses da grande indústria e do café (ah, o malvado IBC (piada apenas para os chegados em História Econômica do Brasil)…). Ou, quem sabe, algum desgarrado da oposição que, como Barros de Castro, ousou pensar diferente, ganhando o ódio de companheiros oposicionistas. Bem, não era Barros de Castro. Podem tirá-lo da mesa de apostas.

Brincando com bonecas…

Ah sim, o mais legal é que até o “seu Boneco” entrou no estudo (ahá!), em um tempo em que alguns economistas tinham a pretensão de conseguir traduzir todos aqueles termos (o meu preferido era um livro cujo título falava da matriz insumo-exsumo. Imagine o corpo do texto…é…eu o li).

20140824_095548

 

Então, com bonecos, testes F e defasagens distribuídas (sim, isso mesmo!), mas também com lamentáveis regressões que envolvem dez observações (item 6.2.4), o economista citado deu aos economistas heterodoxos, voluntariamente ou não, não importa, um argumento empírico para defenderem as minidesvalorizações cambiais do governo militar. Obviamente, ficava feio defender o governo militar e a galera criou a hashtag #partiusatanizarcâmbiolivre.

Obviamente, não creio que a intenção do autor foi criar uma escola de soldados pró-minidesvalorizações (embora consequências não-intencionais sejam muito comum na vida da gente). Mas ele forneceu armamento que não se baseva mais apenas em reflexões abstratas ou de cunho marxista (logo, não falseável) ou austríaco (logo, não falseável). Alguém até achou que valia a pena publicar e divulgar, e assim foi feito.

Quem é, quem é………..?

Você já adivinhou quem é o economista citado? O pessoal da fundação (que, infelizmente, leva o nome de um ditador, Getúlio Vargas) tem a obrigação de saber quem é. Vou dar uma dica: ele é senador. Adivinhou? Não? Então veja a bibliografia deste texto.

Eu sei, eu sei, você ia dizer que estava entre Reginaldo Nogueira Pinto Jr., Mario Henrique Simonsen e Gustavo Franco, né? Pois é. Nem tudo que balança cai.

Bibliografia

Suplicy, E.M. (1979). Os efeitos das minidesvalorizações na economia brasileira. Editora da Fundação Getúlio Vargas, 2a edição.

Análise de conjuntura

Quer o governo ache isso pessimismo ou não, a análise do prof. Pastore se impõe sobre a ignorância e o fanatismo dos que acham que só existem maravilhas no governo atual. É quase como dizer: desculpa aí, galera, mas a interpretação racional dos fatos não nos leva para o Olimpo não. Tá mais para o castelinho de Hades…

Como entender as diferenças entre as duas equipes econômicas ligadas à oposição?

Este vídeo parece promissor nisto. Honestamente, fico com Gustavo Franco. Mas concordo que ambos representam políticas econômicas (portanto sociais, mesmo que você não goste de ouvir desta forma) infinitamente melhores do que as que vejo entre os representantes do status quo.

p.s. o Roberto DaMatta é um show à parte. Não sou nada perto de um especialista em antropologia, mas gostei do que ouvi (notadamente sobre a origem dos jornais no Brasil).

Socialistas e Empresários podem se unir em torno de interesses comuns? A Emporiofobia novamente.

For the first time in human history, modern consumer culture has come to hold out the ideal of comfort as a plausible full-time expectation and worthy human aim. We live in the time of comfort foods, comfort zones, humidity comfort indices, being comfortable in your own skin. But there are values that are not compatible with comfort, and those include values crucial to the adventure you’re about to undertake.

Nada como um trecho de um discurso de boas-vindas para novos alunos que não deixa de falar algumas verdades. Afinal, sem determinados valores e comodamente acostumados com uma vida tranquila, não passamos de sacos de pipocas jogados no sofá, não é? Sair da zona de conforto e encarar um mundo cheio de incertezas é um valor tão antigo para a humanidade quanto compatível com o funcionamento de uma sociedade em que trocas voluntárias são sinônimo de prosperidade.

Mais um pouco:

But the fact that comfort promotes mediocrity is not the only problem. I will be amazed if you are not carrying around in your head a chatter of voices assuring you that you should already know what you’re going to be in later life, and should plan your Duke career to enable the systematic acquisition of all the merit badges that will assure your arrival at that happy goal.  There are many contributors to this inward chorus — natural anxieties, an unreliable economy that has heightened the perception of risk, a media and political chorus convinced that education has no value unless it aims straight for a job, parents who crave assurance that you will be set for life. These voices all reinforce the idea that there is one sure ultimate comfort: a career that will purge your life of uncertainty and risk. But allow me to say: you’re still very young, you can’t possibly already know for certain the eventual career that you are meant to occupy. To find that, you need to open your horizons, learn the range of possibilities, and find what fulfills and motivates you. Duke can be just the space of exploration and discovery that you need, but only if you free yourself from the need to know the answer in advance.

Um verdadeiro balde de água fria na visão emporiofóbica que une aqueles que poderíamos chamar de paulofreiristas (querem destruir a sociedade de mercado porque são socialistas) e rent-seekers (desejam uma sociedade de mercado, mas não os valores que potencializam seus efeitos para todas as pessoas).

Aliás, esta é uma aliança que, creio, explica muito do comportamento de boa parte dos brasileiros. Amantes do capitalismo de compadres (crony capitalism) são os maiores aliados dos tradicionais emporiofóbicos ideológicos (socialistas e afins) e, por isso, não ligam para distorções que se ensina para crianças porque, afinal, desejam construir uma sociedade baseada em privilégios (para si) e, caso fracassem, querem ter a quem culpar (e aí, erroneamente, jogarão a culpa no “mercado selvagem”, etc).

No fundo, há uma questão de dilema do prisioneiro simples aí, mas eu queria mesmo era destacar a aliança baptists-bootleggers que caracteriza os principais interessados na manutenção de um capitalismo de compadres como o nosso. Some-se a isto os velhos dilemas da ação coletiva (os incentivos desalinhados) e você explicará boa parte do curioso fenômeno que é o sujeito se dizer liberal mas não se preocupar com um ensino distorcido que busca doutrinar seu filho (contra os valores liberais que ele aprende em casa), por exemplo. Será?

A dica do texto é da Christiane Albuquerque.

Capital Humano, circa 1970

20140816_110813-002Não sei precisar ao certo quando foi, mas sei que a formação do capital humano começa em algum momento para todos nós de maneira mais sistematizada, pensada e organizada. Em algum instante, algum nano-instante, uma nova e maravilhosa sinapse se inicia, com novos elementos: é quase um novo-nascer, sabe?

Depois de um tempo – e a novidade do uniforme, da merendeira – os rostos diferentes, brincadeiras que exigem um pouco mais de algumas habilidades que não necessariamente sabíamos ter (ou que não direcionávamos, digamos, de certa forma).

Alguém ajudou a criança a ver diversão em uma sala de aula. Foi lá, em tempos passados, circa 1970. Depois, sempre depois, seguiu a mesma criança em frente, por caminhos nem sempre cômodos ou fáceis. Onde será o fim disto tudo? Não sei. Só sei que terminará um dia, quando o bombeamento de sangue cessar, por um motivo ou por outro.

De qualquer forma, às professoras da época, meu muito obrigado e…………………voltamos à programação normal.