Modelagem Baseada no Agente

Dando um pouco de continuidade ao texto anterior, sim, eu aprecio textos como este. Ué, pessoal? Sou economista! Sim, destes mainstream (ou, talvez, no bom conceito criado por Peter Boettke, mainline), que gosta de álgebra, estatística, modelos de consumo com renda permanente, etc.

Mas ser economista não é ser poste. Não suporto discurso bocó, é verdade, mas tenho idade suficiente para buscar minhas alternativas de leitura e linhas de pesquisa por aí. O problema é que o tempo é escasso. Enfim…

Ah sim, lá no Nepom, hoje, tem um texto para você, aluno de primeiro ano, que ainda acha que sabe o que é melhor para os outros.

Não confunda urubu com meu louro ou “Econometria não é Estatística e vice-versa, embora…”

Excelente texto do Rob Hyndman sobre as diferenças entre as duas espécies de aves mais exóticas que conheço: os estatísticos e os econometristas.

O mais importante, talvez, seja o otimismo do final do texto. Bom, será que estamos mesmo fechando o hiato entre ambas as abordagens? Meu testemunho pessoal fica no meio do caminho, digamos assim. Desde que comecei a usar o R, tive contato com muito mais ferramentas – e, por conseguinte, com os vocábulos pertinentes – de ambas as áreas. Tem momentos em que a gente fica preocupado se está burro, enlouquecido, bêbado ou, digamos, sob efeito dos três.

Mas é muito importante não se deixar abater. Afinal, alguém precisa fazer pesquisa, né? Como aquele aluno interessado em Economia que leu sobre algum método estatístico novo e que tem potencial vai fazer se não encontrar um professor por perto? Bom, para a sorte deste aluno, existe sempre alguém por perto (e não sou eu, he he he).

Como se conjuga um proletário (sindicalista)

Como se conjuga um Proletário – MENino sindicalizado

Acordou. Levantou-se. Aprontou-se. Lavou-se. Trocou-se. Enxugou-se. Penteou-se. Lanchou. Escovou. Arrotou. Saiu. Entrou. Resmungou. Bateu o cartão. Leu o boletim do sindicato. Sentou. Reuniu. Enrolou. Trabalhou. Chegou. Desceu. Subiu. Entrou. Xingou o capital. Assentou-se. Ligou a TV. Assistiu. Xingou o filho. Reclamou. Chamou a mulher. Jantou. Saiu. Entrou. Reuniu. Deliberou. Deliberou. Deliberou. Escondeu. Burlou. Safou-se. Deliberou. Deliberou. Deliberou. Associou-se. Vendeu-se. Embolsou. Entrou em greve. Bateu em quem quis trabalhar. Barrou. Xingou. Entrou na internet. Trollou. Recebeu pela guerra virtual. Embolsou. Xingou de PIG. Saiu.
Comprou. Bebeu. Bebeu. Bolinou. Estimulou. Beijou. Xingou de PIG. Xingou de neoliberal. Urrou. Bateu. Espancou. Espancou. Espancou. Justificou-se. Acusou de burguês. Citou a Teologia da Libertação. Xingou de PIG.
Saiu. Chegou. Despiu-se. Abraçou. Deitou-se. Mexeu. Gemeu. Fungou. Babou. Antecipou. Frustrou. Virou-se. Relaxou-se. Envergonhou-se. Presenteou. Saiu. Despiu-se. Dirigiu-se. Chegou. Beijou. Negou. Lamentou. Justificou-se. Bebeu. Bebeu. Bebeu. Dormiu. Roncou. Sonhou. Sobressaltou-se. Acordou. Preocupou-se. Temeu. Suou. Ansiou. Tentou. Despertou. Insistiu. Irritou-se. Temeu. Levantou. Apanhou. Rasgou. Engoliu. Bebeu. Dormiu. Dormiu. Dormiu. Dormiu. Acordou. Levantou-se. Aprontou-se…

O original está aqui.

Parar de fumar é uma questão institucional?

Começamos com a origem da notícia: lá no meu feedly, o Tyler Cowen com um título curioso. Fui parar no artigo citado por ele, do MIT Techonology Review e, claro, no artigo original.

Qual é o ponto do artigo? Simplesmente o de que há uma diferença entre começar e parar de fumar conforme algumas normas societais. Veja o resumo do artigo (todos os negritos, em todas as citações, por minha conta, ok?):

Smoking of tobacco is predicted to cause approximately six million deaths worldwide in 2014. Responding effectively to this epidemic requires a thorough understanding of how smoking behaviour is transmitted and modified. Here, we present a new mathematical model of the social dynamics that cause cigarette smoking to spread in a population. Our model predicts that more individualistic societies will show faster adoption and cessation of smoking. Evidence from a new century-long composite data set on smoking prevalence in 25 countries supports the model, with direct implications for public health interventions around the world. Our results suggest that differences in culture between societies can measurably affect the temporal dynamics of a social spreading process, and that these effects can be understood via a quantitative mathematical model matched to observations.

Como assim? Vamos ao MIT Technology Review:

Psychologists have always assumed that patterns of behavior change more quickly in countries that emphasize collectivism. Once an idea has taken hold, the pressure to conform means it spreads rapidly. “It has previously been argued that social support mechanisms in collectivistic societies make it more likely that a person will stop smoking,” say Lang and co.

And conversely, in countries that emphasize individualism, patterns of behavior must change more slowly because there is less social pressure to conform.

The puzzle is that the data on smoking shows exactly the reverse. Sweden was much slower to adopt smoking and much slower to stop.

(…)

The model reveals why Sweden stopped smoking more slowly. “Our model suggests that … social inertia will inhibit decisions to stop smoking more strongly in collectivistic societies than in individualistic societies,” say Lang and co.

Interessante, né? Então esta coisa de “individualismo” e “coletivismo” faz a diferença no ato de fumar ou de desistir de fumar? Segundo as evidências dos autores, faz. Veja que interessante: para tentar resolver o problema, os autores utilizaram a estratégia teórica de tratar o fumo como uma epidemia.

Já posso ouvir o choro dos black blocs da ideologia: o homem é um indivíduo, não se pode tratar isso como epidemia, Mises nunca disse isso, Marx estava certo, etc, etc, etc. Bom, se você é destes, mude de canal e não volte a este blog porque vai te dar diarréia.

De minha parte, acho interessantíssimo o trabalho dos caras (que não são rotuláveis, para o desespero dos pterodoxos, de marxistas, austríacos, etc). Não sei como o Cowen acha estas coisas, mas acho legal.

Agora, lembrando deste nosso blog, um dos meus temas favoritos é o de instituições informais e formais. Lembram? Pois é. O tema tem tudo a ver com História e Desenvolvimento Econômico (ah, Douglass North…) e, repare bem, não é tão simples assim falar dos aspectos “individualistas” e “coletivistas”. Quem acompanha este blog há mais tempo sabe que este tema é uma constante aqui.

Bem, eis aí mais um tema para você debater com seus amigos, fumantes ou não.

Mais individualismo, mas fumo?

Medalhões

homeschooling, em uma sociedade na qual os incentivos para a prática rent-seeking prevalecem sobre os incentivos para a prosperidade social derivada de uma economia de mercado resulta em…(descubra aqui).

p.s. não, não é uma crítica ao homeschooling em si. A ironia é um pouco mais sutil.

O grande fosso entre a ideologia e a realidade: o ataque à turma da Mônica

Nem quero saber quem foi o autor do projeto de lei que resultou na bobagem resumida abaixo.

No Brasil, temos a felicidade de poder acompanhar o surgimento de leis arbitrárias a cada semana – fascículo especial com capa dura todo mês na banca mais próxima de você. O projeto de lei 5921/2001, que foi aprovado há três meses, trouxe a proibição de publicidade voltada para o público infantil. De brinde, uma caneta esferográfica e o fim da exibição de desenhos animados na TV, que hoje não têm patrocínio.

Incrível, não? Enquanto isto acontecia, o movimento libertário brasileiro fazia de conta que não era com ele e publicava mais um meme com a foto do Thomas Sowell no seu Facebook. Ou promovia mais uma conferência no Brasil, para promover a idéia de que o Banco Central deveria ser extinto. Ou então poderia ser encontrado em grupos de discussão, nos quais a maior briga ocorre porque alguém não quer discutir a econometria usada para se testar se propagandas influenciam compras de artigos infantis porque a mesma econometria não era usada por Mises.

Como nos ensina a boa economia: tempo é dinheiro. Já que alguns gostam de usar o termo, bem, a ação humana tem um propósito (se não tivesse, seria engraçado, né?) e qual será o propósito de se investir tanto dinheiro na marca pop que é se dizer libertário, anarco-sei-lá-o-quê, dizer que leu alguns parágrafos-chave do livro “A Ação Humana” (ou mesmo o livro todo), divulgar frases de liberais norte-americanos e falar que o Banco Central deveria ser extinto e que abortar pode (ou não) ser uma grande bandeira libertária?

Há libertários e libertários e, como já falei aqui antes, este é um movimento que cresceu muito nos últimos anos, ocupando um espaço que estava praticamente vazio, dada a hegemonia inegável (mesmo) dos emporiofóbicos no Brasil (para uma definição de “empóriofobia”, use a caixa de busca acima). Isso não quer dizer que esta ocupação seja homogênea, até porque, como sabemos, indivíduos são…indivíduos. A qualidade intelectual e das estratégias utilizadas são diferentes. Tem de tudo no movimento libertário, para o bem ou para o mal.

O que não tem, de forma insistente, devo dizer, é pesquisa empírica. Falar em estimar carga tributária, por exemplo, é rotulado de “questão puramente acadêmica” (tenho salvos os diálogos sobre isto, em backup). Então, a discussão séria morre porque só se discute sobre mundos virtuais em que existem infinitas cargas tributárias e infinitos governos. Ótimo para RPG ou para pessoas com forte pendor autista, mas pouco útil para uma efetiva ação em prol da mudança da sociedade brasileira.

Mas não precisamos nos ater a questões econométricas. Advogados não faltam no Brasil (taí um artigo que não falta no supermercado da vida…). Tem advogado de tudo que é jeito, claro. Até alguns que se dizem libertários. Vai ver existe até publicitário libertário também, mas eu me afastei do grupo pelos motivos que você está lendo aqui, dentre outros, e não sei muitos nomes neste campo. Economistas liberais? Fácil de encontrar.

O que não é fácil de encontrar é um grupo de dois ou mais liberais que tenha conseguido sair da areia movediça da discussão ideológica – na qual se “investe” muito tempo rotulando um liberal de “socialista” (e isto geralmente ocorre quando se vai discutir algum problema de política pública…) – para a ação real. Poderíamos chamar estes liberais de liberais autistas (sem ofensas aos autistas), pela característica dificuldade de passar das idéias para a ação.

Temos aí as características individuais – gente que adora brigar, que tem dificuldade para se relacionar com outras pessoas, que não curte agir em grupo (esquecendo-se que ser liberal não é sinônimo de abandonar a sociedade, como diria Adam Smith) – e há também a velha operação das leis econômicas básicas: a existência do caroneiro (aquele que não quer arcar com os custos, mas apenas deseja usufruir dos benefícios) também é um fato. A falta de leitura (profunda), típica do estudante brasileiro também é um entrave. Afinal, por que você acha que o mercado editorial brasileiro não vai bem? Uma video-aula, por melhor que seja, não substitui as horas de leitura e nem o esforço do indivíduo em organizar suas idéias, resumir, ler literatura especializada, etc.

Quem ganha com esta inação? Não é apenas o governo (ou os políticos), mas também empresários que não querem concorrência. Sabemos que não existe almoço grátis. Agora, a quem interessa este tipo de política? Quem ganha com tanto investimento em debates e brigas sem qualquer ação efetiva contra a baixa concorrência e a alta carga tributária?

Eis o desafio do dia: faça-me feliz. Mostre-me um link para uma ação legal efetiva gerada por advogados ou grupos de advogados liberais contra alguma arbitrariedade do governo. Faça isso nos comentários. Vou abri-los apenas para este tipo de texto. Se não quiser fazer isso por mim, faça-o pelas crianças, que curtem, dentre outras, a Mônica, a Magali e o Cebolinha.

O governo quer quebrar esta promessa?

História Econômica: grandes obras elegem ditadores?

Como brasileiros adoram votar em políticos que fazem grandes promessas de infra-estrutura, dentre outras, não custa lembrar que nem sempre o final da história é feliz.

Eis aí um exemplo.

HIGHWAY TO HITLER
Nico Voigtländer & Hans-Joachim Voth

Abstract: Can infrastructure investment win “hearts and minds”? We analyze a famous case in the early stages of dictatorship – the building of the motorway network in Nazi Germany. The Autobahn was one of the most important projects of the Hitler government. It was intended to reduce unemployment, and was widely used for propaganda purposes. We examine its role in increasing support for the NS regime by analyzing new data on
motorway construction and the 1934 plebiscite, which gave Hitler greater powers as head of state. Our results suggest that road building was highly effective, reducing opposition
to the nascent Nazi regime.

Pois é. Controlar o uso dos recursos públicos não tem apenas um lado, digamos, contábil. Não se trata apenas de ciclo político-econômico. Pode significar evitar algo bem mais sério…

Construtivismo não leva ninguém a…

Quer saber? Então leia a entrevista. Depois, chore. Os resultados no PISA não negam e já geraram até a reação bizarra de “não concordamos com o PISA porque é um exame neoliberal e excludente”.

Sim, tem gente que além de não saber ler, não sabe perder ou pensar.

Não precisam agradecer, feministas, é só uma questão de incentivos

A luta das mulheres é como qualquer outra luta e não foge à regra: responde a incentivos. Não caia na conversa da vendedora de ilusões que só quer um emprego público: no final do dia, você tem que entender como incentivos funcionam. Veja o caso da prostituição, por exemplo.

Momento R do Dia – os clientes que não comiam…

An interesting story appeared over the weekend about a popular NYC restaurant realizing that, although the number of customers they served on a daily basis is about the same today as it was ten years ago, the overall service has significantly slowed. Naturally, this situation has led to poor online reviews so, the restaurant hired a firm to investigate the problem. The analysis of surveillance tapes led to a surprising conclusion. The unexpected culprit behind the slowdown was neither the kitchen staff nor the waiters, but customers taking photos and otherwise playing around with their smartphones.

Pois é. A história toda está aqui.

Acabou o mimimi pterodoxo: corrida aos bancos também tem equilíbrio!

Foi o Laurini, aquele danado, que viu primeiro e publicou, mas eu replico aqui a ótima notícia.

O artigo “Run theorems for low returns and large banks”, escrito pelo professor Jefferson Bertolai, do Departamento de Economia da FEA-RP, em coautoria com Ricardo de Oliveira Cavalcanti e Paulo Klinge Monteiro, do EPGE/FGV, foi publicado na revista Economic Theory, A1 no Qualis CAPES na área de Economia.
No artigo, os autores demonstram a existência de equilíbrio em casos de corrida bancária. Até então, dentro da literatura existente, não havia prova matemática da existência de equilíbrio em casos de retiradas em massa de recursos bancários.

Obviamente, vai começar o mimimi pterodoxo número dois, que é o famoso: “mas isso é só matemática, não entendo nada, logo, não é relevante porque sou muito inteligente” (coloque hífens para ler com aquele gostinho especial). O fato é que o artigo é muito importante e tem implicações teóricas que precisamos começar a entender melhor a partir de agora.

Antes de sair por aí com um panfleto dizendo que “matemática não é economia” ou que “economia é muito abstrata e precisamos ler o Piketty”, sente e estude, meu amigo. Você poderá se tornar um ser humano melhor amanhã…

Ah sim, não conheço nenhum dos autores, mas lhes pagaria uma cerveja artesanal por esta publicação. Parabéns!

Mercados geram cultura? A resposta é inequívoca: sim!

Leia esta ótima matéria para ver como o comércio gera cultura. Trata-se de uma das matérias de um especial do Asahi Shimbun sobre o chá verde e a trajetória de um piloto kamikaze (que, ironicamente, sobreviveu à guerra).

Eu sei que muita gente é emporiofóbica e acha que mercado destrói cultura. Trata-se de um preconceito bem sedimentado em muita cabeça de meninos e meninas que andam por aí, pelos colégios, desarmados diante da ignorância. Mas o fato é que trocas voluntárias (sim, este é outro nome para trocas de mercado, a despeito do que te disseram nos “supostos” livros de história do ensino médio) geram cultura.

Claro que é verdade que o advento do Caminho do Chá (esta arte japonesa inventada a partir do chá verde trazido da China), uma vez admirado, roubou público do que quer que existisse antes, mas aí não é uma destruição de cultura, mas a criação de uma nova forma de se agregar valor ao chá (o prazer de se beber chá não precisa ser preservado em sua pior forma, a não ser que alguém o queira…e se o quer, que não obrigue os outros, mas faça-o para si).

A diversidade cultural vem do fato de que sempre há quem discorde deste ou daquele aspecto de uma determinada forma de se fazer algo – no caso, tomar chá – e é por isto que a arte nipônica do chá não é unanimidade mas, nem por isso, deixa de ser admirada.

A propósito, pode ser que você queira mesmo é fazer uma super-panqueca de chá verde, esquecendo-se desta conversa toda. Bem, isso não é difícil e a receita está aqui.